Uma espécie de mapa.
«Acredito que o mundo é feito de histórias. Na América, estamos a viver uma crise da realidade. Mas, no fundo, trata-se de uma crise das histórias. Um confronto entre narrativas sobre o fim dos tempos, sobre a justiça e sobre o progresso.»
(Laurie Anderson, artista, compositora e realizadora,
Bienal de Veneza 2026)
Que mapa nos traça a cultura contemporânea? Uma experiência pessoal inédita – uma visita à Bienal de Arte Contemporânea, de Veneza – permite estabelecer algumas rotas e propor curtas reflexões.
Notas prévias:
não sou crítico de arte; estive na Bienal como milhares de outras pessoas, olhando, contemplando, tentando decifrar sentidos na expressão e na proposta de dezenas de artistas;
a visita em dois dias (o bilhete normal), incompletos, não permite a atenção que a extensão da mostra exige; menos ainda apreciar todas as múltiplas instalações videográficas ou performances;
o que aqui fica é, portanto, uma impressão pessoalíssima: não um texto sobre a Bienal, mas algumas reflexões que a visita pode provocar; ela foi espevitada pela presença da Santa Sé na Bienal, e por uma pequena parte do que está exposto nos Giardini e no Arsenal de Veneza desde 9 de Maio e até ao próximo dia 22 deste mês de Novembro;
obviamente, o que se vê na Bienal de Veneza, sendo muito, e muito representativo, não abarcará (longe disso) a totalidade das tendências, olhares, propostas, temas e debates que marcam a arte contemporânea em todo o mundo.

Participantes no pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza 2026: uma experiência sensorial, musical, contemplativa e meditativa, que rompe com o ruído da cidade. Foto © António Marujo
O início, ficou dito, foi o impulso para ver o pavilhão da Santa Sé na Bienal. Inspirado na figura de Hildegarda de Bingen, ele divide-se por dois espaços: o “jardim místico” do Carmelo, mesmo ao lado da estação de comboios de Santa Lucia, onde as composições de 20 músicos, compositores, poetas e artistas respondiam “aos cantos, escritos e imagens visionárias de Hildegarda através da voz, da instrumentação e, por vezes, do silêncio”; e o Complexo de Santa Maria Ausiliatrice, num espaço concebido pela arquitecta Tatiana Bilbao como um scriptorium medieval e onde se poderiam admirar trabalhos de Ilda David’ recriando as obras gráficas de Hildegarda, sugerindo uma relação entre passado e recriação artística contemporânea, mas ficando prejudicados pela desorganização do espaço onde se integram.
Já a proposta do jardim constitui uma experiência sensorial, musical, contemplativa e meditativa, que rompe com o ruído da cidade e da avalanche turística ali mesmo ao lado, possibilitada por nomes como Brian Eno, Patti Smith, Jim Jarmusch, Meredith Monk ou a portuguesa Carminho.
O visitante entra no espaço e recebe um par de auscultadores que lhe permite escutar as diferentes composições, à medida que caminha lentamente ou se senta nos pequenos bancos de jardim ou nos degraus junto do oratório. Uma absoluta ruptura com a agitação presente ali a poucos metros, que sugere que a arte pode ser, deve ser, é também uma proposta para abrandar o ritmo – não por acaso, a instalação intitula-se “O Ouvido é o Olho da Alma”, correspondendo à proposta da curadora da Bienal, Koyo Kouoh, no sentido de a exposição ajudar a “abrandar o ritmo e sintonizar-se com um registo mais silencioso”. Se a arte é, também, uma forma de contemplação, este Pavilhão da Santa Sé na Bienal 2026 é uma excelente concretização desse desafio.

Escutando as composições musicais num dos recantos do jardim místico carmelita: a arte pode ser, deve ser, é também uma proposta para abrandar o ritmo. Foto © António Marujo
Há outros mapas que nos traça a cultura contemporânea? Façamos uma curta viagem por alguns dos artistas e peças expostas. Por essas narrativas que falam do fim dos tempos, da justiça e do progresso, para usar de novo as expressões de Laurie Anderson.
Desde logo, este é um mapa com uma geografia virada a Sul: o Sul do mundo, muito presente nesta 61ª Bienal de Arte, até porque a sua curadora, Koyo Kouoh (primeira mulher africana com tal tarefa, que morreu no dia a seguir à inauguração da exposição) escolheu o tema In Minor Keys, algo como “em tons menores”, com isso fazendo um convite a contemplar o que se afirma devagar e em surdina, sem pretender impor-se.
São 111 os artistas representados a convite da curadora e, como seria normal, Kouoh convidou um importante leque de artistas africanos, latino-americanos, asiáticos, representantes de margens muitas vezes ignoradas – mesmo em circuitos artísticos – mas nem por isso menos capazes de extraordinárias criações e propostas de reflexão. Obras e autores que reflectem a crise das histórias de que fala Laurie Anderson, e que atravessam o mundo – e a arte, incluindo a que se vê nesta Bienal.

