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Firma de advogados irá auditar

Bispos espanhóis encomendam investigação sobre abusos

| 21/02/2022

Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Espanhola: os bispos espanhóis decidiram avançar para uma investigação própria. Foto © DR

 

A Conferência Episcopal Espanhola (CEE) decidiu encomendar a um importante escritório de advogados do país a realização de uma auditoria independente às alegações de abuso sexual na Igreja Católica. Haverá um “canal independente” para receber queixas e rever os procedimentos legais “para “punir práticas criminosas”. A decisão prevê entretanto que a investigação não será um contrapeso às diligências estatais já decididas e que, pelo contrário, seja feita em “colaboração absoluta” com a comissão estatal que o primeiro-ministro Pedro Sanchéz e o seu Partido Socialista querem estabelecer no âmbito da Provedoria de Justiça.

De acordo com a revista católica Vida Nueva, a decisão, depois de mais de três meses em que os bispos negaram a necessidade de o fazer, foi tomada na semana passada, na reunião da comissão executiva, órgão de liderança da CEE.

A mesma revista cita fontes do episcopado que garantem que a iniciativa não pretende contrariar a decisão já tomada pelo Governo, de fazer uma investigação no âmbito do Provedor de Justiça (Defensor del Pueblo, em Espanha). Pelo contrário, a ideia é mostrar uma “colaboração absoluta” com a proposta da ala socialista do Governo liderado por Pedro Sánchez.

O cardeal Juan José Omella, presidente da CEE e arcebispo de Barcelona, e o presidente do escritório de advogados Cremades & Calvo Sotelo, Javier Cremades, apresentarão os contornos da comissão numa conferência de imprensa a realizar nesta terça-feira, 22 de Fevereiro.

A firma de advogados garantiu que “abrirá um canal independente para receber possíveis queixas, reverá os procedimentos legais destinados a sancionar as práticas criminosas e oferecerá a sua colaboração às autoridades para ajudar a esclarecer os factos e estabelecer um sistema de prevenção que satisfaça as exigências sociais a este respeito”.

De acordo com o portal Religión Digital, a comissão a constituir pelo escritório jurídico não terá um limite temporal, como acontece com a comissão que investiga os abusos em Portugal, que estabeleceu 1950 como data limite. Em Espanha, diz o RD, serão investigados todos os casos, independentemente da data e a ideia é que se conte com a colaboração das vítimas. A mesma fonte acrescenta que faltará decidir se as vítimas irão ou não participar activamente na investigação e análise dos dados ou quando e como serão publicados os relatórios.

 

Bispos divididos, vítimas desconfiadas

 

O Arcebispo de Madrid, Cardeal Carlos Osoro, diz que “os casos do passado são os casos do presente”. Foto © Vatican Media

 

O tema tem dividido profundamente não só as estruturas políticas como a própria hierarquia católica espanhola. No El País – que entregou ao Papa uma lista de 251 casos de abuso, desencadeando várias iniciativas e posições públicas –, recorda-se que, ao contrário das vozes hesitantes de vários bispos, o arcebispo de Madrid, cardeal Carlos Osoro, afirmou já que “o facto de não haver acusações não significa que não haja casos” e que “os casos do passado são casos do presente”. O arcebispo de Santiago de Compostela disse na semana passada que a uma comissão parlamentar sobre os abusos na Igreja “é bem-vinda”, posição secundada pelos bispos de Burgos, Zamora e Vitória, enquanto o das Canárias considera que “todos os casos de pederastia devem ser investigados” e que “a ajuda e a reparação devem ser dadas às vítimas”.

A reacção de algumas vítimas, para já, é céptica. Miguel Ángel Hurtado, que sofreu abusos no mosteiro de Montserrat e recolheu 70.000 assinaturas exigindo uma investigação sobre a pedofilia na Igreja, disse ao El País que a investigação oficial “deve seguir o seu curso” e que a Igreja “não deve ter o privilégio de se investigar a si própria ou de escolher o modelo utilizado”.

