
Grafiti na Faixa de Gaza: para o Vaticano, a solução passa pelos dois estados. Foto © Newtown grafitti_Wikimedia Commons
“No clima de dor, angústia, raiva, vingança e histeria de propaganda, que invadiu o cenário do Médio Oriente após o ataque do Hamas a Israel e o massacre no kibutz de Kvar Aza, a Santa Sé e o mundo católico permanecem um espaço de racionalidade e de atitude construtiva no cenário global”.
A análise pertence ao vaticanista Marco Politi, numa coluna publicada este sábado, 14, no site do jornal Il Fatto Quotidiano.
O jornalista e escritor (autor, por exemplo, de Francisco Entre os Lobos – O Segredo de uma Revolução, publicado em Portugal), é um observador e analista dos assuntos da Santa Sé desde há mais de 50 anos, tendo trabalhado nomeadamente nos jornais La Repubblica e Il Messaggero.
Politi lamenta que a clareza de análise se possa encontrar no âmbito da Igreja Católica e não, por exemplo “na sede da Comissão Europeia”. Cita o cardeal Pietro Parolin, que reitera a condenação mais firme e total pelos acontecimentos brutais do passado dia 7, mas também convida “a recuperar o sentido da razão… a abandonar a lógica cega do ódio… a rejeitar a violência como solução”.
O secretário de Estado do Vaticano deixa sobre a mesa uma pergunta que aparece, para Politi, “removida” dos discursos de Biden, von der Leyen e da primeira-ministra Meloni: “Parece-me que a maior justiça possível na Terra Santa é a solução de dois estados, o que permitiria aos palestinianos e israelitas viverem lado a lado, em paz e segurança, indo ao encontro das aspirações da maioria deles.”
Pronunciando-se sobre o que se está a passar nos últimos dias, no que respeita à reação das autoridades israelitas, e em particular o corte total de água, eletricidade, combustível e alimentos, Politi considera tais medidas um crime à luz do direito internacional. Essa resposta, nota o colunista, “não diminui em nada os crimes cometidos em conexão com o ataque ao Hamas em 7 de outubro. Mas não pode ser apagado como se fosse um detalhe insignificante.”
“As crianças queimadas pelas bombas lançadas sobre Gaza pela força aérea israelita não sofrem menos do que as crianças massacradas em Israel por militantes do Hamas”, acrescenta, citando ainda a ex-deputada e ministra católica italiana Rosy Bindi , ao afirmar que “um estado democrático (…) não pode usar os mesmos meios que os terroristas usam”.
Para este comentador, ninguém tem o direito de negar aos palestinianos o seu “Estado da Palestina” ao qual “eles têm pleno direito, de acordo com as leis e acordos internacionais, assinados com a assistência do Ocidente há algumas décadas”. Esses acordos (de Oslo, em 1993), que deveriam ter levado ao nascimento do estado palestiniano, foram “sabotados com a expansão constante dos assentamentos de colonatos israelitas na Cisjordânia”, “em flagrante violação do direito internacional”.
No jornal da Conferência Episcopal Italiana, Avvenire, que Politi cita, o historiador Agostino Giovagnoli sugere que se destrua o véu “da hipocrisia”. Chegou, do seu ponto de vista, a hora de a Europa e os Estados Unidos se comprometerem não com um simples cessar-fogo, mas com a construção de uma arquitetura de paz, envolvendo “todos os atores que contam no Médio Oriente e no mundo para garantir conjuntamente a segurança de Israel e as razões não do Hamas, mas dos palestinianos”.









