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Cartaz dá as boas-vindas ao Papa em Paris. Foto Vatican Media
Um cartaz dá as boas-vindas ao Papa na capital francesa. Foto © Vatican Media

Leão XIV em França

Quatro dias, três cidades e o desafio de lançar um “processo criador” de paz, diálogo e esperança

| 24/09/2026

Leão XIV chega esta sexta-feira, 25, a França para uma visita de quatro dias que o levará a Paris, Lourdes e Metz, num percurso que cruza algumas das grandes questões do pontificado: a paz, o futuro da Europa, a relação entre fé e razão, os desafios da inteligência artificial, a dignidade da pessoa humana, e a necessidade de diálogo, numa sociedade marcada pela secularização e pela polarização.

Em entrevista ao Vatican News, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, expressou o desejo de que esta visita não se reduza a um acontecimento mediático, mas possa desencadear um “processo criador”, um “grande chantier aberto de reflexão e de ação onde crentes e não crentes possam caminhar e trabalhar juntos”.

É também essa dimensão de futuro que atravessa todo o programa daquela que é já a quinta viagem apostólica internacional do Papa. Sob o lema “Para que o mundo tenha vida”, Leão XIV deverá abordar, durante a sua estadia em França, a vida humana nas suas diferentes dimensões, a vida espiritual e a capacidade criadora da pessoa num mundo cada vez mais tecnológico.

 

Uma França em mudança

Batismo de um catecúmeno em Notre-Dame, na noite da Vigília Pascal. Foto © JB. Delerue diocese de Paris

Batismo de um catecúmeno em Notre-Dame, na noite da Vigília Pascal. Foto © JB. Delerue | diocese de Paris

Há pouco mais de um mês, neste mesmo país que agora se prepara para acolher o Papa, foi promulgada a lei que legaliza a eutanásia e o suicídio assistido. Um sinal de que a França que recebe Leão XIV é diferente daquela que conheceram João Paulo II ou Bento XVI nas suas visitas, em 2004  e 2008 respetivamente. Mas não é o único. A análise publicada esta quinta-feira, 24 de setembro, pelo jornal La Croix sublinha a redução do número de católicos e as profundas divisões da sociedade francesa, mas também a crescente visibilidade de jovens adultos que se aproximam da fé.

O historiador Guillaume Cuchet, entrevistado pelo Vatican News, fala de uma Igreja em transformação. Segundo o investigador, apenas cerca de 2% dos católicos declarados participam na missa todos os domingos, mas a comunidade católica é hoje menos envelhecida do que anteriormente e tem vindo a recompor-se. Ao mesmo tempo, desde 2019 verifica-se um crescimento significativo dos batismos de adultos, fenómeno particularmente visível entre os jovens.

Dados citados pelo jesuíta Antonio Spadaro num artigo publicado pelo Religión Digital apontam para mais de 13 mil adultos que procuraram o batismo na Páscoa passada, mais do triplo do número registado uma década antes, sendo a maioria com menos de 40 anos. Entre estes novos catecúmenos, quatro em cada dez terão chegado à fé depois de uma doença ou de uma morte.

Cuchet adverte, contudo, que esse crescimento não compensa décadas de forte declínio religioso. A França continua a ser, na sua formulação, uma terra de contradições: “filha mais velha da Igreja” e, simultaneamente, país marcado pela Revolução e por uma conceção estrita da laicidade.

É neste contexto que Leão XIV encontrará os católicos franceses, mas também uma sociedade muito mais ampla. E, para o jornal La Croix, uma das incógnitas desta viagem é, precisamente, saber se a palavra do Papa conseguirá ultrapassar os círculos católicos e alcançar também aqueles que se encontram afastados da Igreja.

Em Paris, primeira etapa da viagem, a grande celebração na praça da Concorde deverá reunir centenas de milhares de pessoas. Antes disso, no Stade de France, Leão XIV encontrará jovens numa grande vigília que pretende reunir sensibilidades diversas do catolicismo francês, incluindo movimentos e grupos com percursos muito diferentes. O programa inclui ainda, na catedral de Notre-Dame, uma celebração de vésperas com o clero, religiosos e pessoas consagradas da diocese de Paris.

A presença de jovens e de adultos que se aproximam agora da fé coloca, porém, uma questão que vai além da dimensão celebrativa: como podem paróquias envelhecidas, com poucos padres e muitas vezes sem experiência de acolhimento de pessoas sem tradição cristã familiar, abrir espaço para quem chega com perguntas diferentes das que marcaram gerações anteriores? Para Spadaro, é essa uma das grandes questões que esperam o Papa em França.

A análise do La Croix deixa no ar outra questão: numa Igreja marcada por polarizações internas, será a visita do Papa percebida como um momento de unidade?