No mesmo jornal, Fernando García Salmones, da associação Infância Roubada e também vítima de abuso na Igreja, desconfia que a investigação anunciada seja sinal de que a Igreja não irá colaborar com a investigação oficial. Manuel Barbero, pai de uma vítima e fundador da associação Mans Petites, questiona a validade de uma auditoria encomendada pela hierarquia católica. E Hurtado acrescenta que é a credibilidade da firma de advogados que também está em jogo, considerando “ultrajante” que este trabalho seja pedido a um escritório de juristas – esse foi o modelo adoptado, por exemplo, em Munique (Alemanha), na investigação que colocou em causa o papel do antigo arcebispo e depois Papa Bento XVI.

Sobre a firma de advogados, a Vida Nueva diz quem são os seus sócios principais: o fundador e presidente, Javier Cremades, é também o líder da Fundação Madrid Vivo, criada pelo ex-arcebispo de Madrid, cardeal Rouco Varela, em 2011, na sequência da Jornada Mundial da Juventude, com o objectivo “promover valores que estão na raiz” da cultura espanhola; e é ainda membro do conselho de curadores da Fundação Tajamar, uma obra corporativa da prelatura do Opus Dei.

Com 230 advogados, o escritório trabalhou, por exemplo, no caso do investidor Bernard Madoff, acusado de um dos maiores esquemas em pirâmide da história, e aconselhou a expropriação da Repsol pelo governo argentino, causa que ganhou.

Nascido em 1965, com nove filhos, Cremades fundou a empresa em 1994, com dois sócios, diz ainda a Vida Nueva. Santiago Calvo-Sotelo, que já trabalhou no Banco Español de Crédito, é um deles; o outro, José F. Estévez, tem uma vasta experiência no sector das telecomunicações e na defesa dos accionistas minoritários em casos como Siemens Gamesa, Banco Popular, Volkswagen Investors Claim, Bankia, Repsol YPF e AEMEC Initiatives. Em Dezembro, Juan Carlos Girauta, antigo porta-voz do partido Ciudadanos (centro-direita) no Congresso de Deputados espanhol, tornou-se um novo sócio da firma.

 

 

Strecht: verdade torna Igreja mais forte

 

Pedro Strecht revela que religiosos também já apresentaram testemunhos de abusos. Foto: Direitos reservados

 

O anúncio da decisão de avançar com a investigação surgiu no mesmo dia em que o director do Religión Digital, José Manuel Vidal publicara um editorial defendendo a mobilização dos católicos na exigência de um inquérito sobre os abusos e em que, no El País, o psiquiatra português Pedro Strecht falava do trabalho da comissão de estudo a que preside em Portugal.

Os católicos devem falar perante os bispos em toda e qualquer circunstância, defendia Vidal, inundando ao mesmo tempo de cartas, telefonemas e mensagens electrónicas a sede da CEE “para pedir aos bispos que os escutem, fazendo chegar idênticas mensagens a Roma.

Na entrevista ao El País, o responsável da comissão de estudo dos abusos na Igreja em Portugal conta que já apareceram testemunhos de religiosos que também foram abusados, o que considera “surpreendente”. Esses religiosos, diz, “têm uma identificação muito forte com as vítimas e reforçam a ideia de que não se pode dizer que não se passou nada”. Além disso, distinguem “entre uma parte daa Igreja que quer conhecer a verdade e a outra parte que deseja omiti-la e silenciá-la”.

Strecht acrescenta ainda que a Igreja “será muito mais forte se a verdade histórica for conhecida”. E sobre o argumento de que não vale a pena investigar por haver poucos casos, afirma: “Se há poucos casos, tanto melhor, porque não mostrá-lo? A questão é não ter medo. É bom para a Igreja compreender o que aconteceu no passado e prever o futuro. Também nos podemos perguntar o que é muito pouco ou muito pouco. Nestes casos, apenas a ponta do iceberg vem à luz. Seria muito importante reforçar a credibilidade e a posição da Igreja para ter uma atitude calma em relação ao conhecimento de um passado que é do interesse de todos esclarecer e, acima de tudo, impedir que este continue no futuro.”

 

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