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«Vermelho e Amarelo», de Maria Helena Vieira da Silva, Kunsthaus, Zurique
[porque ardem nas ruas / os direitos e os bens? ―/ vermelho amarelo © haiku e fotografia («Vermelho e Amarelo», de Maria Helena Vieira da Silva, Kunsthaus, Zurique: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

…e a Deus o que é de Deus

| 19/10/2026

[domingo xxix do tempo comum ― a ― 2026]

 

1. Neste fim de semana em que muitas cidades europeias
se encontram a ferro e fogo com manifestações violentas
ao ponto de causarem feridos e elevados prejuízos materiais,
poderemos sentir que o Evangelho proclamado vem lançar combustível
para a fogueira que gostaríamos de ver rapidamente apagada.
Se, por um lado, nos alegramos com a alta hospitalar do Papa Leão XIV
e o seu regresso à atividade normal, ainda que em recuperação,
por outro, notamos que, entretanto, deflagrou um agressivo tumor maligno
com múltiplas metáteses nas ruas e praças das cidades.

Praça da Liberdade, em Viana do Castelo, projetada por Fernando Távora.

[Praça da Liberdade, em Viana do Castelo, projetada por Fernando Távora. Fotografia © Joaquim Félix]

2. Ainda há poucas semanas vimos multidões pacíficas em França
a rejubilar com a visita apostólica do Papa Leão XIV.
Subitamente, porém, na semelhança das trovoadas de outono,
assistimos a atos de vandalismo que nem o património histórico respeita,
como, por exemplo, a Câmara de Limoges ontem incendiada.
Sabemos que, para esta situação, tem contribuído, entre outras causas,
o aumento do preço da energia, dos bens essenciais e do custo de vida;
a dificuldade de acesso à habitação, na aquisição ou no arrendamento;
e, também, a afetação de recursos para a ajuda à Ucrânia.
Num momento de grandes tensões políticas e sociais à escala planetária,
precisamos de investir mais em termos de moderação no uso da palavra
e no discernimento das causas profundas e das soluções a construir,
para resolver, de forma não-violenta, as atuais problemáticas.

3. Voltemo-nos então para a situação narrada no Evangelho.
A fim de compreendermos a questão que foi colocada a Jesus
e a resposta que Ele deu aos seus interlocutores,
temos necessariamente de esclarecer o contexto da mesma.
Estando próxima a Páscoa, Jesus encontrava-se em Jerusalém.
Caminhando pelo átrio dos gentios e os outros espaços do templo,
Jesus pregava, todos os dias, o reino dos Céus.
Acompanhando a sequência do Evangelho segundo S. Mateus,
depois das três parábolas que ouvimos nos domingos anteriores,
nas quais as autoridades judaicas, em particular as religiosas, são visadas,
vemos Jesus a ser posto à prova no contexto de três controvérsias.
Hoje, ouvimos a primeira delas, acerca do pagamento do tributo a César.

Detalhe da estátua equestre de Marco Aurélio. Campidoglio, Roma.

[Pagamento do tributo a César. Detalhe da estátua equestre de Marco Aurélio. Campidoglio, Roma.  Fotografia © Joaquim Félix]

4. «É lícito ou não pagar o tributo a César?» (Mt 22,17).
A pergunta não é inocente pois mais parece um drone armadilhado.
Qual é a carga explosiva que ela esconde?
Convém esclarecer que o tema do tributo a pagar a Roma
era uma questão fraturante entre os judeus,
uma vez que ela tinha implicações políticas e religiosas.
Mais, é necessário conhecer qual era a posição dos interlocutores,
neste caso, dos fariseus e dos herodianos.
Recordemos que, além dos impostos indiretos,
todos os judeus adultos tinham de pagar anualmente
um tributo suplementar para os cofres de Roma, capital do império.
Este imposto era conhecido como «tributum capitis»,
isto é, o «tributo por cabeça».
Homens, mulheres e escravos tinham de o pagar.

