AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Santa Beatriz da Silva, canonização
Celebração do aniversário da canonização de Santa Beatriz da Silva, em Campo Maior. Foto: Direitos reservados.

Ano Jubilar Sta Beatriz da Silva

50 anos da canonização – A primeira santa portuguesa “praticou a caridade de forma assídua”

Até final deste ano, decorre um ano jubilar assinalando o centenário da beatificação e o cinquentenário da canonização de Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição. O 7MARGENS tem acompanhado os jubileus que assinalam os 800 anos da morte de Francisco de Assis e o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da proclamação de João da Cruz como Doutor da Igreja Católica com textos que ajudam a conhecer e entender melhor essas duas figuras maiores do catolicismo. Também neste caso, a efeméride permite conhecer a pessoa e o pensamento de Beatriz da Silva, uma das principais figuras do misticismo português. O próximo texto, da autoria da irmã Ana Isabel do Coração de Jesus, será publicado dia 7 ou 8 de dezembro, por ocasião da festa litúrgica católica da Imaculada Conceição.

 

A Ordem da Imaculada Conceição celebra neste sábado, 3 de outubro de 2026, a data principal do seu Ano Jubilar: é o dia em que comemoramos os 50 anos da canonização da nossa primeira santa portuguesa e madre fundadora Beatriz da Silva.

A fim de aprofundarmos este facto, decidimos ir ao encontro “histórico” das fases de vida nas quais Santa Beatriz foi espelho de santidade, reconhecida sobretudo pelas monjas do mosteiro de São Domingos, o Real; pelos cidadãos de Toledo; pela rainha dona Isabel, a Católica; e pelas primeiras discípulas no mosteiro de Santa Fé. Posteriormente, faremos menção de alguns aspetos mais significativos do processo de canonização, aludindo também aos milagres realizados por sua intercessão.

Considerando o mosteiro de São Domingos, o Real, a Irmã Juana de San Miguel refere que Santa Beatriz optou por viver neste lugar em atitude de recolhimento. Neste período de tempo, que teve a amplitude de 30 anos, decidiu cobrir o seu rosto com um véu branco, de forma ininterrupta, a fim de não suscitar intrigas, por causa da sua experiência na corte de Castela.

Tanto no mosteiro das monjas dominicanas como na sua vizinhança, a Irmã Juana destaca que Santa Beatriz praticou a caridade de forma assídua. O seu amor a Deus era de tal maneira profundo que transbordava no amor ao próximo. Através do seu bom exemplo, levava todos a questionarem-se sobre o mais importante nesta vida, edificando as pessoas com as quais tratava. No mosteiro mostrava uma solicitude muito maternal para com as irmãs enfermas. A sua caridade também sobressaía na gestão dos seus bens materiais enquanto vivia como senhora de piso: as fontes primitivas indicam que reservava para si somente o que precisava, ao passo que o resto destinava ora para as necessidades da comunidade religiosa ora para as esmolas dos pobres, vizinhos do mosteiro.

No que diz respeito à admiração da santidade de Beatriz por parte da rainha dona Isabel, a Católica, ela foi notória não só porque o seu prestígio espiritual ressoara celeremente nos círculos femininos da alta nobreza castelhana como também a soberana se interessara pelo seu modo de vida. Enquanto a rainha dona Isabel esteve instalada em Toledo quer por deveres de Estado quer por compromissos familiares, visitou com frequência Santa Beatriz.

José Félix Duque define esta relação como um «trato protocolar típico das relações entre um soberano e os seus súbditos, incluindo os que eram nobres.»[1] Santa Beatriz tornou-se uma das santas vivas que atraiu o interesse da rainha, sendo este facto admirável, já que a própria soberana sempre fora muito criteriosa nos seus laços interpessoais. Também algo as unia profundamente: uma grande devoção à Imaculada Conceição da Virgem Maria, por causa da importância que tinha para as suas linhagens.

Em relação ao reconhecimento da santidade de Beatriz por parte das suas doze primeiras discípulas, estas reconheceram e testemunharam a excelência dos conselhos evangélicos, das virtudes teologais, das virtudes cardeais e em especial da virtude da humildade, fundamentada pelo “punho” da monja Catalina de San Antonio, realçando que Santa Beatriz transparecia esta virtude em todas as suas ações, esquecendo-se de si própria. No leito de morte, as suas companheiras também puderam verificar a beleza da santidade inscrita em Beatriz quando viram uma estrela luminosa na sua testa, ao ser ungida com o óleo santo por um frade franciscano, a qual tornava o seu rosto semelhante a uma pessoa que já goza da Eternidade.

Como ilustrámos, a portuguesa Beatriz faleceu deixando um testemunho de santidade gravado no coração das suas “filhas” bem como no coração de muitos devotos. O seu corpo foi venerado, desde o princípio, com grande reverência, pois a sua santidade era credível de modo unânime.

Em 1636, iniciou-se em Toledo o primeiro processo canónico de Beatriz da Silva. Apesar de os requisitos terem sido cumpridos, a sua Causa não chegara ao seu termo. No entanto, Beatriz da Silva continuava a ser venerada como santa, sobretudo entre as irmãs concepcionistas franciscanas, pois tentaram, mais concretamente as do proto-mosteiro de Toledo, em diálogo com o frade franciscano Pedro de Quintanilla, retomar o dito processo. Todavia, esse foi alvo de certas resistências. Desde o século XVII que o processo não voltou a ser analisado. Porém, o rasto de santidade de Beatriz não desvanecia. Não só historiadores, mas também pintores proclamavam-na e retratavam-na como santa.

