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Simposio educacao Fatima. Foto Joao Claudio Fernandes Educris
"Educar é sempre um ato de esperança no futuro e de confiança na humanidade", afirmou o bispo António Augusto Azevedo. Foto © João Cláudio Fernandes | Educris

Simpósio em Fátima

É preciso humanizar a escola num tempo de inteligência artificial, desigualdades e imprevisibilidade

Mais de 400 participantes estão reunidos em Fátima para discutir novos caminhos para a Educação, num encontro que desafia Estado, Igreja, escolas e sociedade a trabalharem em conjunto. No primeiro dia de simpósio, o cardeal Tolentino de Mendonça alertou que a inteligência artificial não substitui o acompanhamento humano, enquanto Marçal Grilo defendeu uma sólida formação de base para enfrentar um futuro marcado pela imprevisibilidade.

“Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização” é o tema em torno do qual educadores, investigadores e responsáveis educativos estão debruçados, no Simpósio sobre a Educação e a Escola em Portugal que decorre em Fátima entre esta sexta-feira e sábado, 2 e 3 de outubro. Na sessão da manhã de sexta-feira, as intervenções convergiram na necessidade de repensar a escola perante as profundas transformações tecnológicas, sociais e culturais, colocando a pessoa no centro da educação.

Logo na abertura, o presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, António Augusto Azevedo, defendeu que o Estado deve contar com todos os agentes e instituições envolvidos na educação para encontrar respostas aos desafios do ensino em Portugal. O também bispo de Vila Real apontou a “desafeição dos jovens pela escola”, o descontentamento dos professores e o peso de um Estado “burocrático e centralista”, apelando à “congregação e mobilização de todos” para encontrar novos caminhos. “Educar é sempre um ato de esperança no futuro e de confiança na humanidade”, afirmou.

A mesma ideia esteve presente na intervenção do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, Virgílio Antunes, que considerou estar em causa a “edificação equilibrada” da humanidade e advertiu para os “mapas errados” que foram seguidos ao longo do percurso educativo. O bispo de Coimbra defendeu percursos que permitam às pessoas assumir de forma “consciente, livre e responsável” a própria humanidade e reconhecer a humanidade dos outros.

Também o núncio apostólico em Portugal, Andrés Carrascosa Coso, sublinhou que educar é mais do que transmitir conhecimentos ou competências. É, afirmou, ajudar cada pessoa “a encontrar caminhos, a descobrir horizontes e a reconhecer o sentido da própria existência”. Para o representante da Santa Sé, a escola deve ser uma verdadeira comunidade educativa, onde “o conhecimento, a cultura e a vida se encontram”.

 

Tolentino: “A pessoa não é um sistema que processa informações”

Tolentino Mendonça participou por videoconferência. Foto © João Cláudio Fernandes | Educris 

A inteligência artificial (IA) esteve no centro da intervenção do cardeal José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, que participou no simpósio por videoconferência.

Partindo da imagem dos descobrimentos portugueses e da necessidade de navegar sem mapas previamente traçados, o cardeal português questionou o que significa educar num tempo em que o acesso às respostas se tornou praticamente imediato.

A inteligência artificial consegue processar enormes quantidades de dados, reconhecer padrões e produzir textos e imagens, observou. Mas “a pessoa não é um sistema que processa informações”. O ser humano compreende, atribui significado ao que vive, ama e sofre, acrescentou.

A questão, por isso, não é apenas a de saber utilizar as novas tecnologias, mas perceber aquilo que a escola pode oferecer e que a máquina não consegue substituir. Tolentino Mendonça defendeu então a importância do acompanhamento humano, da escuta e da capacidade dos professores para reconhecer sofrimentos ou necessidades que não são necessariamente visíveis nos dados.

Reconhecendo que a tecnologia poderá libertar os docentes de parte da carga burocrática, devolvendo-lhes tempo para o encontro com os alunos, o prelado lembrou que a hiperpersonalização e as sofisticadas ferramentas de tutoria não substituem, no entanto, a presença de um educador.

