A pintura de Ilia Repin que acompanha este texto fixa um momento do livro de Jó. Os amigos chegaram para o consolar e, durante sete dias e sete noites, nenhum deles falou, porque viam como era grande a sua dor (Jó 2,13). O problema começa quando abrem a boca: se Jó sofre, alguma culpa há de ter. Jó recusa essa explicação. E, no fim do livro, é a ele, e não aos amigos, que Deus dá razão (Jó 42,7).
Os amigos de Jó fazem o que a teologia faria durante séculos: defender Deus perante o mal. O problema do mal é das questões mais antigas da reflexão religiosa. Se Deus é todo-poderoso, sabe tudo e é plenamente bom, como compreender o sofrimento, a morte e a injustiça que atravessam a vida humana? No início do século XVIII, Leibniz deu a essa tentativa um nome que ficou: teodiceia, isto é, a justificação de Deus perante o mal.

“Se Deus é todo-poderoso, sabe tudo e é plenamente bom, como compreender o sofrimento, a morte e a injustiça que atravessam a vida humana?” Pintura: Ilia Repin, Job e os seus amigos (1869). Museu Estatal Russo, São Petersburgo.
Talvez, porém, a pergunta tenha sido muitas vezes mal colocada. Talvez o essencial não seja justificar Deus, mas compreender a natureza da criação. A vulnerabilidade, o limite e a morte não parecem acidentes ocasionais da experiência humana: parecem pertencer à própria condição de criatura. Poderá o mal explicar-se apenas a partir da liberdade humana, ou terá de ser compreendido, pelo menos em parte, à luz dos limites do próprio acto criador? É desta interrogação que nasce a expressão «culpa de Deus». Não se trata de uma acusação moral dirigida a Deus, nem de pôr em causa a sua bondade, mas de dar voz a uma pergunta que a própria condição de criatura levanta.
Durante muitos séculos, a tradição cristã leu os relatos da criação e da queda como a chave para compreender a origem do mal. Foi sobretudo Agostinho de Hipona quem deu a esta leitura a forma que marcou o Ocidente cristão: uma criação originalmente perfeita, depois corrompida pela queda. O diálogo com as ciências da natureza veio complicar este quadro. Muito antes de existirem seres humanos, as espécies surgiam e desapareciam, e a morte acompanhava já toda a história da vida.
Isto não obriga a rejeitar os relatos bíblicos. Convida, isso sim, a lê-los de acordo com o seu género e a sua intenção. O relato da queda não pretenderia explicar como o mal entrou no universo, mas exprimir de forma simbólica a experiência humana da finitude, da liberdade, da culpa e da ruptura. É nesta linha que se situa Paul Ricoeur: os grandes símbolos do mal não são relatos de factos, mas linguagens com que a humanidade procura dar sentido à sua experiência de limite.
A tradição teológica sempre afirmou a distinção entre Deus e a criação. Deus é a plenitude do ser; a criação recebe o ser e participa dele de modo limitado. Levada a sério, esta distinção faz da finitude a marca de tudo o que existe sem ser Deus. Leibniz chamou-lhe «mal metafísico», mas a designação pode induzir em erro, porque a finitude, em si mesma, não é um mal. É aquilo que torna possível a dor, a deterioração e a morte, e também a falha moral.
Isto não dispensa a responsabilidade humana. Grande parte do sofrimento do mundo tem autores. Mas também a nossa liberdade é finita: escolhemos sem ver tudo, sob o peso do medo, da ignorância e das circunstâncias. Surge aqui a pergunta mais difícil. Se tudo o que existe foi querido e chamado à existência por Deus, até que ponto essa estrutura limitada deve ser pensada também em relação ao Criador? No fundo, é a pergunta de Jó.
O teólogo galego Andrés Torres Queiruga oferece aqui uma pista importante. Em vez de pensar a criação como um acto concluído num passado longínquo, propõe vê-la como uma realidade orientada para uma realização que ainda não alcançou. A perfeição deixa de estar no princípio e passa a estar no horizonte. Já no século II, Ireneu de Lião imaginava a humanidade criada como uma criança, chamada a crescer até à maturidade. E Paulo escreve que «toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente» (Rom 8,22): o sofrimento não é negado, mas associado à espera de uma vida que ainda não nasceu.

O teólogo e escritor Andrés Torres Queiruga ” propõe ver a criação como uma realidade orientada para uma realização que ainda não alcançou. A perfeição deixa de estar no princípio e passa a estar no horizonte.” Foto: Direitos reservados
Uma dificuldade, no entanto, permanece. Se Deus é omnipotente, porque não conduziu a criação, desde o início, à sua plena realização? Torres Queiruga responde que uma criação verdadeiramente distinta de Deus não pode ser infinita, porque então seria Deus. Pedir um mundo finito sem qualquer fragilidade seria pedir uma contradição, como pedir um círculo quadrado. Ainda assim, convém reconhecer os limites do nosso próprio raciocínio. Karl Rahner insistiu em que Deus permanece sempre Mistério absoluto: podemos dizer algo de verdadeiro sobre Deus, mas Deus excede sempre aquilo que dizemos.
Nada disto elimina a dificuldade colocada pelo sofrimento, nem oferece uma resposta definitiva ao problema do mal. O mistério, porém, não serve para encerrar a conversa demasiado depressa. Não dispensa o pensamento; obriga-o apenas a reconhecer onde termina.
É neste ponto que a fé cristã introduz uma perspectiva singular. Em vez de justificar Deus perante o sofrimento, como os amigos de Jó, coloca no centro uma convicção desconcertante: Deus assume a condição humana e participa da vulnerabilidade da criação (Fl 2,6-11). Na cruz, o grito de Jesus, «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Marcos 15,34), dá voz à experiência humana do abandono.
É aqui que a expressão «culpa de Deus» ganha o seu sentido mais fundo. Deus não é culpado no sentido moral. Mas é responsável no sentido que a própria palavra guarda: responde pelo que criou. Não produz o mundo para o deixar entregue à sua sorte. Na cruz, Deus não explica a finitude da criação: carrega-a. A cruz não oferece, por isso, uma solução teórica para o problema do mal, nem lhe retira o peso dramático. A pergunta já não é só «porque sofremos?». É também: que Deus é este, que partilha a fragilidade e a dor daquilo que criou? E já agora, porquê? Que desígnio serve essa partilha? O da consumação escatológica do Reino? Isto é, serve a aurora de «um novo céu e uma nova terra onde habita a justiça» (2 Pe 3,13)?
Reconhecer a profundidade destas questões é também admitir os limites de qualquer resposta. A criação não é uma obra acabada desde a origem, mas uma realidade a caminho de uma plenitude ainda por realizar. Talvez a tarefa da teologia não seja resolver todas as perguntas, mas aprender a habitá-las com mais verdade. Foi o que fez Jó, que nunca recebeu uma explicação, mas também nunca deixou de se dirigir a Deus. Talvez seja esse o lugar mais autêntico da teologia: acompanhar, com lucidez e abertura ao mistério, a procura de sentido diante de uma criação frágil, mas orientada para a esperança da sua plena realização.
Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, investigador no Centro de História (ULisboa) e na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
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