Os escombros de Gaza aumentam em volume e altura. Milhares de edifícios que ainda permanecem de pé na Cidade de Gaza foram danificados por ataques aéreos e terrestres ao longo dos últimos três anos, mas continuam sendo abrigo para pessoas que já não têm sequer uma tenda, não sabem para onde ir e sobrevivem à espera de novas e antigas esperanças. Para essa gente pobre, uma parede, um teto, mesmo em condições precárias, podem representar uma possibilidade de salvação.
O edifício que desabou em consequência de antigos ataques tinha um nome bonito e particular, mas que agora representa pouco diante do drama de Gaza. O nome era “Edifício da Alegria”. Sob escombros altos e volumosos ainda se encontram cerca de cem pessoas; mais de vinte já foram retiradas, e mais da metade delas são crianças. Uma mãe e uma criança morreram abraçadas: estavam deitadas sobre um colchão coberto de poeira, que não conseguiu amortecer o peso da morte, mas permitiu um último e caloroso abraço de um amor terno que já não consegue dar a vida.
A imagem da piedade sepultada em Gaza, a imagem de uma mãe abraçada ao filho, leva-me a contemplar Maria e a tentar compreender o seu coração dilacerado pela dor da morte do Filho. Imagens semelhantes, mas diferentes: Maria das Dores, sofrida, Mãe do Redentor, tinha em seus braços Cristo morto, certeza da salvação para a Humanidade. A mãe de Gaza, as mães de todas as crianças que morrem nas guerras, apertam contra si uma dor que não gera amor, mas continua a ampliar-se para afundar no turbilhão da vingança.
Mais um desabamento da Humanidade voltou a lançar luz sobre Gaza. Continuemos a falar, a escrever, a pedir e a fazer a paz, porque a paz é urgente, necessária, indispensável à vida. Não paremos, porque o silêncio mata. Recomecemos a reconhecer o valor da vida, reconhecendo o mal sofrido pelos inocentes, pelos indefesos, pelos oprimidos, pelos últimos. Quantas histórias, quanto sofrimento sob aqueles escombros. Não são os primeiros escombros a sepultar vidas, e é difícil esperar que sejam os últimos, porque há quase um ano uma trégua, falsa e hipócrita, continua a produzir morte, sofrimento e destruição.
Pessoas que carregam a mesma dor estão a ajudar outros seres humanos desesperados a escavar com as próprias mãos, na esperança de conseguir trazer à luz aqueles que ainda estão vivos. Uma criança fez ouvir a sua voz fraca ao tio que a chamava. Dizia-lhe: “Tio, estou vivo. Vem buscar-me.” Uma voz suave, uma fresta de esperança, mas, até agora, a poeira e os destroços devolvem apenas a morte.
Outros mortos permanecem sob outros escombros, que continuam a esconder números elevados e esquecidos de uma tragédia que parece não ter fim. Estamos a acostumar-nos a escrever a História com os números dos boletins de guerra: por trás desses números existem pessoas, rostos, histórias de vidas vividas, esperanças roubadas e interrompidas. As crianças, como sempre primeiras vítimas da violência, ocupam o primeiro lugar nessa triste lista.
Falemos de paz, peçamos a paz, não paremos: é o que nos pede a nossa consciência, para dar verdade e justiça aos inocentes.
O padre Ibrahim Faltas, franciscano, é atualmente o Diretor Geral das Escolas da Custódia da Terra Santa (conhecidas como Terra Sancta Schools). Este testemunho foi originalmente publicado pelo Vatican News.