Vera Tamari, Tale of a Tree (2002): nascida em Jerusalém (1945), mas a residir na Palestina, a artista exibe um pacífico grito de revolta. Foto © António Marujo
Há também periferias como a Palestina. A esse título, Vera Tamari (1945), que nasceu em Jerusalém mas reside na Palestina, exibe um pacífico grito de revolta: Tale of a Tree (2002) faz um jogo entre uma grande e bela fotografia de uma oliveira centenária, e 660 pequenas árvores de barro, cada uma simbolizando uma oliveira arrancada durante o ataque israelita a Ramallah em 2002. Sabendo que a destruição de milhares de oliveiras continua a ser uma arma de guerra usada amiúde pelos militares israelitas, esta obra remete para a ideia da resistência pacífica contra o genocídio e a aniquilação de uma cultura, um povo e uma economia.
Outras vidas arrancadas são as fixadas na obra que a timorense Verónica Pereira Maia, artista analfabeta e autodidacta hoje com 93 anos, começou a tecer após o massacre de Santa Cruz, em 12 de Novembro de 1991. Este acontecimento, de que se completam 35 anos na próxima semana, abriria tragicamente as portas à visibilidade da terrível ocupação indonésia de Timor. Tais Don é uma tapeçaria onde estão inscritos os 271 nomes das pessoas assassinadas pelos indonésios, apenas porque, num funeral, se manifestaram contra a ocupação.

Verónica Pereira Maia, Tais Don, peça tecida com os nomes das 271 pessoas assassinadas pelos militares indonésios em 12 de Novembro de 1991, no massacre de Santa Cruz. Foto © António Marujo.
Podem referir-se outros/as artistas e obras apenas como exemplo (ignorando dezenas que a lista deveria incluir): a indígena peruana Celia Vasquez Yui, activista pelos direitos dos povos originários e representante política do povo shipibo, com o seu Conselho dos Espíritos-Mãe dos Animais, esculturas zoomórficas em cerâmica que remetem para uma concepção espiritual da ecologia; a cubana Maria Magdalena Campos-Pons que celebra a curadora da Bienal e Toni Morrison, primeira mulher negra a ganhar o Nobel da Literatura, com Anatomia da Magnólia; a queniana Banadda Godfrey que mostra a serpente bíblica como um corpo de duas cabeças, enquanto figuras nuas correm para tentar escapar à morte…
Algumas das temáticas muito presentes nas obras expostas na Bienal reflectem preocupações mundiais, em tom de fim dos tempos que se sussurra: migrações (o salvadorenho Guadalupe Maravilla, fugido da guerra civil e a viver nos Estados Unidos); ecologia e respeito pela natureza; racismo e neocolonialismos (Annalee Davis, dos Barbados, ou Kemang Wa Lehulere, da África do Sul); tensões e conflitos sociopolíticos (o queniano Kaloki Nyamai); espiritualidades (o brasileiro Ayrson Heraclito ou Mmakgabo Mmapula Helen Sebidi, da África do Sul)); o lugar das mulheres (a cingalesa Rajni Perera e a filipina Marigold Santos); a política ou o poder das histórias (Werewere Liking, dos Camarões, a viver na Costa do Marfim; ou a sul-africana Hania Petersen).

