Papa Francisco em entrevista: “Esta é uma oportunidade de conversão a uma economia mais humana”
Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro, a 27 de março: “Pensar nas pessoas unge-me, faz-me bem, tira-me do egoísmo.” Foto da transmissão vídeo.[/caption]
Um Papa cheio de preocupações, mas esperançoso por ver “sinais iniciais de uma conversão a uma economia menos líquida, mais humana”. De quarentena na Casa de Santa Marta, o Papa Francisco prossegue os seus esforços para se fazer próximo do mundo inteiro: acedeu ao pedido do escritor e jornalista britânico Austen Ivereigh e deu a sua primeira grande entrevista sobre a crise provocada pela pandemia de coronavírus.
“Toda a crise é um perigo, mas também uma oportunidade. E é a oportunidade de sair do perigo. Hoje creio que temos de desacelerar um determinado ritmo de consumo e de produção e aprender a compreender e a contemplar a natureza”, sublinha o Papa na entrevista, publicada esta terça-feira, 8 de abril, no The Tablet (no Reino Unido), Commonweal (nos EUA) e ABC (em Espanha), entretanto traduzida e publicada pela Unisinos, no Brasil. Francisco lança um desafio a toda a humanidade: “Este é o momento de dar o passo: passar do mau uso da natureza à contemplação. Nós, os homens, perdemos a dimensão da contemplação; temos que recuperá-la.”
O Papa considera que recuperar a dimensão contemplativa é o caminho para descobrir a realidade da pobreza e dar-lhe resposta. “É o momento de ver o pobre. (…) Descobrir essa quantidade de gente marginalizada… e como a pobreza é cheia de pudor, não a vemos. Estão ali, passamos ao lado, mas não os vemos.” A verdadeira conversão, diz passará por “descer ao subsolo”. E a solução não está numa “política assistencialista como fazemos com os animais abandonados. Não podemos fazer uma política assistencialista parcial”.
Seguir as pegadas dos “santos do lado”
Na entrevista, Francisco faz questão de manifestar a sua admiração por todos aqueles que têm estado já a operar o início desta conversão. “Penso nos santos da porta ao lado neste momento difícil. São heróis! Médicos, religiosas, sacerdotes, trabalhadores que cumprem com os seus deveres para que a sociedade funcione. Quantos médicos e enfermeiros morreram! Quantos sacerdotes, quantas religiosas morreram! Servindo.”, sublinha, insistindo numa ideia que já referira na sua Oração pela Humanidade, de 27 de março.
Na opinião do Papa, é determinante que reconheçamos “o milagre dos santos e santas do lado” e sigamos o seu exemplo. “Se soubermos seguir estas pegadas, este milagre terminará bem, para o bem de todos”. E garantiu: “Deus não deixa as coisas a meio do caminho. Somos nós que as deixamos e vamos embora”, por isso o que temos a fazer é “tomar as rédeas e seguir em frente”.
Francisco alerta, no entanto, para um perigo: “Preocupa-me a hipocrisia de certas personalidades políticas que falam de combater a crise, falam da fome no mundo e, enquanto falam disso, fabricam armas”, afirmou. “Este é um tempo de coerência. Ou somos coerentes, ou perdemos tudo”.
E depois da pandemia?
O Papa assumiu que a pandemia trouxe consigo grandes desafios também para si próprio e para a Igreja. “Penso nas minhas responsabilidades de agora e para depois. Qual vai ser o meu serviço como bispo de Roma, como cabeça da Igreja, no depois?”. Francisco revela uma enorme preocupação com o futuro: “Este depois já começou a mostrar que vai ser um depois trágico, um depois doloroso, por isso convém pensar desde já”.
Apesar disso, sabe que nesse depois “recordar isto que nos aconteceu vai ajudar-nos”. E deixou um conselho: “Cuidem-se para um futuro que virá. Cuidar o agora, mas para o amanhã”.
No Vaticano, informa, foi criada, através do Dicastério do Desenvolvimento Humano Integral, uma comissão que trabalha sobre a questão e reúne com ele. E assegura, com o bom humor que mantém, apesar das circunstâncias: “Estamos todos a trabalhar, aqui não há preguiçosos.”
Acima de tudo, a Francisco preocupam-no as pessoas e, entre missas diárias transmitidas em direto, audiências, reuniões, iniciativas solidárias, entrevistas e um sem fim de atividades que o têm ocupado nas últimas semanas, o Papa tem rezado mais. “Rezo mais porque acredito que devo fazê-lo, e penso nas pessoas. É algo que me preocupa: as pessoas. E pensar nas pessoas unge-me, faz-me bem, tira-me do egoísmo.” Essa será a chave das suas palavras para o presente e o futuro: que pensemos e nos preocupemos todos mais com os outros.
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