“Junto com todos os fiéis rezamos para que os distúrbios cessem, para que as reivindicações justas sejam ouvidas e levadas em consideração e para que, por meio da prática do diálogo e do respeito à justiça, a paz possa regressar”, escrevem os bispos franceses num comunicado em que condenam “a espiral de violência” vivida em quase todas as cidades francesas no dia 17 de outubro.
A nota é assinada pelo presidente da Conferência dos Bispos da França [CEF, na sigla em francês], o cardeal Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, e pelos seus dois vice-presidentes. Divulgado ao fim da tarde de 19 de outubro, o texto expressa “o apoio e solidariedade às pessoas que sofreram ferimentos” durante “a grave violência e as cenas de tumulto que abalaram o país no sábado, 17 de outubro de 2026” e “mergulharam o país num estado de choque, de medo e de desolação, levantando inúmeras questões sobre as causas profundas desta crise”.
Os bispos franceses recordam que “à margem das manifestações previstas e autorizadas, ocorreram graves distúrbios: membros das forças de segurança foram atacados e feridos, lojas foram saqueadas, equipamentos públicos foram danificados e edifícios que representam as instituições do Estado foram depredados”, tudo “transformando o país num palco de violências inaceitáveis”.
Na linha do que já outros prelados franceses tinham vindo a público afirmar, a presidência da CEF expressa “apoio e solidariedade a todas as pessoas que sofreram ferimentos, bem como aos muitos comerciantes que foram vítimas desse vandalismo e apela a todos “para que não se deixem arrastar pela espiral dessa violência mortífera: o nosso país merece algo melhor”.
Entre outros, o arcebispo de Lyon, Olivier de Germay, afirmou, em comunicado, que a sua cidade “foi palco de confrontos, ódio, destruição e saques inaceitáveis”, acrescentando: “Estou plenamente ciente de que essa violência é um sinal de uma sociedade doente, mas quero reiterar, com ênfase, que esse é um caminho sem saída”.
Desde o final de setembro que estudantes do ensino básico e secundário têm vindo a realizar protestos em frente às escolas e nas ruas de várias cidades francesas reivindicando desde melhores horários, tamanho menor das turmas, solução para a falta de professores até para o calor excessivo nas salas de aula durante as ondas de calor deste ano. Em alguns casos estes protestos já tinham levado a confrontos com a polícia e à destruição de bens públicos e privados, mas nada de semelhante à violência e destruição vivida no fim de semana de 17 e 18 de outubro.
No sábado 17 de outubro, entre 550 a 800 mil pessoas, incluindo professores e estudantes universitários, participaram em manifestações em todo o país durante as quais grupos violentos aproveitaram para incendiar automóveis, saquear lojas, escolas, bancos e edifícios públicos.
O Ministério do Interior informou que, na sequência destas desordens, cerca de mil policias e gendarmes ficaram feridos. Por seu lado, o ministro francês da Justiça, Gérald Darmanin, declarou que as autoridades detiveram 2.331 pessoas durante o fim de semana, 70 por cento das quais eram adultos “muitas vezes já conhecidos pela polícia e pelo sistema judiciário”. Contudo, esta afirmação foi contrariada por agentes da justiça, como, por exemplo, procuradores de Toulouse e de várias outras cidades que sublinharam o facto da maioria dos detidos não possuir antecedentes criminais.










