Quase uma em cada dez pessoas vive em Portugal numa situação de pobreza persistente, perto de metade dos adultos pobres tem emprego e, quando são descontados os custos com a habitação, mais de um quarto da população fica abaixo do limiar de pobreza. Estes são alguns dos dados mais significativos de dois estudos sobre pobreza divulgados esta semana pela Rede Europeia Anti-Probreza (EAPN) Portugal e pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE).
Os dois trabalhos, embora com abordagens diferentes, convergem num retrato marcado por progressos nos indicadores gerais ao longo da última década, mas também pela permanência de núcleos de pobreza difíceis de quebrar e por fortes desigualdades entre grupos sociais.
Segundo o relatório “Pobreza e Exclusão Social em Portugal — 2026”, do Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza (ONLCP), da EAPN Portugal, 18,6% da população portuguesa — cerca de 1,995 milhões de pessoas — encontrava-se em 2025 em risco de pobreza ou exclusão social. Pela primeira vez na série estatística recente, o número ficou abaixo dos dois milhões e a taxa portuguesa passou a estar abaixo da média da União Europeia, de 20,9%. Na última década, Portugal registou uma redução de 29,5% neste indicador, a quinta maior da UE.
Também a pobreza monetária diminuiu. Cerca de 1,66 milhões de pessoas viviam, em 2025, com menos de 723,25 euros por mês, menos 101 mil do que no ano anterior. Mas 5,2% da população continuava em pobreza extrema, com menos de 482 euros mensais, e 9,7% vivia com menos de 603 euros.
É, porém, quando se olha para a duração da pobreza que surge um dos principais sinais de alerta. O estudo “Trajetórias da Pobreza e da Privação — Uma análise da última década”, da Nova SBE, conclui que 9,5% dos residentes em Portugal estavam em situação de pobreza persistente em 2025, isto é, encontravam-se em risco de pobreza nesse ano e tinham estado na mesma situação em pelo menos dois dos três anos anteriores.
Depois de ter descido de 13,6% em 2015 para 7,1% em 2024, a pobreza persistente voltou assim a aumentar. Dos 15,4% da população em risco de pobreza em 2025, 61,7% encontravam-se nessa situação de forma persistente.
O mesmo agravamento é assinalado pela EAPN, que alerta para o risco de o “núcleo duro” das situações de pobreza se tornar “mais crónico e impermeável à recuperação económica geral”. Entre 2022 e 2025, segundo a investigação da Nova SBE, 25,6% da população passou pelo risco de pobreza durante pelo menos um ano e 6,9% esteve nessa situação durante os quatro anos.
Habitação faz pobreza subir para 26,8%
Outro dos dados mais expressivos surge quando são contabilizados os encargos com a habitação. Segundo a EAPN, depois de descontadas despesas como rendas, prestações bancárias e serviços básicos associados à casa, a taxa de pobreza sobe dos 15,4% oficiais para 26,8%. Entre crianças e jovens com menos de 18 anos, chega aos 32,9%.
A vulnerabilidade financeira vai além das pessoas oficialmente consideradas pobres. Quase um terço da população (29,2%) não consegue fazer face a uma despesa inesperada sem recorrer a um empréstimo e cerca de 33% não consegue pagar uma semana de férias fora de casa ou substituir mobiliário usado.
Os números mostram também que ter emprego não basta necessariamente para escapar à pobreza. Cerca de 47,6% dos adultos em situação de pobreza monetária estão empregados. A taxa de pobreza entre quem trabalha é de 8,6%, aumentando para 20,5% entre pessoas empregadas por períodos inferiores a um ano e para 19% entre trabalhadores a tempo parcial em situação de subemprego.
Entre os grupos particularmente vulneráveis estão as famílias monoparentais: 40,7% encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social e a pobreza laboral entre estas famílias atingiu 26%. Também os cidadãos estrangeiros extracomunitários apresentam uma taxa de pobreza monetária de 26,1%, apesar da sua forte participação no mercado de trabalho.
Há, contudo, uma evolução particularmente positiva entre os mais novos. De acordo com o estudo da Nova SBE, a pobreza persistente entre crianças e jovens caiu praticamente para metade numa década, passando de 18,1%, em 2015, para 9,3%, em 2025.
Esta evolução alterou o perfil etário da pobreza de longa duração: são agora as pessoas com 65 ou mais anos que apresentam a taxa mais elevada de pobreza persistente, de 10,6%, acima dos 9,3% entre os menores e dos 9% entre os adultos dos 18 aos 64 anos.
O relatório da EAPN também identifica uma maior vulnerabilidade da população idosa em alguns indicadores: a privação material e social severa subiu para 5,8% entre os maiores de 65 anos, enquanto entre os menores de 18 anos recuou de 4,8% para 3,7%. As mulheres continuam igualmente mais expostas à privação severa do que os homens (4,8% contra 3,7%).
Apoios ajudam, mas não resolvem

As transferências sociais estão direcionadas para quem mais precisa, mas revelam-se insuficientes para retirar muitas pessoas de situações prolongadas de pobreza. Foto © Roman 023
Os apoios públicos têm, entretanto, um peso decisivo na redução da pobreza. Segundo a EAPN, sem transferências sociais, 40,7% da população estaria em risco de pobreza. As pensões fazem essa percentagem baixar para 20,8% e as restantes prestações sociais reduzem-na até aos atuais 15,4%. Ainda assim, 45,4% das pessoas pobres em idade ativa não recebem qualquer prestação social.
A investigação da Nova SBE chega a uma conclusão complementar: as transferências sociais estão direcionadas para quem mais precisa, mas revelam-se insuficientes para retirar muitas pessoas de situações prolongadas de pobreza.
“Se dois terços dos pobres persistem nessa situação, é porque as políticas públicas, apesar de bem dirigidas, não estão a conseguir cumprir o seu objetivo”, afirma à TSF a economista Susana Peralta, uma das autoras do estudo.
A persistência da pobreza deixa ainda marcas que nem sempre transparecem nos números. Entre as pessoas em pobreza persistente, 11,5% dizem estar pouco ou nada satisfeitas com a vida, contra 2,8% entre as restantes. E 24,5% das pessoas em privação persistente afirmam não confiar nada nos outros, contra 7,2% entre quem não vive nessa situação.
É neste contraste entre a melhoria dos indicadores gerais e a permanência de bolsas de vulnerabilidade que os dois estudos deixam o principal alerta. Portugal está hoje abaixo da média europeia no risco de pobreza ou exclusão social e registou uma das maiores reduções da última década na União Europeia. Mas a pobreza que permanece tende a concentrar-se em determinados grupos e, para uma parte significativa da população, a prolongar-se no tempo — num contexto em que os custos da habitação, a precariedade laboral e a insuficiência dos rendimentos e apoios dificultam a saída definitiva dessa situação.