O cardeal apelou ainda ao desenvolvimento do pensamento crítico. Numa realidade em que qualquer pergunta pode receber rapidamente uma resposta produzida por uma plataforma digital, a escola deve ensinar a perguntar pela origem da informação, pela sua credibilidade e pelo caminho que conduziu à resposta.

“A escola que cria cidadãos livres é uma escola que cria mulheres e homens capazes de dizer ‘não’ e de pensar pela sua própria cabeça”, afirmou.

 

“A educação dos pobres para a fé cristã não é um favor, é um dever”

O simpósio reuniu educadores, investigadores e responsáveis educativos. Foto © João Cláudio Fernandes | Educris 

Na mesma intervenção, José Tolentino Mendonça chamou a atenção para uma outra dimensão da transformação tecnológica: o risco de aprofundar desigualdades já existentes.

A inovação pode ultrapassar barreiras geográficas e linguísticas, mas também criar novos fossos sociais. “Ninguém deveria tornar-se um excluído digital por não ter tido a possibilidade de compreender e utilizar as novas tecnologias”, sublinhou.

O responsável da Santa Sé relacionou esta questão com a missão da escola católica e com a necessidade de superar as desigualdades socioeconómicas. “A educação dos pobres para a fé cristã não é um favor, é um dever”, afirmou, defendendo soluções que permitam tornar o sistema educativo católico mais inclusivo em relação às famílias com menos recursos.

O cardeal alertou igualmente para formas de pobreza e isolamento que não são apenas materiais. Uma utilização excessiva do digital pode deixar crianças e jovens desligados de si próprios, dos outros e da sua interioridade.

“Não basta saber como viver, mas também porquê viver”, acrescentou, apelando a uma educação capaz de articular o mundo tecnológico com as dimensões interiores da pessoa.

 

Marçal Grilo: “Há vida para além das máquinas”

Para Marçal Grilo, um dos principais perigos da IA está na sua “imprevisibilidade”. Foto © João Cláudio Fernandes | Educris

A necessidade de uma formação humana sólida foi também sublinhada pelo antigo ministro da Educação Eduardo Marçal Grilo, que abordou os 40 anos de reformas educativas em Portugal e os desafios colocados pela inteligência artificial.

Para Marçal Grilo, um dos principais perigos da IA está na sua “imprevisibilidade”. O antigo ministro chamou a atenção para possíveis utilizações da tecnologia em cenários bélicos e para a forma como a inteligência artificial poderá alterar os processos através dos quais os seres humanos vivem e se relacionam.

“Há vida para além das máquinas”, recordou. E perante um futuro em que poderão existir equipamentos com níveis de sofisticação comparáveis aos humanos, Marçal Grilo considerou essencial que os jovens recebam uma “formação de base” que lhes permita compreender e enquadrar-se no novo mundo.

Sem essa preparação, advertiu, poderão ficar dependentes daqueles que controlam e compreendem as novas tecnologias, sejam eles humanos ou sistemas tecnológicos cada vez mais sofisticados.

A educação surge, assim, também como instrumento de combate às desigualdades e de dignificação das pessoas, num contexto que o antigo ministro descreveu como marcado pela “turbulência, imprevisibilidade e fragmentação”. Entre os valores fundamentais que devem integrar qualquer projeto educativo, Marçal Grilo destacou, por isso, o “respeito pelo outro” e a “verdade”.

O simpósio é promovido pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé e assinala os 40 anos da Lei de Bases do Sistema Educativo. Inspirado no Pacto Educativo Global, nos desafios do Jubileu do Mundo Educativo e nos ensinamentos recentes de Leão XIV, nomeadamente na encíclica Magnifica Humanitas, pretende discutir respostas para as transformações tecnológicas, sociais e antropológicas que atravessam a educação.

O encontro prossegue este sábado no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima, com conferências, painéis e laboratórios temáticos. A organização espera que os trabalhos permitam não apenas identificar problemas, mas definir novos caminhos e compromissos para a educação.

Porque, como sintetizou Tolentino Mendonça, os novos mapas educativos não devem limitar-se a descrever um mundo em transformação: devem ajudar a compreender “para onde queremos ir”.

 

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