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Nidal Hasan, pena de morte, execução, fuzilamento
Nidal Hasan, major e antigo médico psiquiatra do Exército dos Estados Unidos: para já, o seu fuzilamento será um espetáculo público, dizem Trump e Hegseth. Foto: Direitos reservados.

Papa: pena capital é “inadmissível”

Trump autoriza fuzilamento em direto, mas clamor de vozes contra faz tremer a decisão

| 11/10/2026

Na mesma data em que o mundo evocava o Dia Mundial contra a Pena de Morte, este sábado, 10 de outubro, o Presidente dos Estados Unidos disse que aprovava a transmissão em direto do fuzilamento de um condenado à morte, anunciada pelo Departamento da Defesa. Horas depois, afirmou que o assunto não estava ainda decidido.

Pelo meio, estiveram a posição da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, de diversos outros dirigentes religiosos e de um coro de vozes que considerou tal intenção um retrocesso inominável. E não se pode deixar de colocar aqui a publicação do Papa Leão XIV, com uma posição de fundo sobre a pena de morte.

Recordando: foi marcada para 3 de dezembro a execução da pena de morte de Nidal Malik Hasan, um ex-psiquiatra militar acusado de matar 13 pessoas e de ferir 32, numa base militar do Texas, em 2009. Essa execução será por fuzilamento, um procedimento que os Estados Unidos deixaram de utilizar em 1936 com civis e, em 1945, com militares, mas que Trump decidiu recentemente recolocar na lista de modalidades de execução de penas de morte.

Até aquelas datas, os fuzilamentos eram públicos. Pete Hegseth, o atual secretário do Departamento de Defesa, anunciou na última quinta-feira que a transmissão seria por streaming, em direto, para que “sirva de lição”. Será no mesmo local e à mesma hora da matança perpetrada por Hasan.

Este anúncio chocou profundamente líderes religiosos e políticos e muitos setores da opinião pública do país e fora dele.

O presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos confessou-se “chocado” e “triste” com a notícia da decisão de transmitir publicamente a execução, justificando: “De maneira alguma as ações de Hasan podem ser aprovadas, mas esta decisão é uma promoção bárbara de uma cultura da morte e deve ser reconsiderada”, afirmou, em comunicado.

“A execução pública, mesmo de alguém que tenha causado grande dano, apenas minará ainda mais o tecido moral da nossa nação e será uma mancha na consciência de seu povo.”

Neste sábado, o Papa Leão, assinalando o Dia Mundial e seguindo a doutrina que foi consagrada pelo Papa Francisco no Código de Direito Canónico, em 2018, escreveu na rede X: “A pena de morte é inadmissível porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa. O bem comum pode ser salvaguardado e as exigências da justiça podem ser atendidas sem recorrer à pena capital: foram desenvolvidos sistemas eficazes de detenção que protegem os cidadãos sem, ao mesmo tempo, privar completamente os culpados da possibilidade de se redimirem.”

Quem tivesse dúvidas de que a posição do Papa americano também contemplava o caso do seu país de origem, bastava ler declarações do seu secretário de Estado, Pietro Parolin, feitas escassas horas antes, nas quais afirmava taxativamente que a execução pública planeada pelos EUA era “inaceitável”.

 

Líderes de várias confissões contra decisão

Walter Kim, pena de morte, Aliança dos Evangélicos Americanos

Walter Kim, presidente da Aliança Nacional dos Evangélicos dos EUA, um dos líderes religiosos que criticou: a decisão promove “uma cultura de morte”. Foto: Direitos reservados.

Responsáveis de outras confissões manifestaram-se igualmente com veemência contra a pretensão do Pentágono. Em declarações à agência Religion News Service, o presidente da Associação Nacional de Evangélicos dos EUA, Walter Kim, disse que a execução por pelotão de fuzilamento, transmitida ao vivo, “corre o risco de transformar uma das responsabilidades mais solenes do Estado num espetáculo público, promovendo uma cultura da morte, em vez de uma cultura que sustenta a dignidade de cada ser humano”.

Ao mesmo tempo, a co-fundadora do grupo evangélico Red Letter Christians, Shane Claiborne, comparou os planos de execução pública a “linchamentos, enforcamentos e outras formas pelas quais fizemos da morte um espetáculo na nossa própria história”.

O rabino Jonah Dov Pesner, vice-presidente sénior da União para o Judaísmo Reformista e chefe do Centro de Ação Religiosa da denominação, condenou, num comunicado, a decisão de realizar uma execução pública, sublinhando que a tradição judaica considerou a pena de morte “repugnante” e uma “mancha na sociedade”.

Também a Igreja Episcopal (anglicana) recordou opor-se formalmente à pena de morte. O seu presidente, Sean Rowe, observou que a ideia de transmitir ao vivo uma execução por pelotão de fuzilamento “é extremamente repreensível e causará dano moral a todos os envolvidos”. E, no comunicado citado ainda pela Religion News Service, acrescentou: “Precisamos de perguntar-nos em quem nos tornamos como nação quando autoridades seniores decidem transformar a violência patrocinada pelo Estado em espetáculo.”

O Presidente Trump que, logo após o anúncio da intenção de publicitar a execução, foi interrogado por jornalistas sobre se “autorizava e aprovava” essa medida, respondeu enfaticamente: “Se aprovei? Absolutamente sim”.

Mais tarde, porém, interrogado sobre o mesmo assunto, foi menos enfático, dando a entender que o assunto poderia vir a ser ponderado.

Refletindo sobre o significado deste plano da administração dos EUA, o padre jesuíta Sam Sawyer, diretor da revista America, da Companhia de Jesus, reconhece que ele “está tão fora da norma moral que quase se torna difícil explicar por que razão a ideia de uma execução pública é tão moralmente repugnante”.

“A questão – acrescenta – não é apenas que a execução em si seja violenta, mas também que a sua exibição pública ameaça modificar a nossa consciência de forma a celebrar a capacidade de violência do Estado.”

Sam Sawer observa ainda que o projetado para a execução “não é um plano de justiça, mas sim de demonstração de poder através de meios letais, tratando a pessoa a matar como um mero instrumento para o efeito”.

“Nesse aspeto, encarna na perfeição a glorificação da violência e da guerra que tem caracterizado a liderança do Sr. Hegseth naquilo que ainda é, pelo menos perante a lei, o Departamento de Defesa. Ele trata a capacidade de violência como um substituto da retidão”, conclui o diretor de America.

 

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