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Joaquim Félix. Foto

Junto ao portão: Lázaro e cães?

| 29/09/2022

aproxima a dança / sombra aquém da sombra / − eleva-te, abismo!  Foto © Joaquim Félix]

 

 

  1. Entram as réstias do sol pelas janelas altas,
    talvez a esperançar quem, no coro desta igreja,
    se afasta da desejada proximidade por cinco dias de Covid-19.
    É a mão do seu adeus, quase horizontal. Que delicadeza solar!
    Varre os telhados à cidade poente para segredá-lo neste refúgio.
    Lentamente o crepúsculo dará a sombra que resta,
    na semelhança daquela outra sombra, como uma sonata em trio,
    que Rui Chafes, Paulo Nozolino e Pedro Costa
    ofereceram aos olhos deste verão, no Centro Pompidou, em Paris.
    Desde há dois dias, o equinócio de outono a todos reconduz
    a paisagens e a ritmos de transumância.
    Os alunos deslocam-se para as escolas,
    alguns à espera de professores, a escassear cada vez mais.
    Os ramos das árvores e as ervas inclinam-se
    de frutos e sementes maduras para manjares suculentos de aves.
    Das uvas colhidas fermenta o mosto. E o vinho já é doce!
    As folhas iniciam-se nos ritos das variações da cor e da queda.
    Há aves que partem, há aves que chegam:
    andorinhas e andorinhões negros dão lugar a felosas e chapins.

 

  1. Contemplar com atenção este animado trânsito devolve-nos
    não só a certas alegrias, mas também a questionamentos.
    Se as sementes se descolam na sua história secreta de aviação (cf. Manuel Zimbro),
    se os pássaros e os ganços em suas formações cruzam as fronteiras,
    porque se erguem tantas barreias às migrações humanas?
    Porque se fazem dos mares fossos e portões para territórios e mansões?

 

  1. Celebramos hoje o “Dia Mundial do Migrante e do Refugiado”.
    Alguém estima o número de migrantes e de refugiados no mundo?
    Segundo os dados da Organização das Nações Unidas,
    que emitiu, na quarta-feira passada, o relatório de 2022,
    atualmente, haverá no mundo cerca de 281 milhões de migrantes,
    ou seja, 3,6 % da população existente.
    É uma cifra que tem vindo a crescer,
    não obstante o impacto sobre as movimentações causado pela covid-19.
    Quanto a refugiados, o ACNUR, agência da ONU para eles,
    estima que, entre este ano e o próximo,
    o seu aumento se cifrará em 36%,
    de tal forma que, em 2023, mais de 2 milhões de pessoas
    precisarão de serem acolhidas noutros lugares.
    Para este aumento têm contribuído o impacto económico da pandemia
    e o aumento das guerras, como a da Rússia contra a Ucrânia.
    Só a ofensiva militar, dita ‘especial’ por Putin,
    causou a fuga de mais de 13 milhões de pessoas,
    dos quais 6 milhões para outras localidades ucranianas
    e 7,4 milhões para outros países europeus.
    Destes, Braga acolheu perto de duas centenas,
    conforme foi referido, no sábado passado,
    por ocasião de uma sessão de solidariedade
    para com a cidade ucraniana de Ivano-Frakivisk, com a qual está geminada.
    É a maior crise de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial.

 

  1. A denúncia que o profeta Amós faz,
    preanunciando a deportação dos Israelitas para a Babilónia,
    e a parábola de Jesus, dita aos fariseus e a cada um de nós,
    alertam-nos para as consequências da gritante injustiça social,
    que, outrora como em nossos dias, cava abismos na terra e nos céus.
    São ‘sem nome’, como os ricos apresentados pelos seus bens
    e estilos burgueses de vida atentatórios,
    aqueles que hoje assaltam os direitos, as casas e os territórios dos pobres.
    A desenfreada busca pelo lucro, segundo o regime do liberalismo económico,
    está a conduzir-nos à implosão social, a guerras, que poderão vir a ser justas,
    e a fazer com que os pobres saltem muros e mares, como aliás já o fazem.
    Será justo que os ricos se banqueteiem esplendidamente todos os dias
    e registem as suas exorbitantes riquezas, com códigos ‘anónimos’,
    em sociedades de paraísos fiscais?