Escultura da loba com Rómulo e Remo. Roma.  Fotografia ©

[«Tributum capitis». Escultura da loba com Rómulo e Remo. Roma.  Fotografia © Joaquim Félix]

5. Do ponto de vista político, defender o seu pagamento
equivalia a reconhecer a autoridade imperial de Roma,
potência estrangeira ocupante.
Discordar e não o pagar significava incorrer
no crime de insubordinação política e, possivelmente,
correr o risco de ser condenado à pena de morte.
Do ponto de vista religioso, este tributo também levantava problemas,
na medida em que, no denário ― moeda romana do imposto ―,
se encontrava esculpida a efígie do imperador e a inscrição:
«Filho do Divino Augusto».
Para os judeus mais escrupulosos, a imagem e a inscrição
representavam um atentado contra o monoteísmo praticado por Israel,
uma vez que só aceitavam prestar culto a Iahweh,
Senhor da terra que lhes fora dada em cumprimento da promessa.

Escultura de imperador, nos Foros Imperiais, em frente ao Mercado de Trajano, Roma.

[«Filho do Divino Augusto». Escultura de imperador, nos Foros Imperiais, em frente ao Mercado de Trajano, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

6. Qual era o posicionamento dos principais partidos políticos de Israel?
Os herodianos e os saduceus, que aceitavam a ocupação romana,
estavam de acordo com o pagamento deste tributo.
Os fariseus, quase sempre numa posição de alinhamento de interesses,
embora o contestassem, pagavam-no para se livrarem de problemas.
Além destes grupos político-religiosos,
havia outros movimentos, digamos que revolucionários ou extremistas,
que contestavam tal tributo, por considerarem inaceitáveis
quer a colonização romana quer o culto ao imperador como idolatria.

Pantheon, Roma. 

[Inaceitável o culto ao imperador. Pantheon, Roma.  Fotografia © Joaquim Félix]

7. Conhecedores agora do pensamento dos herodianos
e dos discípulos dos fariseus, poderíamos imaginar que Jesus
sensível aos elogios que eles Lhe dirigiram
― justos e verdadeiros, como até nós reconhecemos ―,
alinharia a sua resposta pela posição deles, até para se proteger.
Descortinando, todavia, a sua malícia,
recordamos como Jesus procedeu ao analisar com eles o denário,
a moeda do tributo, com a imagem do imperador e a respetiva inscrição.

Ruínas em Roma, junto ao Teatro Marcelo. 

[Jesus analisou com eles o denário, a moeda do tributo. Ruínas em Roma, junto ao Teatro Marcelo.  Fotografia © Joaquim Félix]

8. «Então, dai a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21).
Por vezes, verificamos que esta resposta dada por Jesus
é invocada para assinalar apenas a separação de poderes,
da política e da religião, respetivamente.
Não é que a invocação esteja incorreta,
mas, na intenção de Jesus, o alcance da sua resposta colocar-se-á
para além de uma equivalência ou de uma separação radical de poderes.
Ao assinalar isto, não procuro defender quaisquer misturas
destas duas esferas de poderes, que tantos males provocam.
Basta ver o que, por exemplo, está a acontecer em certas teocracias,
como no Irão, onde continuam a atentar contra a dignidade humana,
ao executar dezenas de jovens alegadamente ligados às manifestações
contra o regime, nas quais, foram assassinados milhares de pessoas.
Ao discernir com eles a imagem e a inscrição da moeda,
Jesus dilata a pergunta deles para um outro âmbito que,
muito provavelmente, eles não estariam a considerar.
Isto é, ao apontar para a imagem e a inscrição presentes na moeda,
Jesus alarga a questão para a imagem divina inscrita nos humanos.
Criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1,26-27),
não basta pagar os impostos às autoridades económicas,
porque é fundamental dar a Deus ― o único a quem se pode adorar ―
o devido tributo, sem o podermos comparar sequer aos tributos políticos.

Casa dei Crescenzi, Roma.

[Não basta pagar os impostos. Casa dei Crescenzi, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

9. Infelizmente, nos nossos dias,
não faltam políticos que, usando esta sentença de Jesus
e muitas outras passagens da Sagrada Escritura,
procuram justificar as suas ideologias políticas,
de forma radicalizada e com deturpações da Palavra de Deus.
Alguns deles exaltam-se como se fossem novos Césares,
especializando-se na criação de taxas e tributos,
desejando ser adorados à semelhança dos imperadores romanos,
e, como eles, defensores da pena de morte,
não se importando que as execuções sejam transmitidas em streaming.

