A jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, antiga alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, foi distinguida esta sexta-feira, 9 de outubro, com o Prémio Nobel da Paz de 2026, pelos “seus esforços na promoção da paz e do direito internacional”, anunciou o Comité Nobel norueguês.
De origem tâmil indiana e nascida em Durban durante o regime do apartheid, Pillay tornou-se advogada e defendeu Nelson Mandela e outras pessoas que se opunham à segregação racial. Segundo o Comité Nobel, o combate à discriminação estrutural, à segregação e à exclusão atravessa todo o seu percurso profissional.
A jurista foi juíza no Tribunal Penal Internacional para o Ruanda, criado para julgar os responsáveis pelo genocídio de 1994, e no Tribunal Penal Internacional. Entre 2008 e 2014, exerceu funções como alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Mais recentemente, Navi Pillay, 85 anos, presidiu à Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre o Território Palestiniano Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e Israel. Em setembro de 2025, esta comissão concluiu que Israel cometeu genocídio contra os palestinianos na Faixa de Gaza, numa investigação sobre a atuação das autoridades e das forças de segurança israelitas desde outubro de 2023. O Governo israelita rejeitou as conclusões.
O relatório identificou quatro dos cinco atos previstos na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio: matar membros do grupo, causar-lhes danos físicos ou mentais graves, impor condições de vida destinadas à sua destruição física, total ou parcial, e adotar medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo. A comissão concluiu também que existia intenção de destruir, no todo ou em parte, os palestinianos de Gaza enquanto grupo.
Já em fevereiro de 2022, Israel havia acusado Pillay de parcialidade e de assumir posições contra o país, contestando, nomeadamente, a utilização do termo “apartheid” para caracterizar as políticas israelitas em relação aos palestinianos. Na altura, a embaixadora israelita junto das Nações Unidas, Meirav Eilon Shahar, afirmou que a comissão internacional de inquérito tinha como objetivo “diabolizar Israel”. A organização não-governamental UN Watch também apresentou uma queixa contra Pillay, alegando que declarações suas comprometiam a imparcialidade da investigação
Mas o presidente do Comité Nobel norueguês, Jørgen Watne Frydnes, confirmou que o trabalho de Pillay nesta comissão foi uma parte importante da decisão de lhe atribuir o prémio. Na apresentação da distinção, cujo vídeo pode ser visto abaixo, afirmou que a escolha constitui uma mensagem sobre a importância do direito internacional e das instituições que o sustentam.
Ao atribuir o Prémio Nobel da Paz deste ano, o Comité “deseja lembrar ao mundo que o Estado de Direito – nacional e internacional – sustenta o sistema que estabelecemos para garantir a paz e resolver conflitos de forma não violenta”, afirmou Frydnes.
E sublinhou que a jurista tem sido determinante para garantir que os responsáveis por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio sejam julgados, defendendo que os instrumentos jurídicos internacionais podem ajudar a prevenir a guerra e a violência.
“O empenho de Navi Pillay na justiça e na dignidade humana é uma fonte de esperança e inspiração para todos aqueles que procuram construir um mundo mais pacífico”, concluiu o Comité.
A atribuição do prémio foi saudada pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Ravina Shamdasani, porta-voz do alto-comissário Volker Türk, afirmou que a distinção reconhece a importância dos direitos humanos num momento em que estes estão sob ataque, incluindo por parte de pessoas que ocupam posições de poder.
O Prémio Nobel da Paz será entregue numa cerimónia marcada para 10 de dezembro, em Oslo, na Noruega. A distinção é acompanhada de um prémio monetário de 12 milhões de coroas suecas, cerca de um milhão de euros.
Em 2025, o Nobel da Paz foi atribuído à dirigente da oposição venezuelana María Corina Machado, pelo seu trabalho em defesa dos direitos democráticos na Venezuela.