 

  1. Amós e Jesus acabam por nos colocar a zumbir nos ouvidos
    situações socioeconómicas, que, em nossos dias,
    cada um de nós saberá atualizar
    com idêntico sentido de detalhe e de duro desconforto.
    Desreguladas, as leis de mercado estão a sufocar-nos.
    Os bens de primeira necessidade, como o pão e o leite e a água,
    e, bem assim, da energia, como o gás, a eletricidade e os combustíveis,
    podem escalar preços que deixarão muitos a tiritar de frio e de fome.
    A crescente inflação faz com que tantos percam capacidade de compra.
    Custa, não custa, saber que há empresas e ricos a aumentar os lucros
    sobretudo neste tempo de penúrias agravadas?
    Que medidas políticas têm sido tomadas,
    para evitar esta escandalosa injustiça?
    Não somos todos irmãos?
    Eis porque fazem sentido os apelos à radical fraternidade,
    laçados pelo Papa Francisco na Carta Encíclica Fratelli Tutti.
    Onde estão e como vivem os teus irmãos? – pergunta-nos Deus.

 

  1. Quem irá hoje, não amanhã, até junto do portão?
    Que ‘Lázaros’ famintos estarão lá? Que chagas são lambidas por cães?
    O ‘Lázaro deste Evangelho’ é mais pobre do que os cachorrinhos (cf. Mt 15,21-28),
    mencionados quando a mulher cananeia solicitou a Jesus que curasse a sua filha.
    Porque nem às migalhas da mesa do homem rico ele tem acesso.
    O portão está fechado. O coração do rico está cheio de vinho.
    Com a púrpura e o linho fino,
    assim se prepara para a morte, como um faraó a colocar no sarcófago.
    Meu irmão mais novo, que chegou em agosto de mais uma missão na “Frontex”
    (Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira),
    numa das ilhas da Grécia, a terceira missão dele nesta fronteira europeia,
    narrou-nos quanto este portão está repleto de tantos ‘Lázaros’.
    Que, diga-se, são na sua maioria refugiados e migrantes.
    Por vezes, só Deus o sabe, só Deus os ajuda.
    Lázaro significa isso mesmo: «Deus ajuda».
    Para Deus, os pobres contam.
    Mais, os pobres têm nome, recebido por divina atenção,
    nem que seja junto de um portão, do lado de fora…
    O salmista canta esta justiça divina aos oprimidos,
    esfomeados, cativos, cegos, abatidos… (cf. Sl,145, 7-10).

 

  1. A ausência de gestos fraternais dilata abismos nos céus.
    Imagino que nos tenham surpreendido certos detalhes narrados no Evangelho:
    a geografia do paraíso, com o «grande abismo» de separação,
    e o diálogo, de carinho familiar, entre o Pai Abraão e o rico.
    Como que a dizer-nos que, em última instância, nisto repousa a nossa fé,
    há um derradeiro reduto para a justiça reparadora,
    quando ela não for inteiramente colocada em prática na terra.
    Quem é que, hoje, por exemplo,
    poderá fazer justiça às crianças exploradas e vendidas,
    como, neste fim de semana de Programação, vimos no filme Cafarnaum,
    da cineasta libanesa Nadine Labaki,
    que denuncia os dramas das crianças e dos refugiados no Líbano?
    Quem poderá fazer ainda justiça a todos os ucranianos,
    vítimas da barbárie praticada pelos soldados russos,
    que têm sido exumados, apresentando sinais de tortura?

 

  1. O rico que não pedia muito – o refrescar da língua com um dedo molhado –
    lembrou-se de que tinha cinco irmãos.
    E fez um pedido mais exigente:
    enviar Lázaro à sua casa paterna, a fim de avisá-los do futuro.
    A sua preocupação não era ainda a de Zain Al Rafeea,
    que, além de cuidar dos seus muitos irmãos,
    ‘adotou’ o filho da refugiada etíope, sem visto para residir no Líbano.
    Zain não procede como o rico, que só pensou nos seus irmãos de sangue.
    Pois, a este, faltava-lhe, ainda, sentir o sangue dos ‘Lázaros da história’,
    segundo a fraternidade universal, a fraternidade radical.

 

  1. Senhor Jesus, ressuscitado de entre os mortos,
    enviado pelo Pai, nesta tarde misturada de sol e súplicas:
    o nosso arrependimento é para Ti e para Lázaro.
    Que os portais da indiferença cedam à fome e às feridas dos irmãos.
    Que tua Palavra derrube as paredes dos ouvidos e aplane os fossos.
    Seja o nosso «bom combate da fé» (1 Tim 6,12, et cf. vv. ss)
    praticar a justiça, a piedade, a perseverança e a mansidão.
    Sem mancha, em todo o cuidado pela fraternidade visceral,
    a nossa língua será humidificada no teu Cálice
    e a nossa fome será libertada no mesmo Pão.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia; este texto corresponde à homilia na liturgia católica do passado domingo, em que se assinalava o Dia Mundial do Migrante e Refugiado.

 

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