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Joaquim Cerqueira [1930-2026]

“A filosofia e a sabedoria comunicadas com amizade”

| 23/08/2026

 

Às primeiras horas do dia 22 de agosto, o padre franciscano Joaquim Cerqueira Gonçalves “despediu-se de todos, sem incomodar ninguém, com a serenidade de quem sabe que a morte é apenas o avesso da vida ou, melhor ainda, a sua ‘irmã’ mais certa”, no dizer do seu confrade frei Isidro Lamelas. Cerqueira Gonçalves tinha 96 anos, 71 anos de padre e décadas de dedicação ao ensino e à produção científica sobretudo no campo da filosofia medieval, mas também nas áreas da ontologia, hermenêutica, filosofia da linguagem e da ecologia.

São Francisco e Santo Agostinho terão sido as duas figuras mais marcantes do seu pensamento filosófico de que beneficiaram durante mais de 35 anos os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa e também, por menos tempo, os da Universidade Católica Portuguesa. Mas São Boaventura não lhe foi menos importante, tendo sobre ele escrito a dissertação Homem e Mundo em São Boaventura com que se doutorou em Filosofia, na Faculdade de Letras de Lisboa, faculdade em que se licenciara, com 18 valores.

“O seu apostolado passou sobretudo pela pastoral da inteligência, servindo a ordem franciscana e a Igreja pela via da cultura”, resume frei Isidro Lamelas na nota que sobre ele enviou ao 7MARGENS. Apesar de não gostar de viajar de avião, essa procura de servir pelo conhecimento e pela cultura levou-o a estudar filosofia escolástica em Toulouse (França) e, muito mais tarde, a passar um ano sabático na Universidade de São Boaventura de Nova Iorque.

Mas, para além de todos os títulos académicos (entre os quais o de professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, na qual foi também presidente do respetivo conselho científico), o padre Cerqueira “aprendeu com São Francisco e Santo Agostinho que a sabedoria se comunica melhor quando aliada à amizade e por isso, preferiu continuar o seu percurso académico em solo luso, podendo assim criar uma rede de amizades sólidas e frutíferas” que nunca parou de desenvolver.

Apesar de também ter lecionado na Faculdade de Letras do Porto, viveu, após os anos de formação inicial, quase sempre em Lisboa, primeiro no Convento de S. José, na rua Silva Carvalho, até ao seu encerramento em 2017, e depois, no convento do Seminário da Luz. Onde quer que vivesse e onde quer que ensinasse, “a sua filosofia – lembra Lamelas – partiu sempre da vida e permaneceu ligada a esta, mormente mediante um dos temas transversais de toda a sua obra e ação: a educação”.

Joaquim Cerqueira Gonçalves nasceu a 6 de abril de 1930, em Gaifar, Ponte de Lima. É ali que hoje, domingo, o seu corpo estará em câmara ardente, a partir das 15h00 na capela mortuária. Dalí sairá, para campa da família no cemitério local, o funeral na manhã (11h00) de amanhã, segunda-feira dia 24 de agosto, após celebração da missa exequial na Igreja Paroquial de Gaifar.

 

“Luzeiro de lucidez”

Joaquim Cerqueira Gonçalves. Foto retirada do vídeo “O Padre Manuel Antunes e a concretização da reforma das Faculdades de Letras em 1957″

Aquele que viria ser o frei Cerqueira completou os então ‘estudos primários’ na sua aldeia, tendo entrado posteriormente no Colégio de Montariol dos franciscanos, em Braga. Sobre a sua infância anterior a este ‘mergulho’ no espírito franciscanos que o marcará para sempre a ele e ao seu pensamento filosófico, escreverá que decorreu como um tempo em que “correu, saltou, galgando campos e bosques, ultrapassando obstáculos, nunca sentidos como barreiras intransponíveis”.

No verão de 1947 vem para o Real Convento de Varatojo (Torres Vedras), onde, a 7 de setembro recebe, das mãos do padre provincial, frei Manuel Taveira da Silva, o hábito de irmão menor. Terminado o ano do noviciado, parte para Lisboa, iniciando no Seminário da Luz, em Lisboa, os estudos filosóficos preparatórios da teologia. Aqui escreve as primeiras páginas “filosóficas” na revista Escola Franciscana, órgão dos estudantes de filosofia do Seminário Franciscano.

Depois desse ano de estudo continua os estudos no seminário franciscano de em Leiria. É ordenado sacerdote em 29 de junho de 1955 e parte para Toulouse, em França, onde continua os estudos filosóficos e onde obtém, em 1957, o grau de licenciatura em filosofia escolástica. Após esta especialização filosófica, regressa à capital para continuar a formação superior na Faculdade de Letras.

Nos anos letivos de 1957-1962, frequenta a Faculdade de Letras de Lisboa, concluindo a licenciatura em filosofia, com 18 valores, faculdade em que inicia a sua longa carreira académica e na qual se doutora, em 1970, com 19 valores.

Passou os últimos anos da sua vida, “já como aposentado das academias e das correrias do mundo, no seu cenóbio do Seminário da Luz, colaborado com a sua Província e confrades, nunca deixando de ser um luzeiro de lucidez e discernimento para todos os que dele se abeiraram. Manteve, até ao fim, um ritmo e disciplina de trabalho, sem jamais descurar a vida espiritual, sendo o primeiro e mais assíduo dos seus confrades no que toca à vida fraterna. Este voluntário ‘afastamento do mundo’ não o impediu de manter as amizades e os amigos que, por sua vez, nunca lhe faltaram até aos derradeiros dias da sua vida”.

A Cúria Provincial franciscana recorda, numa breve nota sobre a atividade desenvolvida pelo padre Cerqueira, que ele foi “ao nível da Província,  definidor e vigário provincial (1975-1976), vigário da Cúria Provincial e seu guardião (1984-1990), moderador da formação permanente, assistente da Fraternidade da Ordem Franciscana Secular de Jesus (1972-1974 e 1994-1995). Foi membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, eleito a 18 de maio de 1989”.

Aquele órgão dos franciscanos recorda ainda que “em 10 de Junho de 2002 foi condecorado pelo Presidente da República com a grã-cruz da Ordem de Instrução Pública, ‘pela sua notável obra de pedagogo e investigador’”, que “em sua homenagem, por ocasião da jubilação universitária, foi publicado o volume com trabalhos assinados por colegas e amigos, com o título Poiética do Mundo – Homenagem ao Prof. Doutor Joaquim Cerqueira Gonçalves, editado pela Edições Colibri, Lisboa, 2001” e que “a 4 de março de 2009 o Município de Ponte de Lima distinguiu-o com a Medalha de Mérito Cultural”.

 

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