 

Lourdes e a fragilidade

João Paulo II em Lourdes, em 2004. Foto Vatican Media

O Papa João Paulo II no santuário de Lourdes, em 2004. Foto © Vatican Media

Depois de uma primeira etapa em Paris, Lourdes introduzirá outra dimensão nesta viagem: a da doença, da fragilidade e dos abusos. O Papa visitará o santuário aonde acorrem diariamente centenas de doentes em busca de esperança e cura, e o modo como a sociedade lida com o sofrimento, em particular associado ao fim da vida, deverá inevitavelmente estar presente.

Na sua entrevista aos média do Vaticano, Parolin antecipa que as palavras do Papa serão sobre a necessidade de acompanhar quem sofre e de reforçar os cuidados paliativos. A posição da Igreja, reitera, passa pela defesa da vida desde a conceção até à morte natural.

Mas Lourdes será também o lugar do encontro com sete vítimas de abusos sexuais cometidos no contexto da Igreja Católica francesa. A reunião decorrerá à porta fechada, tal como tem acontecido em viagens anteriores. O La Croix recorda que algumas das vítimas que participarão neste encontro consideram que dialogar não significa abdicar das suas exigências de mudança, enquanto outros grupos contestaram a forma como os participantes foram escolhidos.

O Papa deverá ter em conta, assinala Spadaro, que “a esperança reacendida pelos recém-batizados não anula a dívida para com aqueles que foram traídos, e a credibilidade do cristianismo na França também depende disso”.

 

Paz para uma Europa dividida

Depois de Paris e Lourdes, Metz deverá ser o lugar onde a “dimensão europeia” da viagem do Papa ganhará maior expressão. A cidade está ligada à memória de Robert Schuman, um dos pais fundadores do projeto europeu, e acolherá um momento inter-religioso dedicado à paz e unidade, recordando as “raízes da Europa” para pensar o seu futuro.

Parolin recupera, na entrevista ao Vatican News, a ideia dos “esforços criativos” contida na Declaração Schuman de 1950. Para o secretário de Estado do Vaticano, perante as atuais ameaças à paz, a Europa não pode limitar-se à lógica do equilíbrio de forças e do rearmamento: precisa de recuperar a capacidade de negociação, de construir uma visão diplomática comum e de procurar uma paz feita “com o outro”, e não contra ele.

A questão ganha particular relevância num momento de fortes tensões no continente europeu e de crise do multilateralismo. A expectativa expressa por Parolin é de que a França possa contribuir para um novo impulso europeu, assente na reconciliação, na solidariedade, no acolhimento e no respeito pelo direito internacional.

Cidade fronteiriça, situada numa região marcada por sucessivas disputas entre França e Alemanha, é significativo que Metz seja o cenário escolhido por um Papa norte-americano para falar de uma Europa cuja construção nasceu também da procura de reconciliação depois das guerras do século XX.

Mas mesmo antes desta última etapa, a paz estará também presente na passagem do Papa pela UNESCO, em Paris. O cardeal Parolin associa cultura e educação à capacidade de construir relações entre povos, enquanto a diretora-geral adjunta da UNESCO, Åsa Regnér – que também falou aos média do Vaticano – considera a visita particularmente oportuna num contexto de conflitos, polarização e rápidas transformações tecnológicas.

UNESCO, PARIS

O tema da paz estará também presente na passagem do Papa pela UNESCO, em Paris. Foto: Direitos reservados

A passagem pela UNESCO permitirá ainda a Leão XIV retomar uma das linhas centrais da sua primeira encíclica, Magnifica humanitas: a pergunta sobre o que significa ser humano num tempo em que a tecnologia e a inteligência artificial transformam profundamente a sociedade.

O cardeal Parolin defende que a cultura e a educação devem formar pessoas capazes de reconhecer no outro um irmão em humanidade e não um inimigo. E atribui à Igreja responsabilidades nesse processo: “formar as consciências”, lançar pontes, educar para o encontro e dar voz a quem corre o risco de não a ter.

A questão tecnológica aparece, assim, ligada a uma preocupação mais ampla: a de não permitir que o desenvolvimento técnico se transforme num fim em si mesmo. E esta visita pretende colocar no centro a pessoa, a sua dignidade e a responsabilidade coletiva sobre o mundo que está a ser construído.

“Não se resignar às lógicas da fragmentação, da polarização e do individualismo”: é esse, segundo Parolin, um dos horizontes desejados para a visita. Mais do que quatro dias de discursos e celebrações, espera-se que a passagem de Leão XIV por França deixe uma semente capaz de envolver as novas gerações e de abrir um caminho partilhado entre crentes e não crentes. Um caminho de vida e paz.

 

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