A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de Seul, na Coreia do Sul, quer contrariar aquilo que o arcebispo Peter Chung Soon-taick descreve como uma “era de desconexão”, criando oportunidades para que jovens de diferentes países, culturas e religiões se encontrem, estabeleçam relações e redescubram o seu valor. A organização apresentou esta quinta-feira, 5 de novembro, novos detalhes sobre a preparação do encontro, que decorrerá de 3 a 8 de agosto de 2027 e deverá reunir cerca de 500 mil participantes de mais de 190 países.
“Precisamos da coragem de nos encontrarmos uns com os outros e da coragem de nos acolhermos mutuamente”, afirmou o arcebispo de Seul, que preside ao comité organizador da JMJ 2027, durante uma conferência de imprensa realizada na capital sul-coreana. Esta será a primeira Jornada a realizar-se num país onde os cristãos não são maioritários e a organização pretende que seja um encontro verdadeiramente aberto não apenas aos católicos, mas também a pessoas de outras religiões e a todos os que queiram participar.
A proposta passa por fazer da Jornada uma experiência de encontro com a fé, a cultura e o quotidiano da Coreia do Sul, num ambiente de partilha que ultrapasse as fronteiras religiosas. “A JMJ de Seul 2027 será uma peregrinação de esperança, aberta não apenas aos católicos, mas a todos os que desejam viver com coragem no mundo de hoje”, anunciou o comité organizador nas redes sociais.
O arcebispo Peter Chung Soon-taick chamou a atenção para o contraste entre a facilidade de comunicação proporcionada pelas tecnologias digitais e a dificuldade crescente em compreender efetivamente os outros. Os jovens, afirmou, vivem também sob uma pressão constante para demonstrar o seu valor através da competição e dos resultados, num contexto de rápidas transformações tecnológicas e de crescente influência da inteligência artificial.
“O valor humano não é algo que conquistamos ao provar o nosso próprio valor”, assinalou, evocando a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, para sublinhar que a dignidade de cada pessoa não depende das suas capacidades, riqueza ou posição social.
O objetivo, explicou o responsável citado pela agência UCA News, não é simplesmente reunir muitas pessoas num mesmo lugar, mas proporcionar aos jovens a experiência de se encontrarem, abrirem o coração e reconhecerem a dignidade uns dos outros.
Mais de 80 mil inscritos e Portugal a preparar mobilização recorde
De acordo com os dados apresentados pelo comité organizador, são esperados cerca de 400 mil peregrinos internacionais, provenientes de aproximadamente 190 países, e 100 mil participantes sul-coreanos. Até 5 de novembro, já tinham sido registadas perto de 82 mil inscrições. O período de inscrição, iniciado a 22 de outubro, decorre até 31 de maio de 2027.
Apesar da distância que separa a Coreia do Sul do nosso país, esta Jornada está também a mobilizar os jovens portugueses. Pedro Carvalho, responsável pelo Departamento Nacional da Pastoral Juvenil (DNPJ), adianta que cerca de mil portugueses manifestaram já intenção de participar na JMJ de Seul. “Vai ser certamente a maior mobilização nacional de sempre para uma Jornada realizada fora do continente europeu”, afirma em declarações ao 7MARGENS.
O responsável recorda que a participação portuguesa mais expressiva numa edição extraeuropeia foi a do Panamá, em 2019, quando estiveram presentes cerca de 300 portugueses. Para esta Jornada, o DNPJ está a organizar a peregrinação “Vamos Juntos à JMJ Seul 2027“, que conta já com 800 participantes inscritos.
Pedro Carvalho ressalva, contudo, que o departamento não tem acesso à plataforma oficial de inscrições da JMJ, aberta apenas há cerca de 15 dias, pelo que os números relativos à intenção de participação correspondem a uma estimativa da mobilização nacional.