Celia Vasquez Yui, Conselho dos Espíritos-Mãe dos Animais; a artista é uma activista pelos direitos dos povos originários e representante política do povo shipibo. Foto © António Marujo.
De outras geografias, surgem as interrogações éticas de Tammy Nguyen (EUA), a partir da realidade da geopolítica, literatura e ecologia, relacionando com a ameaça persistente da guerra nuclear. No pavilhão polaco, sugerem-se Liquid Tongues (“Línguas líquidas”), uma instalação de vídeo com um coro composto por pessoas ouvintes e surdas que, submerso numa piscina, canta canções de baleias – com os surdos a serem os únicos a ter sucesso, para dizer que os mais frágeis são, afinal, quem pode desempenhar melhor algumas tarefas.
A arte e a afirmação cultural “cumprem”, aqui, o seu papel de contra-poder, de antecipação de tendências ou de afirmação de debates sociais relevantes. E se a Bienal foi propondo, desde a primeira edição em 1895, perspectivas artísticas inovadoras e plurais, esta edição confirma ambas as intuições iniciais: inovação e diversidade de olhares, como ficou descrito pelos rápidos exemplos anteriores. Mas as tensões políticas com as representações nacionais da Rússia e Israel – que acabaram por manter praticamente fechados os dois pavilhões, não sem provocarem protestos, greves e a demissão do júri – trazem à evidência essa tensão da arte entre a subversão e a dependência em relação ao(s) poder(es) – seja(m) ele(s) político(s), económico(s) ou religioso(s). Afinal, a organização da Bienal, subversiva no convite à curadora, decidiu compactuar com dois países agressores. E se é legítima a discussão sobre se a arte e o desporto devem ser territórios de disputa ou de aproximação, nestes casos não resta muito às culturas democráticas e pacíficas (tanto quanto) senão ostracizar déspotas e criminosos de guerra. Afinal, o regime do apartheid foi isolado por razões semelhantes às que agora estão em causa.

Oriol Vilanova, Los Restos. Paredes revestidas com 50 mil postais comprados em “feiras da ladra” em muitas cidades: o lixo transformado numa obra de arte policromática e multitemática. Foto © António Marujo
Dois outros pavilhões apresentam provocações diferentes: no do Japão, uma instalação de Ei Arakawa-Nash convida à participação do visitante, convidado a pegar num dos 208 bonecos que reproduzem bebés de quatro meses no seu peso real, com óculos de sol, levando-o enquanto percorre o pavilhão. A experiência do cuidado e do comprometimento com outro ser humano é aqui testada até ao acto mais íntimo que é a mudança da fralda, que revela, depois, um poema, escondido num código QR. Cuidado, natalidade e poesia criam “uma espécie de mapa” em caminhos que, à partida, diríamos desencontrados.
No pavilhão de Espanha, uma “feira da ladra” converte-se numa obra de arte ela mesma. O catalão Oriol Vilanova revestiu as paredes com 50 mil postais comprados em “feiras da ladra” em muitos lugares. Los Restos, o título da instalação, transforma deste modo o que era lixo ou desprezado, numa obra policromática, diversificada nos temas, e que convida, sem o querermos, à contemplação, à atenção ao detalhe e ao permanecer. Funções da arte, afinal.

Turistas na Praça de São Marcos, em Veneza: o que fazer com esta invasão? Foto © António Marujo
À margem da Bienal, espanta uma outra questão: não sabemos, hoje, o que fazer às invasões turísticas das cidades; Veneza, pelo seu carácter único (mas também muitas outras cidades pelo mundo fora ou, à nossa escala, Lisboa, Porto e mais algumas) está pejada de visitantes e cobra já taxas de ingresso, que podem ser alargadas no calendário e aumentadas no preço, já a partir de 2027. Se é verdade que de alguma forma o fluxo de viajantes e turistas tem de ser reduzido, não será por caminhos destes que se conseguirá resolver o problema.
A Bienal e outras iniciativas organizam-se para serem vistas. É estranho, por isso, que se organizem actividades que pretendem ter visitantes e que, depois, esses mesmos “convidados” paguem exorbitâncias para o alojamento, alimentação ou transportes. Nem os visitantes deixam de aparecer. O efeito que tais medidas têm é que quem acaba por viajar e conhecer outras culturas são as pessoas das classes médias e altas.
O mesmo se pode dizer do acesso à cultura em geral – espectáculos, teatro, cinema, concertos… Também aqui a possibilidade de os mais pobres poderem aceder às manifestações culturais e à educação que elas exigem e provocam é ainda uma miragem em muitas circunstâncias.
A cultura e a arte são, também elas, uma espécie de mapa sobre o que nos atravessa como humanidade. Contradições, desejos, tensões, sonhos, angústias, traduzem as histórias que queremos contar – ou as que não sabemos ainda narrar. Estamos entre o fim dos tempos, a justiça e sobre o progresso.










