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A Baleia, Filme

Cinema

“A Baleia”: o peso, a culpa e a possibilidade de redenção

A Baleia, Filme

“É também um filme sobre o amor como possibilidade de redenção. E de condenação. O amor que nem sempre salva, mas que pode salvar.” Foto: Brendan Fraser no filme “A Baleia”.

 

A Baleia não é um filme sobre obesidade mórbida. É um filme sobre o peso e como ele pode ser mortal. O peso da culpa, o peso dos erros, o peso da consciência. É também um filme sobre a expiação da culpa, sobre a tentativa e a possibilidade de redenção.

É também sobre a verdade, melhor, sobre a honestidade da arte, da escrita (neste caso) que não serve se não vier do que há de mais profundo em nós. Só se pode fingir a dor verdadeira, e isto já foi dito de outra maneira. Este filme não diz isto. Não há espaço para fingimento aqui. Só para disfarçar a dor com camadas de coisas que não alimentam. Mas engordam e entopem. O corpo, as artérias, as páginas de livros, os ecrãs.

Se quisermos, é também um filme sobre o amor como possibilidade de redenção. E de condenação. O amor que nem sempre salva, mas que pode salvar. O amor incondicional, cego, que só vê beleza e perfeição, o amor do tempo longo, o amor que passa de intempestivo a consequente.

A Baleia é boa para a Quaresma. Implica-se no ato penitencial com Ondas de Paixão ou Dogville. Com este partilha também a singularidade cénica, de espaço único e a visualidade teatral. A luz, ou falta dela, o grão. Em Dogville, mais o teatro. Em A Baleia, mais a pintura. No formato retrato.

A descrição da baleia de Moby Dick – cujo resumo vai pontuando o filme – tem correspondência visual no enorme Brendan Fraser. Ele é a baleia, no óbvio. O que vemos, no entanto, é só para disfarçar. Como Melville fez com as longas descrições da baleia branca. Mas ele é Ahab, na luta contra a baleia, na luta contra o peso. O último combate é mortal, mas quem morre é também quem vence.

 

A Baleia

Título Original: The Whale
Realização: Darren Aronofsky
Elenco: Sadie Sink, Samantha Morton, Ty Simpkins, Brendan Fraser, Hong Chau
2023, EUA, Drama
117 min.; M/16

 

Clara Almeida Santos é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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