
Futuro Centro Cultural Daniel Faria, Baltar Foto © Manuel Pinto
Largas dezenas de antigos alunos, professores e funcionárias do antigo Seminário Padre Mateo (SPM), de Baltar, no município de Paredes, encontraram-se pela primeira vez no último fim de semana, meio século depois de a instituição ter sido encerrada. Para além do encontro propriamente dito, a iniciativa esteve focada no resgate da memória de um projeto que foi, a vários títulos, inovador no seu tempo.
Deste primeiro encontro, saiu a disponibilidade dos ex-alunos, agora sexagenários ou mesmo septuagenários, de reunirem documentos e materiais sobre o SPM, e de elaborarem um livro-contributo para a história da instituição que frequentaram, em grande medida ignorada pelas gerações mais recentes.
Como se dá a coincidência de a Câmara Municipal de Paredes estar a promover, neste momento, o restauro do palacete em que funcionou aquele Seminário, com vista a instalar ali um Centro Cultural dedicado ao poeta baltarense Daniel Faria, vai ser estudada uma forma concreta de incluir aí a evocação do Seminário. O presidente da edilidade, Alexandre Almeida, que participou no jantar do encontro, juntamente com o presidente da Assembleia Municipal e o presidente da Junta de Freguesia de Baltar, assumiu o compromisso de concretizar esse objetivo, incluindo o apoio à edição do livro sobre a história do estabelecimento.
Depois de o Seminário ter fechado portas, em 1974 (a decisão tinha sido assumida no início dessa década), as instalações serviram para ali instalar a Escola EB2,3 de Baltar, que foi frequentada por Daniel Faria. De resto, a mãe e uma tia do poeta foram também funcionárias do Seminário Padre Mateo.
O encontro do último fim de semana constituiu, no dizer de muitos dos participantes, uma “experiência forte de fraternidade” por parte de quem viveu um tempo significativo da adolescência em conjunto e se reencontrou tantos anos depois, a maioria já na condição de reformados e aposentados.
A visita às instalações em que estiveram alojados a estudar, se revelou um lado de destruição – do velho edifício só restavam as paredes principais, incluindo a fachada, rodeadas de barrotes e traves de madeira velha – significou, em contrapartida, que, do caos, vai nascer uma instituição nova que homenageia um poeta local com projeção nacional e internacional, e que incorpora também a memória recente de outras facetas do edifício.

“A visita às instalações em que estiveram alojados a estudar, se revelou um lado de destruição, significou, em contrapartida, que, do caos, vai nascer uma instituição nova que homenageia um poeta local com projeção nacional e internacional, e que incorpora também a memória recente de outras facetas do edifício. Foto: Seminário Padre Mateo, Baltar, futuro Centro Cultural Daniel Faria) © Agostinho Barreira
O Seminário Padre Mateo, da Congregação dos Sagrados Corações, foi dirigido por padres holandeses, alguns dos quais foram perseguidos e até expulsos pela PIDE-DGS. De hábito branco, caraterístico daquela ordem religiosa, iam pelas aldeias recrutar candidatos. Mais de um terço provinham do município de Paredes e arredores, mas idêntica percentagem era oriunda dos distritos de Bragança e Vila Real. Os restantes vinham da Beira Alta e da Zona de Lisboa, onde a Congregação teve significativa presença.
Os padres apostaram acima de tudo na formação humana e cívica dos alunos. Não escondiam a sua preferência por pessoas bem formadas, mesmo que não viessem a ser padres, do que padres com formação deficiente. De facto, padres o SPM apenas deu um, que saiu do país e viria a ser ordenado na Congregação, em França, trabalhando, ainda hoje, como assistente da Ação Católica Operária. Esteve no encontro em Baltar e presidiu a uma celebração da eucaristia, no último domingo, na capela românica da Quintã, que se encontrava, nos anos 60 e 70, no perímetro dos terrenos do Seminário Padre Mateo (está hoje incluída na Rota do Românico). Um aspeto que sempre preocupou os responsáveis pela instituição foi que todos os alunos fizessem os seus exames de fim de ciclo no ensino público, para estarem mais guarnecidos para a vida futura, em caso de deixarem o Seminário.
A preocupação com a relação com a comunidade local sempre esteve presente e com o envolvimento ativo dos seminaristas. Desde logo no desporto (jogos contra equipas locais ou seminaristas integrados nessas equipas, mas também, por algum tempo, a inscrição da seleção do SPM num campeonato distrital). Por outro lado, foram organizadas campanhas de recolha de papel velho junto de casas comerciais entre Penafiel e Valongo e de restos de napa das fábricas de móveis concelhias; o primeiro era separado, empacotado e vendido; a napa era trabalhada por mulheres da freguesia que confecionavam porta-lápis, almofadas e sacos. Das vendas desses “restos”, conseguiu-se pagar a uma educadora e pôr em funcionamento a primeira creche de Baltar. Os exemplos poderiam multiplicar-se.
Não é, assim, de estranhar que, de um modo geral, mesmo entre aqueles que saíram por decisão dos padres, o sentimento geral seja de um “profundo reconhecimento” pela formação recebida, em especial por parte daqueles – que não eram poucos – que, não fosse o seminário, não teriam estudado.
Declaração de interesse – O autor deste texto frequentou o Seminário Padre Mateo









