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França

O assassinato do padre Olivier Maire e a fidelidade ao Evangelho

O padre Olivier Maire. Reprodução do Twitter

 

O carácter excepcional do padre Olivier Maire, cujo funeral se realiza esta sexta-feira, 13 de Agosto, tem sido amplamente sublinhado desde que se tornou pública a notícia do seu assassinato, na segunda-feira, por Emmanuel Abayisenga, um emigrante ruandês de 40 anos. O padre Olivier Maire, provincial dos Missionários Monfortinos em Saint-Laurent-sur-Sèvre, no departamento de Vendée, acolhera-o, mesmo sendo o principal suspeito pelo incêndio na catedral de Nantes, no noroeste da França, em Julho de 2020. O Papa Francisco expressou a sua “grande dor” pelo sucedido e a maioria da imprensa francesa tem destacado as diversas qualidades que tornam notável o sacerdote nascido em 1961.

O diário francês Le Monde, datado de 13 de Agosto, por exemplo, traça um eloquente “itinerário de um padre entre os deserdados”. “É um homem de coração, muito humilde, generoso, acolhedor, jovial”, diz um dos testemunhos que o jornal recolheu. “Foi também um missionário que percorreu o mundo. Viajou muito, acompanhou peregrinações à Terra Santa, a Fátima (Portugal), à Índia, pregou retiros por todo o lado”.

O tom geral dos testemunhos dos mais próximos ou de quem apenas fugazmente conheceu o padre Olivier Maire é assaz encomiástico, repetindo-se a alusão à sua generosidade incondicional. Mas a circunstância de ter sido um cidadão do Ruanda, refugiado em França, a cometer – e a confessar – o assassinato tem provocado um alarido enorme. A imprensa francesa e, já agora, o Vatican News indicam que há investigações em curso e que as motivações terroristas foram descartadas. Os transtornos psicológicos do alegado homicida, admite-se, podem ser a causa do impulso homicida. Se assim for, fica por esclarecer o que falhou no acompanhamento de alguém que já tinha demonstrado ser capaz de gestos perigosos, como incendiar uma catedral. “Se houver uma falha, é sem dúvida no acompanhamento psiquiátrico de uma pessoa claramente desequilibrada”, dizia um editorial do jornal Le Monde do dia 12.

O caso, todavia, tem estado a ser explorado politicamente pelos sectores mais à direita da política francesa, que consideram que a morte do padre se deve à permissividade das políticas de acolhimento de estrangeiros. A este oportunismo, acrescenta-se a perfídia que tem visado a memória do padre Olivier Maire.

O influente ensaísta Patrice de Plunkett, que foi chefe de redacção e editorialista do diário Le Figaro, manifestou no seu blogue a estupefacção que sentiu ao ler no Facebook os comentários dos integristas e dos nacionalistas-católicos vituperando o padre Olivier Maire, acusando-o de “ter pecado contra as normas eclesiais ao ‘procurar o martírio’, assim desafiando Deus”, e de “ter traído a Nação acolhendo um imigrante clandestino já criminoso”.

Para Patrice de Plunkett os adeptos do nacionalismo-católico manifestam “cegueira e ódio”. Um ódio, aliás, que se tornou permanente em relação ao Papa Francisco por ser não-conformista, não-europeu, jesuíta, ter preocupações sociais, defender o hemisfério Sul, ainda mais ecologista que os seus predecessores e ainda menos liberal que eles no domínio económico, acrescenta o ensaísta.

“Podemos ler o terrível destino do padre Olivier Maire como uma parábola da mensagem bíblica que considera o acolhimento do outro como uma virtude cardeal. Ao abrir a porta incondicionalmente a um estrangeiro em situação irregular, provavelmente doente psiquiátrico, a ponto de perder a vida, o missionário mostrou coragem, mas também carregou e viveu até ao fim as suas convicções e a sua experiência cristãs”, dizia o editorial do jornal Le Monde, acrescentando: “Isso está de acordo com o Papa Francisco, que prega o acolhimento dos migrantes sem distinção entre migração económica e política”.

No diário católico La Croix, Dominique Greiner também afirma essa sintonia entre Olivier Maire e Francisco e pede que não se passe à margem de um tema essencial, que formula através de duas questões: “Que acolhimento e que cuidado propõe a nossa sociedade às pessoas que saem da prisão ou do hospital psiquiátrico? Quantos se encontram na rua, sobretudo se são estrangeiros e não têm papéis?”

Enquanto as perguntas não obtêm resposta, retenha-se o essencial: o assassinato do padre Olivier Maire, como conclui o editorial do Monde, “não é uma tragédia resultante da ‘ingenuidade’ de cristãos demasiadamente generosos, nem uma falência da França. É, em vez disso, uma alegoria, terrivelmente traumática, de um compromisso religioso integral, que exige admiração”.

 

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