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Fr. Augusto José Matias (30/03/1947–17/02/2024

A liberdade de vida e de espírito de frei Matias

Frei Augusto José Matias, OP, morreu sábado aos 76 anos. Foto © Direitos reservados.

 

Frei Augusto José Matias morreu neste sábado, 17, no Hospital de Leiria, onde se encontrava internado desde final de dezembro. O funeral realiza-se neste domingo, 18 de fevereiro, a partir das 15h30, na Capela do Convento dos Padres Dominicanos, seguindo para o Cemitério de Fátima.

 

O frei Augusto José Matias nasceu na freguesia de Franco, concelho de Mirandela a 30 de Março de 1947, frequentou a Escola Apostólica de Aldeia Nova, da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) e professou a 4 de Agosto de 1965. Foi ordenado diácono em Maio de 1981, mas não conseguimos averiguar a data de ordenação diaconal pois apenas se conserva a carta testemunhal datada de 2 de Maio de 1981.

Habituado a documentos vou, no entanto, dar mais um testemunho pessoal de alguém com quem partilhei, por várias vezes, a vida fraterna, quer na comunidade João XXIII, quer na casa do Corpo Santo (pelo período de 14 anos) quer em Fátima desde 2020.

Gostaria de sublinhar, ainda que brevemente, alguns traços da sua personalidade. Começo pelo seu nome de religioso. Tendo entrado na Ordem num momento em que os religiosos mudavam de nome, o Matias pediu para tomar o nome de fr. Júlio o que admirou o seu padre mestre, fr. Miguel Martins dos Santos, porque este nome recordava o nome do Papa Júlio II (1503-1513), um Papa da Renascença que nunca seria apontado como exemplo. Claro que o Matias não conhecia, ainda, esse Papa, pediu o nome como agradecimento a um familiar seu, mas tal facto não deixa de ser premonitório. Não teremos nunca no fr. Matias a imagem de um religioso tradicional: este nosso irmão era um homem livre na sua maneira de viver a sua vida de dominicano. Admiro, profundamente, a sua relação livre com o mundo, a Ordem e a Igreja e o seu percurso foi marcado por essa liberdade de vida e de espírito que o tornavam uma personalidade única.

O fr. Matias era, por outro lado, um homem marcado pelos projetos sociais. Explicando o seu trabalho ao provincial de então, fr. Mateus Cardoso Peres diz, numa carta datada de 20 de Maio de 1986: “Há uns meses que sou animador cultural num bairro degradado (barracas) integrado num projeto da UNESCO. Trata-se de um projeto de desenvolvimento integrado, neste momento para dois bairros: Curraleira (Lisboa), Estrada de Benfica (Amadora). Este projeto, como ele explica nessa mesma carta, é um projeto global de “educação social, alfabetização, questões de higiene ambiental, planeamento familiar, além de outros apoios mais de circunstância”. Nesse momento ele fazia parte de uma comunidade, situada no Barreiro, com serviço pastoral na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dessa cidade. Gostava de sublinhar que os projetos sociais estavam do outro lado do Tejo, o que exigia uma vida bastante dura, marcada por viagens cansativas. Com uma grande preocupação com a subsistência da comunidade, o fr. Matias trabalhava numa tipografia. Além da preocupação pelo bem da comunidade ele achava que tal trabalho se enquadrava nas nossas “preocupações dominicanas”.

Frei Matias, OP. Foto © DR

Frei Matias, OP. Foto © Direitos reservados

Um outro aspeto que gostaria de sublinhar é a marca da reflexão teológica. Numa carta (que teremos de situar antes de 1977) ao fr. Miguel dos Santos, provincial na altura, o fr. Matias tem o projeto de um pequeno jornal que descreve deste modo: “Pretende dar notícia da Igreja portuguesa, textos de reflexão aproximada desses acontecimentos e tratar problemas mais importantes entre a Igreja e a política. Ainda fazer textos simples sobre o Evangelho, teologia simples e popular”. Viria a ser o jornal Libertar. Muitos de nós recordamos a sua total dedicação ao Curso do Verão do ISTA (Instituto São Tomás de Aquino), que será uma nota da busca de uma teologia ligada à vida e que reflete sobre a vida das pessoas. Em partilha fraterna, muitas vezes falámos de dar uma estrutura teológica de reflexão à vida e à história de cada tempo.

Uma última partilha: o último documento que vimos dele é uma carta de 27 de Fevereiro de 2013. Nesta carta pede dispensa de participação no Capítulo Geral. Diz com um tom algo negativo: “A minha participação em assembleias de menor dimensão, por razão de cargos que tenho exercido, revelou-se inútil, estéril e vazia.” Conhecendo bem este irmão sei que não escreve isto como artificio literário. O fr. Matias vivia as coisas assim, sentia isto e, ainda que sem razão, não cultivava o seu ego. Se algo podemos apontar de menos bom é que sempre se considerou pouca coisa, com alguma falta de autoestima. Via bem as coisas para fora, mas não tinha o mesmo olhar positivo para si próprio. Cabe-nos a nós fazer a memória de quanto foi bela a sua presença entre nós.

 

Rui Carlos Antunes e Almeida Lopes, OP, é frade dominicano

 

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