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[Entre Margens]

Profecias Apocalípticas e a Esperança Cristã

| 20/09/2026

 

O grande tema das notícias nos últimos dias tem sido apocalíptico: Dario Amodei, da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI e Elon Musk, da xAI, vieram a público pedir regulamentos aos Estados para poderem abrandar o desenvolvimento da Inteligência Artificial, sob pena, dizem eles, de esta poder exterminar a Humanidade no espaço de poucos anos. Com este alarme, vindo dos grandes promotores da IA de fabrico americano, todos nos demos conta de que, tal como Ícaro, que queimou as asas por voar demasiado perto do sol, a mais recente criação da Humanidade, tanto poderá fazê-la voar mais alto, como poderá ser a sua perdição.

No que a mim diz respeito, isto calhou estar a acontecer numa altura em que estou a escrever um livro com o meu tio José Tribolet, sobre a tecnologia e a vida. O meu tio está jubilado, depois de uma carreira fascinante, dedicada à Informática e ao desenvolvimento tecnológico em geral, e juntámo-nos há uns meses para pôr por escrito as suas ideias. O livro já vai bem encaminhado e preparou-me, de alguma forma, para esta semana de profecias “doom”, capazes de tirar o sono a qualquer um.

Ora, como é que eu – pessoa muito pouco tecnológica, amante da natureza e com sérias preocupações ecológicas – me posiciono perante o tsunami da IA que nos tomou de assalto o mundo e avança a uma velocidade estonteante?

Muito haveria a dizer, pois quer as potencialidades quer os riscos são múltiplos e têm muitas camadas, mas vou tentar resumir o que sinto.

Inteligência Artificial. IA

“Admito que estou ainda a processar o luto pela perda repentina de um mundo pré-IA onde eu preferia viver. Preferia um mundo gerido inteiramente por seres humanos, com as suas falhas e os seus humores, com capacidades que compreendo e que consigo prever.” Foto © Steve Johnson | Unsplash

Primeiro, admito que estou ainda a processar o luto pela perda repentina de um mundo pré-IA onde eu preferia viver. Preferia um mundo gerido inteiramente por seres humanos, com as suas falhas e os seus humores, com capacidades que compreendo e que consigo prever. Mas não há retorno, a Inteligência Artificial vai invadir qualquer domínio da vida humana – vejam “The AI doc” na Netflix, para perceberem o que eu quero dizer – e o que me resta é tentar compreender o melhor possível o que temos pela frente e que será o mundo dos meus filhos.

Como é esse mundo? É um lugar misto, físico e virtual, onde qualquer pessoa, mesmo a mais inteligente e empenhada, será sempre menos competente nas principais tarefas cognitivas com que se depara do que um agente de IA. É um mundo onde não há outra forma de viver (pelo menos, nos países desenvolvidos) senão adotando a tecnologia como parte de nós mesmos, como quem usa óculos diariamente ou uma prótese dentária. Usaremos a IA como ferramenta habitual para resolver problemas, tal como usamos o telemóvel como forma de comunicar, sem que isso nos faça confusão como fazia às pessoas de há 100 anos atrás.

Será um mundo onde muitos dos problemas que consideramos dificílimos de resolver terão solução: o aquecimento global, as mais misteriosas doenças, as necessidades crescentes de energia limpa, a fome. Mas onde outros problemas se agudizarão: as desigualdades sociais, a polarização ideológica… ao mesmo tempo que novos desafios que nem imaginamos irão aparecer.

Não consigo vislumbrar mais do que isto, que é muito pouco. Estamos às portas de um território inteiramente novo, mas até agora o ser humano sempre ultrapassou fases terrivelmente assustadoras e com grande potencial destrutivo. Além disso, mais do que nunca me agarro à certeza de que Deus é o nosso Bom Pastor e está connosco nestes novos tempos. Foi Deus que nos deu a inteligência e criatividade com que desenvolvemos estas tecnologias. Estava “escrito” desde o princípio dos tempos que a evolução humana iria trazer-nos até aqui. Como em qualquer outra época, temos de permanecer à escuta do que nos sugere o Espírito, para sabermos estar à altura dos acontecimentos.

Apesar da nostalgia que possamos ter dos tempos que já lá vão, há que reconhecer que o que era bom antigamente, não o era por ser antigo, mas por ser bom em si mesmo. Ou seja, não é por terem a pátina do passado que valorizamos as relações humanas assentes no convívio físico demorado sem dispersão em vez de videochamadas ou de encontros fugazes, com o telemóvel sobre a mesa, a distrair-nos pelo meio; os telefonemas que fazíamos em vez das mensagens escritas com que hoje despachamos a comunicação; o tempo menos acelerado no dia a dia da vida; as leituras profundas e as reflexões ponderadas; a relação com a natureza e com a terra; o acesso à verdade dos factos sem tanta desinformação ou “deepfakes”; o valor do esforço na vida académica; a juventude rebelde, criativa e enérgica, sem o nariz enfiado em ecrãs; os tempos mortos para nos virarmos para dentro; o amor partilhado com pessoas reais e físicas, com toda vulnerabilidade que implica, em vez de interações virtuais com pessoas que só conhecemos online ou até com chatbots….. Todos estes aspetos da vida nos anos 90 do século XX, que gradualmente têm vindo a entrar em crise nas últimas décadas, não são algo condenado a perder-se. Podemos ainda escolher viver assim.

Apresentação da enciclica Magnifica Humanitas, 25 maio 2026. Foto Vatican Media 2

‘O Papa Leão XIV apela a que sejamos “artesãos da esperança” na era da IA.’ Foto: Apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, 25 maio 2026. © Vatican Media

Podemos agarrar-nos aos valores fundamentais que identificarmos na vida humana e, intencionalmente, escolher habitar esta nova era mantendo o que nos é essencial: o sentido de comunidade, a ligação com a natureza, o tempo não acelerado, a profundidade, a presença, a procura da verdade, o amor.

O Papa Leão XIV apela a que sejamos “artesãos da esperança” na era da IA. Sem a confiança em que Deus está connosco, essa atitude é mais difícil. Mas se nos lembrarmos de toda a História humana e de como tantas vezes nos soubemos adaptar à mudança e renovar o nosso modo de sermos humanos, com a vida espiritual a transformar-se e evoluir também, para nos guiar, percebemos que é possível, também agora, abraçarmos o desconhecido, com a confiança de que Deus está connosco.

 

Joana Rigato é professora de Filosofia

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