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Morte de São Francisco de Assis
Grupo escultórico Barro cozido policromado, em tamanho natural, composto por doze figuras de franciscanos em veneração a São Francisco de Assis no momento do seu passamento. Situa-se no interior de uma vitrina no espaço da antiga portaria do convento de São Pedro de Alcântara, para onde terá sido feito aquando da sua edificação, em 1670. Museu São Roque.

Ano jubilar-800 anos da morte (9)

Quando a irmã morte bate à porta

| 03/11/2026

 

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.

“- Disseste alguma coisa, Irmão Leão?

– Nada, Pai Francisco. Não falei.
– “Quem vive no meio de lobos precisa ser lobo e não cordeiro”, foi o que disseste e é o que dizem todas as pessoas sensatas. Mas Deus me dotou de loucura, de uma nova espécie de loucura, e digo: “Quem vive no meio de lobos precisa ser cordeiro, pronto para ser comido por eles!” Como se chama o que temos de imortal?
– Alma.
– Pois bem, ninguém consegue comer a alma, Irmão Leão […]

O fim aproximava-se. Os irmãos chegavam de toda parte para se despedir de Francisco. Elias corria de aldeia em aldeia, reunindo a multidão e anunciando que o santo agonizava. “Que todos   estejam  prontos  para  ir  ao   enterro com  círios  acesos”, recomendava. Dissera ao bispo que ordenasse que os sinos dobrassem, dia e noite, em San Rufino. Em San Damiano, as freiras, ajoelhadas diante do crucifixo, imploravam a Deus que não lhes levasse ainda o seu Francisco. O Lobo, por sua vez, desceu da montanha trazendo um cesto de uvas e figos de presente. Entrou na ponta dos pés e aproximou-se da cama. Francisco abriu os olhos e o reconheceu:

– Irmão Cordeiro, bom dia. Os gaviões do Alverne decerto te anunciaram que eu ia morrer. Adeus, meu irmão.
– Não és tu quem morre, Pai Francisco – respondeu o feroz irmão. – Somos nós que morremos. Perdoa-me tudo o que fiz.
– Deus te perdoe, Irmão Cordeiro, Deus e não eu. E se salvares a tua alma, tudo ficará salvo, até mesmo os carneiros que comeste no tempo em que eras lobo…
– Pai Francisco – disse, beijando-lhe a mão -, vais partir, subirás ao céu. Fala-nos mais uma vez.

Francisco meneou a cabeça:
– Meus filhos, meus irmãos, meus pais, tudo o que tinha a dizer-lhes já foi dito. Todo o sangue do meu coração  já  foi  dado.  Não tenho mais nada. Se tivesse ainda algo a dizer, ou sangue a verter, Deus me reteria na terra.

– Não tens mais nada a dizer-nos, nada mesmo? – exclamou Egídio, que chorava a um canto.

– Pobreza, Paz, Amor, só isso, meus irmãos. Pobreza, Paz, Amor. . .

Tentou erguer-se. Em vão.

– Meus irmãos – disse -, tirem-me a roupa, deitem-me nu sobre a terra. Quero tocar o chão, quero que o chão me toque. . .

Nós lhe tiramos a roupa, em pranto, deitamo-lo conforme pedira, na terra, e ajoelhamo-nos ao redor dele. O Arcanjo pairava sobre a sua cabeça.

Não víramos chegar a Irmã Clara, que escutava, arrasada, no limiar da porta. De repente, porém, um soluço chamou nossa atenção e vimo-la, com o rosto escondido por um lenço. Foi então que começamos a nos lamentar.

Francisco admirou-se:
– Por que choram, meus irmãos? Ninguém respondeu.
– A vida é tão doce assim? Ou será que pouco confiam na vida eterna? Minha irmã Morte, tu, que aguardas do outro lado da porta, perdoa os homens. Desconhecem a tua nobre mensagem e por isso têm medo de ti”. (Nikos Kazantzaki, São Francisco de Assis)

 

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