 Escultura de Trajano, junto à Rocca dei Rettori, Benevento. 

[Alguns deles exaltam-se como se fossem novos Césares. Escultura de Trajano, junto à Rocca dei Rettori, Benevento.  Fotografia © Joaquim Félix]

10. Que poderá entender-se por «dar a César o que é de César»?
Se atendermos aos impostos, por mais que desejemos a sua descida,
sobretudo nesta fase em que a maioria das pessoas perde poder de compra,
é claro que devemos pagá-los de forma justa e equitativa.
O âmbito do «dar a César» é mais vasto, porém,
porque inclui, no plano da nossa responsabilidade política,
deveres que estão consagrados na Constituição, a lei fundamental.

[É claro que devemos pagar os impostos de forma justa e equitativa.  Fotografia © Joaquim Félix]

Tendo descoberto uma canção de César MC, rapper brasileiro,
que possui uma canção intitulada «Dai a César o que é de César»,
podemos meditar ainda na última das suas estrofes:
«As peças avançam sem conteúdo
E eu me sinto criança nesse tabuleiro
Onde minha diversão é derrubar tudo
Falsos profetas que citam a Bíblia
Destilando ódio e motivando guerra
O próprio Diabo também citava
E adivinha, fazia merda
Ainda busco ser sal e luz
Sei exatamente minha missão na Terra
A bancada evangélica não é Jesus
Então, dai a Cesar o que é de Cesar».
O contexto é o do Brasil, mas podemos, ainda assim,
descortinar a nossa missão ― ser sal e luz ― neste momento da História.

11. Alinhado com o tributo a dar a Deus, ouvimos no final do salmo:
«Dizei entre as nações: ‘o Senhor é Rei’,
governa os povos com equidade» (Sl 96,10).
Na citada letra da música de César MC,
podemos meditar estes dois versos em sintonia com o salmo:
«Equidade, a conta primária
Bem mais necessária que todo algoritmo».
Que tributaremos ao Senhor, em sintonia com a proposta de Jesus?
Além de uma vida segundo a ética dos valores cristãos,
creio que nos fará falta dar mais tempo ao Senhor.
Esta semana talvez tenhamos meditado nesta frase de Gabriella Greison,
divulgadora de ciência, colocada em destaque no jornal 7 Margens:
«’Não tenho tempo’ é uma das frases que mais usamos.
Quase nunca significa que o tempo não existe.
Significa que o dedicamos a outra coisa,
Seja voluntária ou inconscientemente. (…)
A pergunta é: a que é que gostarias de dedicar mais tempo?».
Tendo em conta, o repto lançado por Jesus,
não poderíamos dar mais tempo ao Senhor?

É curioso que o Pe. Zezinho, na canção «Dar a Deus»,
pensada para as crianças e com elas interpretada,
faz esta proposta na primeira estrofe:
«Dai a Deus o que é novo
A Deus o seminovo
Dai a Deus o que virá
A Deus o que é antigo
A Deus o que já foi
O que é e o que será».
Não esqueçamos que o tempo, segundo Roberto Benigni,
é o dom mais precioso que precisamos de dar, dando-nos;
não objetos e bugigangas, mas tempo com a nossa presença.

12. Em sintonia com a ação de graças de S. Paulo,
transmitida aos cristãos de Tessalónica (ver 1Tes 1,5-),
procuremos que o desafio da tributação amplificado por Jesus
corresponda à atividade da nossa fé,
ao esforço da nossa caridade é à firmeza da nossa esperança.
Assim entusiasmados, discerniremos que a bondade de Deus
poderá manifestar-se a partir de pessoas de quem menos se esperaria,
como sucedeu com a libertação de Israel através de Ciro,
rei dos Persas (ver. Is 45,1.4-6).

[Não poderíamos dar mais tempo ao Senhor? Relógio da igreja de S. Pedro, Zurique  Fotografia © Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 18 de outubro, [domingo xxix do tempo comum ― a ― 2026], proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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