Governo e instituições mobilizados para a Jornada
Os principais momentos da JMJ terão lugar em dois espaços, anunciou o comité organizador durante a conferência. O Estádio Mundial de Seul acolherá a missa de abertura, a cerimónia de acolhimento do Papa e a Via-Sacra. Já a vigília de oração, na noite de 7 de agosto, e a missa de encerramento, no dia seguinte, decorrerão na Base Aérea de Seul, em Seongnam. Para esta última celebração, presidida pelo Papa Leão XIV, a organização prevê a presença de cerca de um milhão de pessoas, incluindo participantes sem inscrição oficial.
A segurança e a acessibilidade estão entre as prioridades da preparação, tendo em conta a dimensão do encontro e as temperaturas elevadas que se fazem sentir no país durante o verão. Estão a ser preparadas zonas de descanso e de sombra, pontos de distribuição de água e estruturas de emergência médica, bem como medidas para gerir a circulação de multidões e responder às necessidades dos participantes com deficiência. A organização pretende também recorrer a ferramentas tecnológicas para antecipar situações de concentração excessiva de pessoas, adianta o The Korea Herald.
Para que tudo corra da melhor forma, a organização da Jornada está a mobilizar estruturas para além da Igreja Católica. O Governo sul-coreano, a Câmara Municipal de Seul, vários ministérios e as forças de segurança estão envolvidos na preparação, nomeadamente nas áreas do alojamento, dos transportes e da gestão de grandes multidões.
Representantes da Assembleia Nacional, do Governo e do comité organizador reafirmaram o compromisso das instituições com a realização da JMJ, num sinal de apoio alargado à preparação do encontro.
Hobi e Cobi, amigos com esperança e coragem

Um tigre e um leão, as mascotes da JMJ Seul 2027.
Na conferência de imprensa de 5 de novembro, foram ainda apresentadas as duas mascotes oficiais da Jornada, Hobi e Cobi, e anunciada a atriz Kim Tae-hee como embaixadora do encontro.
Hobi é um tigre que representa os jovens da Coreia do Sul e simboliza a esperança, enquanto Cobi é um leão que representa os jovens de todo o mundo e simboliza a coragem. Os nomes resultam da combinação das palavras inglesas hope (esperança) e courage (coragem) com buddy (amigo).
Segundo a apresentação divulgada pelo comité organizador, Hobi, o “amigo esperançoso”, será o guia dos peregrinos em Seul, enquanto Cobi, o “amigo corajoso”, os acompanhará no caminho da fé. Na história criada para as duas personagens, o tigre vive no Oriente e simboliza a cultura e o espírito da Coreia e da Ásia; o leão vive no Ocidente e representa a coragem necessária para avançar em direção a um mundo novo. Um dia, descobrem uma luz que atrai jovens de diferentes línguas e culturas para Seul.
“A esperança avança quando encontra a coragem, e a coragem não se perde quando é guiada pela esperança”, resume a mensagem associada às duas mascotes.
Voluntários precisam-se
Nas últimas semanas, o comité organizador iniciou o recrutamento de voluntários internacionais para colaborar na preparação e realização da Jornada. O programa destina-se a pessoas nascidas até 2007 e prevê funções nas áreas da tradução e interpretação, apoio aos peregrinos e acompanhamento dos eventos, entre outras. O período de serviço decorrerá entre o segundo semestre de 2026 e agosto de 2027, sendo necessário que os candidatos tenham disponibilidade para permanecer na Coreia do Sul durante todo esse período e consigam desempenhar as funções em inglês ou coreano, sendo valorizado o domínio desta última língua.
As candidaturas, abertas desde 1 de outubro, decorrem até ao preenchimento das vagas, através do site oficial da JMJ. A organização esclarece ainda que não cobrará qualquer valor durante o processo de recrutamento.
A edição de Seul será a 17.ª da Jornada Mundial da Juventude e a segunda a realizar-se na Ásia, depois da edição de Manila, nas Filipinas, em 1995. Criada por João Paulo II em 1985, a iniciativa reúne jovens de todo o mundo para celebrar a fé, a oração e a partilha. A escolha de Seul foi anunciada pelo Papa Francisco no encerramento da JMJ de Lisboa, em agosto de 2023.










