O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.

“- Disseste alguma coisa, Irmão Leão?
– Nada, Pai Francisco. Não falei.
– “Quem vive no meio de lobos precisa ser lobo e não cordeiro”, foi o que disseste e é o que dizem todas as pessoas sensatas. Mas Deus me dotou de loucura, de uma nova espécie de loucura, e digo: “Quem vive no meio de lobos precisa ser cordeiro, pronto para ser comido por eles!” Como se chama o que temos de imortal?
– Alma.
– Pois bem, ninguém consegue comer a alma, Irmão Leão […]
O fim aproximava-se. Os irmãos chegavam de toda parte para se despedir de Francisco. Elias corria de aldeia em aldeia, reunindo a multidão e anunciando que o santo agonizava. “Que todos estejam prontos para ir ao enterro com círios acesos”, recomendava. Dissera ao bispo que ordenasse que os sinos dobrassem, dia e noite, em San Rufino. Em San Damiano, as freiras, ajoelhadas diante do crucifixo, imploravam a Deus que não lhes levasse ainda o seu Francisco. O Lobo, por sua vez, desceu da montanha trazendo um cesto de uvas e figos de presente. Entrou na ponta dos pés e aproximou-se da cama. Francisco abriu os olhos e o reconheceu:
– Irmão Cordeiro, bom dia. Os gaviões do Alverne decerto te anunciaram que eu ia morrer. Adeus, meu irmão.
– Não és tu quem morre, Pai Francisco – respondeu o feroz irmão. – Somos nós que morremos. Perdoa-me tudo o que fiz.
– Deus te perdoe, Irmão Cordeiro, Deus e não eu. E se salvares a tua alma, tudo ficará salvo, até mesmo os carneiros que comeste no tempo em que eras lobo…
– Pai Francisco – disse, beijando-lhe a mão -, vais partir, subirás ao céu. Fala-nos mais uma vez.
Francisco meneou a cabeça:
– Meus filhos, meus irmãos, meus pais, tudo o que tinha a dizer-lhes já foi dito. Todo o sangue do meu coração já foi dado. Não tenho mais nada. Se tivesse ainda algo a dizer, ou sangue a verter, Deus me reteria na terra.
– Não tens mais nada a dizer-nos, nada mesmo? – exclamou Egídio, que chorava a um canto.
– Pobreza, Paz, Amor, só isso, meus irmãos. Pobreza, Paz, Amor. . .
Tentou erguer-se. Em vão.
– Meus irmãos – disse -, tirem-me a roupa, deitem-me nu sobre a terra. Quero tocar o chão, quero que o chão me toque. . .
Nós lhe tiramos a roupa, em pranto, deitamo-lo conforme pedira, na terra, e ajoelhamo-nos ao redor dele. O Arcanjo pairava sobre a sua cabeça.
Não víramos chegar a Irmã Clara, que escutava, arrasada, no limiar da porta. De repente, porém, um soluço chamou nossa atenção e vimo-la, com o rosto escondido por um lenço. Foi então que começamos a nos lamentar.
Francisco admirou-se:
– Por que choram, meus irmãos? Ninguém respondeu.
– A vida é tão doce assim? Ou será que pouco confiam na vida eterna? Minha irmã Morte, tu, que aguardas do outro lado da porta, perdoa os homens. Desconhecem a tua nobre mensagem e por isso têm medo de ti”. (Nikos Kazantzaki, São Francisco de Assis)










