
Cartaz divulgação Festival da Juventude. Foto © JMJ Lisboa 2023
Em contagem decrescente para a tão aguardada chegada do Papa Francisco a Portugal, acompanhado de peregrinos de todo o mundo, tenho a admitir que me parece ainda um pouco irreal que seja desta vez Lisboa o palco das Jornadas.
Talvez a génese deste sentimento venha dos tempos difíceis que temos vivido enquanto Igreja, quer a nível interno, quer a nível externo.
Se antes pudesse ser apenas uma visão pessimista ou uma perspetiva individual de “copo meio vazio”, a verdade é que o resultado de várias reflexões a nível nacional, fruto de uma proposta de sinodalidade do Papa Francisco, veio confirmar aquilo que, a nível pessoal, andava já a sentir: que a Igreja, outrora lugar de comunhão e fraternidade, vinha ultimamente a dissociar-se, aos poucos, desta realidade. Não descorando os vários aspetos positivos que a vivência católica tem vindo a proporcionar a muitos ao longo dos anos – é sabido que a ação social da Igreja, por sua vez, continua a ser exemplar e um verdadeiro porto seguro para centenas de pessoas. No entanto, a verdade é que o ambiente de acolhimento e amor que reside nas bases daquilo em que acreditamos parece ter vindo a desvanecer-se aos poucos durante os anos, numa estrutura muitas vezes hierarquizada e pouco aberta.
Internamente, creio que se tem tornado tendência olhar mais para o que nos separa do que para o que nos une. A preocupação crescente com a forma, ao invés de com o conteúdo; com a maneira de pôr a Fé em prática mais do que com a Fé em si, tem acentuado fossos dentro da Igreja, fossos estes que são claramente visíveis a quem está de fora, e que apenas contribuem para que a Igreja se feche em si, em vez de se apresentar de braços abertos. Adicionando a este clima de tensão as recentes descobertas relativas à questão dos abusos de menores, a interação da Igreja com o resto do mundo tem também sido traduzida numa relação mais pintada por conflito do que por confraternização e diálogo.
Desta maneira, creio que nos últimos meses tenho lidado com um sentimento agridoce em relação à vinda das Jornadas a Portugal. Qual o sentido desta semana, agora? Porquê estar em festa, quando esta parece ter sido a última palavra caracterizante da Igreja nos últimos tempos?
No entanto, à medida que fui refletindo mais e mais, a urgência deste encontro foi ficando cada vez mais clara para mim.
Acho que as Jornadas vêm a Portugal como uma lufada de ar fresco, como uma onda de Esperança. Esperança esta de que, apesar de conflitos externos e internos, a Igreja continua a ser composta por milhares e milhares de jovens cheios de vontade de mudança e com um elo de ligação muito forte: a Fé. Esperança de que esta permanece entre nós, ainda que magoada, ainda que possivelmente escondida. Agora, mais que nunca, precisamos destas Jornadas, desta certeza de que o que sempre nos uniu ainda continua de pé. E haverá melhor maneira de o comprovar do que enchendo as ruas de Lisboa com fiéis, e não só, de todo o mundo?
Mais do que um ponto de encontro estático, as Jornadas chegam até nós como um convite ativo, que nos chama a refletir, todos juntos, acerca do que é de facto ser Igreja, do que é ser Igreja nos dias de hoje, e do que será ser Igreja nos dias de amanhã. Para além dos Eventos Centrais, nos quais o foco estará essencialmente nas celebrações religiosas, toda a cidade de Lisboa será – aliás, já o está a ser – transformada num autêntico palco. Palco este que albergará desde as mais variadas celebrações culturais e artísticas até profundas e necessárias conversas acerca dos mais variados temas, religiosos ou não. Numa nota à parte, fica também aqui o convite aberto a crentes e não crentes, para que analisem o programa do Festival da Juventude (iniciativa que irá incorporar todos estes eventos), que promete não deixar ninguém indiferente e ser um verdadeiro encontro de culturas.
Trazendo de volta o tema dos abusos – uma inevitável força desagregadora para muitos relativamente às Jornadas – não creio que a ideia seja a de que este evento prossiga como se nada se tivesse passado – aliás, se assim o fosse, o Papa não teria no seu programa um encontro privado com algumas das vítimas dos abusos sexuais. Pelo contrário: parece-me ser a altura ideal para aproveitar este encontro como um ponto de reflexão, com um chamamento especial aos jovens, para que juntos possamos refletir e rezar o rumo da Igreja, em especial relativo a esta cruz que carregamos também enquanto nossa.
«Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39). Foi esta a citação bíblica escolhida – a dedo, atrevo-me a dizer – pelo Papa Francisco como lema destas Jornadas. Há de facto, como diz o Hino do evento, uma quase palpável pressa no ar, pelo menos naquele que circula em Lisboa neste momento. Pressa para que cheguem os peregrinos que vamos receber; pressa para que o Papa Francisco visite mais uma vez o nosso país; pressa para que alegria e fraternidade encham as ruas da cidade; pressa para que a Igreja, como sempre a conhecemos, nos mostre aquilo de que é feita: de pessoas diferentes entre si, mas unidas na Fé.
Francisca Reis Pereira é estudante de Mestrado em Gestão na Nova SBE (Universidade Nova de Lisboa) e é agora responsável por uma equipa de voluntários nas JMJ 2023.










