
“Se prosseguimos calados, contribuímos para continuar a ferir as vítimas na sua dor e solidão. Mesmo de forma egoísta, deveríamos começar a perguntar, a falar, a averiguar porque, face ao que vimos e ao que resta ver, ninguém está livre de ser vítima de qualquer tipo de abuso na Igreja.” Ilustração © Catarina Soares Barbosa
Acabámos de assistir em directo ao espectáculo nauseabundo de ver como se revitimizam as vítimas, todas as vítimas de abusos na Igreja. Ser vítima na Igreja é já por si um drama que acarreta consequências para toda a vida e que, pelo que vemos, parece que não importa quase a ninguém.
O comunicado de imprensa, como o emitido pelo Vicariato de Roma, é uma autêntica filigrana para dizer algo que evidencie a posição de quem o emite e que, na sua “perfeita?” redação, faz com que as margens do texto fiquem pejadas de pessoas já muito feridas, que continuam a ser insultadas com desprezo, com indiferença e, sobretudo, com a dúvida permanente sobre aquilo que denunciam desde a mais absoluta invisibilidade.
Comunidade saudável?
Marko Rupnik, expulso da Companhia de Jesus, o agressor e abusador que, não esqueçamos, um ano depois de ser ordenado pediu para ser capelão da comunidade de freiras a quem depois sujeitou a todo o tipo de abusos e que não foram as únicas, criou o chamado Centro Aletti que geria a sua obra e negócio – que era tudo o mesmo – junto a uma pequena comunidade que, segundo a inspeção e segundo o comunicado de imprensa do Vicariato, mostra que “há uma vida comunitária saudável sem problemas críticos específicos.”
Seria desejável que no mesmo comunicado se explicasse o que se entende por “vida comunitária saudável”, conhecendo, como já se conhece, a capacidade de manipulação de Rupnik. Porque não estamos a falar de alguém que se move por um impulso sexual incontrolável, estamos a falar de alguém que manipula, distorce a vontade e a consciência de suas vítimas e delineia cada um de seus atos de abuso milimetricamente.
Livres do influxo
Pergunto-me até que ponto podemos pensar que as pessoas dessa comunidade não estão manipuladas, ou pelo menos subjugadas, pela personalidade camaleónica de Rupnik, a quem puderam endeusar e submeter-se a ele, sem terem consciência de que foram e estão a ser dirigidos por ele? A inspeção teve isso em conta? Mais ainda, atrevo-me a perguntar: até que ponto aqueles que levaram a cabo a inspecção estavam livres do influxo de Rupnik? Não é um exagero. A capacidade de manipulação dos agressores e abusadores é imensa. São mestres nisso.
Muitas dúvidas foram levantadas com esta inspeção e por este comunicado de imprensa com a transparência tantas vezes alardeada pela Igreja porque, para além de ocultar e ignorar as vítimas, para além de varrer para debaixo do tapete as acções delituosas – estamos perante delitos, não o esqueçamos – de Rupnik, para além da forma em como deixa a Companhia de Jesus – que lhe custou, mas fez o que tinha que fazer -, para além de tudo isto, parece que a palavra de um cardeal com pensamento e atitudes de um príncipe rançoso da Igreja do Renascimento, tem o poder suficiente para mudar a realidade, modificar os factos, reescrever a história e continuar a abusar do seu poder abandonando e insultando as vítimas com o seu desprezo. O maldito poder na Igreja! Quem controla o poder desse cardeal?
Um predador
Rupnik é um abusador de consciências, um predador, um agressor sexual e, agora, por obra e graça de um cardeal com nome angélico, transformou-se em protegido. Rupnik pode fazer o que quiser em Roma, está impune. Que vítima se atreverá a abrir a boca contra ele? Ele é o protegido, o pupilo, o predileto, o mimado, o valido de um cardeal.
Tenho vindo a dizer, desde há muito tempo, que o que nos vai arrasar não será o secularismo, nem a indiferença religiosa, nem os ataques externos. Aquilo que nos vai arrasar é a má gestão da realidade de todo o tipo de abusos na Igreja; o que nos vai arrasar é a falta de credibilidade que demonstramos reiteradamente face a esta realidade dos abusos; o que nos vai arrasar é a falta de testemunho que damos em favor das vítimas; o que nos vai arrasar é a ambiguidade do direito canónico em relação a estas vítimas; o nos vai arrasar é o mutismo que nos torna cúmplices; o nos vai arrasar é o silêncio de alguns pastores que bramam sobre outras questões, mas que fazem comentários sobre estes factos que nos ocupam – se é que os fazem – em voz baixa, e sacudindo a água do capote.
Altíssimas expressões teológicas
Já não estamos para tibiezas, mais ainda, acho que chegamos tarde. No entanto, não é para desistir. Temos que perder o medo de refletir em voz alta, de fazer perguntas em voz alta que reflitam o estupor em que nos encontramos perante situações como a atual, porque isso, embora alguns digam que não, também é comunhão.
Porque ficamos com água na boca quando falamos de comunhão com altíssimas expressões teológicas, mas a comunhão de cada dia, a que mostra ao mundo que somos membros do Corpo Místico de Cristo, essa, deixamo-la de lado como se não existisse e, os membros mais feridos desse Corpo, que, não esqueçamos, foi a vítima por excelência, ficam abandonados à sua sorte. Outro comentário seria analisar a razão pela qual nas esferas eclesiásticas, se confunde com tanta facilidade o corporativismo com a comunhão. Não tem nada que se pareça.
Se prosseguimos calados, contribuímos para continuar a ferir as vítimas na sua dor e solidão. Mesmo de forma egoísta, deveríamos começar a perguntar, a falar, a averiguar porque, face ao que vimos e ao que resta ver, ninguém está livre de ser vítima de qualquer tipo de abuso na Igreja. Mais ainda, de alguma forma com este penúltimo escândalo – porque o último está sempre por vir – todos nós já nos tornámos vítimas porque, caso houvesse alguma dúvida e a partir deste momento, de que serve denunciar na Igreja se qualquer abusador e agressor se pode tornar no protegido, o pupilo, o predileto, o mimado, o valido de um cardeal?
Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo da Igreja Católica. Tradução de Júlio Martin.










