“Precisamos da verdade [sobre o caso do padre Rupnik], Santidade, mas, tal como nós, também a Igreja precisa dela”, afirmam cinco mulheres que se assumem como vítimas de abusos continuados daquele ex-jesuíta e artista esloveno, numa carta aberta, que é também um apelo, dirigido a Leão XIV, e à qual o 7MARGENS teve acesso.
A mensagem surge a escassos dias da partida do Papa para uma viagem pastoral a França, onde, em Lourdes, tem previsto reunir com um grupo de vítimas de abusos. Recorde-se que aquele Santuário tem a fachada coberta com mosaicos de Rupnik, que foram já cobertos por instruções do bispo local e, segundo este revelou, com a anuência do próprio Papa.
“Um gesto muito forte e corajoso, que apreciámos muito, até porque, em relação a nós, nunca se sentiu um clima de solidariedade; pelo contrário, fomos sempre afastadas e hostilizadas”, referem as cinco subscritoras do texto, a respeito do bispo francês que se colocou ao lado das vítimas.
Na carta aberta, Gloria Branciani, Mirjam Kovač, irmã Samuelle, Vida Bernard e Pia (esta última, com nome fictício “por fundado receio de sofrer represálias”) começam por denunciar o modo como têm sido tratadas, depois de o Papa Francisco ter mandado reabrir o processo contra Marko Rupnik, em outubro de 2023.
Foi através da comunicação social que souberam ter sido iniciado um processo no Dicastério para a Doutrina da Fé. A sua advogada terá solicitado, “por várias vezes e através de todos os meios”, informações sobre o procedimento que as envolve enquanto vítimas, mas “nunca obteve resposta”.
“Este silêncio rumoroso e prolongado foi vivido por nós, vítimas, como uma violência adicional e continuada, que se acrescenta à violência que já sofremos – violência sexual, física, psicológica, espiritual, uma violência prolongada na alma, à qual se acrescenta também esta nova e dolorosa violência do silêncio e do abandono por parte do sistema judicial”, queixam-se elas.
Como se isso não bastasse, dizem ter sido “acusadas e difamadas” de “mentirosas, caluniadoras, de terem recebido dinheiro para acusar Rupnik, de exercerem esta prática por vingança”. Uma outra violência sofrida “no silêncio sepulcral e na indiferença daqueles que foram chamados a decidir” sobre as suas vidas. A qual “não faz senão desencorajar” quem, como elas, “sofreu os mesmos maus-tratos e que teria a intenção de os denunciar”, denuncia o texto. E explicam porquê: a mensagem que passa é que “é inútil denunciar um abuso à autoridade eclesiástica, porque nada acontece, ninguém paga e as vítimas nunca obtêm justiça”.
Um processo assim, alertam as vítimas, feito à revelia dos envolvidos “não oferece garantias a ninguém, nem ao acusado nem às vítimas, e é incompatível com os próprios conceitos de direito, verdade, justiça, equidade e misericórdia que a lei deve sempre ter no seu âmago”, dizem as mulheres ao Papa.
A carta aberta enfatiza que quem a subscreve não pretende resignar-se ao esquecimento, nem renunciar à justiça, “enquanto não for reconhecida a gravidade dos factos ocorridos e o responsável não for punido”. E, adianta ainda – neste tortuoso percurso, queremos que a verdade seja considerada um recurso, e não um obstáculo”.
Pedem, por isso, a Leão XIV que escute o seu pedido, que “é o de todas as vítimas de abusos que desejam o reconhecimento da verdade através de um processo justo”: que sejam garantidas, para todas as partes, “contraditório, clareza, transparência, celeridade, imparcialidade e independência dos juízes, para que o julgamento e o seu resultado — qualquer que ele seja — não permaneçam na sombra”, concluem as cinco mulheres que se subscrevem como “vítimas de don Marko Ivan Rupnik”.