Três séculos depois, a abadessa Teresa de Jesús Romero, do mosteiro de Hinojosa del Duque, levaria a cabo as diligências do processo de beatificação de Beatriz da Silva, tendo sido reafirmado em Roma no ano de 1910. Após dezasseis anos de exigentes desafios, intensa correspondência e de trabalho árduo, a sua beatificação foi oficializada no dia 28 de julho de 1926, declarando que o culto a Beatriz existia desde tempo imemorial.

Foram providenciados os meios necessários para que a causa tivesse continuidade: o padre franciscano Enrique Gutiérrez foi nomeado para vice-postulador em Espanha, e sob a sua direção começou a publicar-se o boletim mensal Lírio da Imaculada, que foi o elo de ligação entre os mosteiros da Europa e do continente americano, sobressaindo-se como o “porta-voz” do processo de canonização. Graças à redescoberta inesperada do processo original de 1636 no proto-mosteiro de Toledo foi possível recolher informações para a redação da Positio, na qual se registaram as suas virtudes heroicas.

No dia 9 de novembro de 1959 solicitou-se a reabertura da causa ao Papa João XXIII. Nesta fase, foi apresentada, finalmente, a Positio e aprovados os milagres. No dia 21 de janeiro de 1974, após um “desenvolvimento” sinuoso, o Papa Paulo VI aprovou as virtudes heroicas. No que diz respeito aos milagres, ambos provinham da Cúria Arquiepiscopal do México: o primeiro foi realizado na irmã Ana María del Sagrado Corazón, concepcionista franciscana do mosteiro de San José de Gracia de Tacubaya, México, que, tendo recorrido à Beata Beatriz, «ficou completamente curada no dia 25 de março de 1923 de hemorragia subretínica, com desprendimento secundário da retina e lesões na retina do olho esquerdo[2]»; e o segundo foi operado na senhora Isabel Orozco de Estrada, que, graças à intercessão da Beata, «restabeleceu-se totalmente no mês de setembro de 1945 de um tumor maligno no intestino delgado e no cólon.[3]»

No dia 12 de fevereiro de 1976 o Santo Padre Paulo VI decretou publicamente a aprovação dos milagres, e no dia 24 de maio, o Santo Padre elegeu a data da canonização. A sua memória litúrgica ficou assinalada no calendário universal para o dia 17 de agosto.

Terminamos este artigo fazendo eco das primeiras palavras da Bula de Canonização, pronunciadas pelo Papa Paulo VI no dia 3 de outubro de 1976:

A insigne fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, a nobre virgem Beatriz da Silva, a quem hoje elevamos às honras dos Altares, levanta-se como notável exemplar de piedade e ilustre testemunho da mais alta humanidade não somente para as suas filhas, mas também para todo o povo de Deus; ainda mais, para todos os homens que sinceramente buscam a sabedoria e têm em grande estima o valor de uma cândida virtude; mas de maneira especial apresenta às sagradas virgens, que professam na Igreja a vida contemplativa, uma mensagem singular de vida virginal, onde também é enaltecido o estado das monjas que se consagram a Deus na solidão e no silêncio em assídua oração e perseverante penitência.[4]

Santa Beatriz continua hoje a estimular as suas filhas concepcionistas franciscanas, todo o povo de Deus e todos os homens de boa vontade a caminhar na beleza da santidade.

 

Notas
[1] José Félix Duque. Dona Beatriz da Silva. Vida e Obra de Uma Mulher Forte. 1ª edição. Maia: Labyrinthus, 2008, pp. 75-76.
[2] Paulo VI (1976, 3 de outubro). Bula de Canonização de Santa Beatriz da Silva.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.

 

Bibliografia
Ir. Paloma María de Dios, OIC, Una Obra de Dios y de la Inmaculada – Aportaciones de la Madre Teresa de Jesús Romero Balmaseda al proceso de Canonización de nuestra Madre Fundadora, Santa Beatriz de Silva, 1ª edição. Córdova: Imprenta Buenestado, 2026.
José Félix Duque. Dona Beatriz da Silva. Vida e Obra de Uma Mulher Forte. 1ª edição. Maia: Labyrinthus, 2008.
Paulo VI (1976, 3 de outubro). Bula de Canonização de Santa Beatriz da Silva.
Positio sobre la vida y virtudes. Beatriz de Silva. Cuenca: Imprenta Aranda, 2001.

 

A irmã Ana Isabel do Coração de Jesus reside no Mosteiro de Santa Beatriz da Silva (Viseu), da Ordem da Imaculada Conceição (OIC). 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

O meu tio Fred

[Arquipélago Jerusalém]

O meu tio Fred novidade

Contra a vaga da direita radical e de antisemitismo que assalta a França e a Alemanha e que tem expressão em vitórias eleitorais, gostaria de evocar o legado do meu tio-bisavô Fréderic Kohn-Abrest (1850-1893). Foi um ilustre jornalista, dramaturgo e ensaísta que viveu entre Paris e Viena e lutou nesses tempos longínquos para criar pontes entre os europeus. [Texto de Mendo Castro Henriques].

Disponibilizada tradução provisória do Livro de Baruc e Carta de Jeremias

Bíblia da CEP

Disponibilizada tradução provisória do Livro de Baruc e Carta de Jeremias novidade

A Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disponibilizou a tradução provisória do Livro de Baruc e da Carta de Jeremias, dando continuidade ao processo de revisão e tradução dos textos bíblicos. Como nas restantes publicações, a comissão convida os leitores a enviar sugestões e comentários para contribuir para a revisão do texto.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This