Ainda a “processar” interiormente a partida precoce de Eugénio Fonseca, ex-presidente da Cáritas Portuguesa, ouso colocar no papel em jeito de memória e de agradecimento, a propósito do dia em que celebraria o 69º aniversário natalício (neste sábado, 29) um pouco de tanto que a vida nos deu oportunidade de partilhar, deixando marcas indeléveis, com sabor a eternidade!
Conheci Eugénio Fonseca já como presidente da Cáritas Portuguesa, nos inícios deste século e, desde logo, me impressionou a sua capacidade de atenção, ação e dinamização dos tempos e espaços partilhados, envolvendo e motivando para a Ação Social da Igreja aqueles com quem ia contactando. Esse “ativismo”, que fui sentindo na sua vida como “urgente”, fundava-se na mesma urgência do Evangelho, que inquieta e interpela na busca incessante das obras de misericórdia ao jeito dos “pequeninos” do Evangelho de São Mateus (capítulo 25, versículos 35 a 40) e da “magna carta da Caridade” da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13.
A par dessas páginas de vida eterna, a Doutrina Social da Igreja, que ele preferia chamar Pensamento Social Cristão, com a força do magistério pontifício, e do exemplo do primeiro bispo de Setúbal, Manuel Martins, que ele considerava seu “pai espiritual”, ajudavam a dar forma a essa Boa Nova de “vida em abundância” para todos (João 10, 10), sobretudo, para “os pobres” (Lucas 4, 18).
Assim, pela Cáritas Diocesana da Guarda, pela Cáritas Portuguesa e pela Pastoral Penitenciária, onde tive oportunidade de partilhar muitos momentos com Eugénio Fonseca, fui aprendendo muito com esse seu exemplo “urgente”. Com estes fundamentos, fui testemunhando muitas das suas lutas em favor dos pobres, que ele preferia chamar “pessoas em situação de pobreza”.

‘(…) muito do seu “ativismo”, seja na Caritas Portuguesa, seja, mais recentemente, na Confederação Portuguesa do Voluntariado, procurava ir ao encontro da realização de uma atenção local e próxima para com as pessoas em situação de pobreza (…)’ Foto: Voluntários da Porta Solidária preparam lanches e refeições para as pessoas que vivem na pobreza. © Rosalina Silva
Para além da sua sensibilidade perante qualquer situação de pobreza com que se deparava, empenhava-se logo na procura de soluções para essas situações, fosse com o auxílio concreto, material e social que essas situações exigiam, fosse com o apelo ao envolvimento mais próximo de quem pudesse dar continuidade a essa ou outra forma de acompanhamento. Daí surgia a sua proclamação constante de que cada comunidade cuidasse dos seus mais vulneráveis, com a existência de, pelo menos, um grupo de ação social em cada paróquia, que estivesse atento, em nome da comunidade cristã, às necessidades sociais locais.
Sinto que essa era, talvez, a sua maior luta e que, infelizmente, ainda está longe de ser travada e vencida em muitas comunidades. Atrevo-me a dizer que muito do seu “ativismo”, seja na Caritas Portuguesa, seja, mais recentemente, na Confederação Portuguesa do Voluntariado, procurava ir ao encontro da realização de uma atenção local e próxima para com as pessoas em situação de pobreza, enquanto reduto mais eficiente e eficaz para erradicar essa mesma pobreza. E muitas vezes, com obstáculos, incompreensões e indiferença de muitos, seja a nível político, civil e eclesial.
Esta atitude do Eugénio merece-lhe claramente os epítetos de cristão (discípulo de Cristo, “profeta, sacerdote e rei”, denunciando situações de pobreza e suas causas, celebrando a Vida, e servindo a Igreja e a sociedade, sobretudo, com atenção aos mais vulneráveis) e de “mestre social da Igreja” (“perito” nos princípios da Doutrina Social da Igreja, a começar pelo da “dignidade de todas as pessoas”, que ele não se cansava de proclamar).
Este testemunho pode facilmente ser verificável, seja nas inúmeras comunicações que partilhou nos mais diversos locais para onde era convidado, e fazia questão de estar, em espaços civis, religiosos ou nos media, seja nos inúmeros escritos que deixou (reflexões, artigos de opinião, livros de que é autor e livros nos quais colaborou ou que incentivou a escrever), seja nas pessoas em situação de pobreza que tocou, ou em tantas outras com quem se cruzou. Em relação às suas comunicações e escritos, atrevo-me a dizer que talvez fosse útil fazer, para bem de muitos, uma compilação do seu pensamento social cristão.
Na parte que me toca, recordo-o com os epítetos referidos mas, sobretudo, como Amigo, com quem tive oportunidade de muito aprender e de dar sentido a muitos momentos da Vida! Considero que muito em mim se deve à Vida do Eugénio, que recordo e agradeço, como Cristão, mestre social da Igreja e, sobretudo, Amigo!
Estou grato também à sua família (esposa, filhos, nora, neta e irmão “adoptivo”), com quem tive oportunidade de partilhar também alguns momentos e que senti como “esteios” na vida desta vida do Eugénio.
Amigo Eugénio Fonseca, grato por tanto! Tentarei fazer jus ao seu legado social cristão e continuar a contar com a sua inspiração e com o seu exemplo para algumas lutas!
Com Memória e com Gratidão!
Eternamente Grato!
Paulo Neves é professor e visitador prisional










