
A Equipa Olímpica de Refugiados deste ano é a maior de sempre na história dos Jogos Olímpicos. Foto © COI
São oriundos de 11 países diferentes, e representam mais de 117 milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo, mas em Paris competem por estes dias sob uma mesma bandeira. Os 37 atletas que compõem a Equipa Olímpica de Refugiados, a maior de sempre na história dos Jogos Olímpicos, estão a realizar os sonhos que tantos, inclusive eles próprios, chegaram a considerar inalcançáveis.
“Qualquer atleta que pratique desporto de competição quer participar nos Jogos Olímpicos um dia, e eu só quero aproveitar… Quero aproveitar cada segundo, porque depois da minha situação, da minha jornada, de tudo o que sofri na vida… Já sou um vencedor agora”, afirma Adnan Khankan, judoca sírio de 30 anos que integra o grupo dos 37.
Quando se refere à sua jornada, Khankan pensa sobretudo no facto de ter sido forçado a fugir da sua terra natal devastada pela guerra, Damasco, deixando para trás casa, família, amigos, e o desporto que amava e praticava desde os dez anos. Em declarações ao sítio oficial dos Jogos Olímpicos, explica que resistiu o quanto pôde a tomar a decisão de partir rumo à Europa. E em 2016, quando chegou à Alemanha, depois de uma viagem dura, sentiu-se perdido. “Lembro-me de dizer: ‘OK, a minha jornada acabou. Estou num lugar seguro. Mas o que é que eu estou a fazer aqui agora?’ Isso foi ainda pior que a jornada”, reconhece.

O judoca Adnan Khankan fugiu de Damasco (Síria), em 2016. Foto © COI
Inesperadamente, foram as Olimpíadas que o ajudaram a encontrar a resposta. Adnan procurou um local onde continuar a praticar judo e chegou ao centro desportivo onde treinavam alguns atletas da Equipa Olímpica de Refugiados de então. Foi de lá que viu na televisão a cerimónia de abertura dos Jogos do Rio de Janeiro 2016. “Eu chorei – pode perguntar à minha esposa – eu chorei sem parar porque, se não fosse aquela situação [a guerra que o forçou a fugir], eu provavelmente teria tido a oportunidade de estar no Rio”. A partir daquele momento, o seu caminho ficou claro. Treinou muito, conseguiu uma bolsa de estudos para atletas refugiados do Comité Olímpico Internacional (COI) em 2022 e foi selecionado para a Equipa Olímpica de Refugiados de Paris 2024.
A sua paixão pelo judo é partilhada por Mahboubeh Barbari Zharfi, uma iraniana que também pediu asilo na Alemanha em 2018, conseguiu uma bolsa do COI em 2023 e garantiu o lugar na equipa de refugiados já em maio deste ano. Zharfi veio para a Europa com a sua filha de nove anos e quer “provar uma coisa: mesmo quando se é uma mãe solteira e uma refugiada, é possível atingirmos os nossos objetivos e os nossos sonhos”. Ela que foi incentivada pela mãe a praticar desporto quando era adolescente, diz que agora tem como grande objetivo inspirar a própria filha.

A judoca Mahboubeh Barbari Zharfi pediu asilo na Alemanha, para si e para a filha de nove anos. Foto © IJF
Mas nem todos aqueles que por estes dias envergam a bandeira branca com um coração vermelho conseguem abrir o seu próprio coração e contar a história que os trouxe até Paris.
“Isso pode reabrir feridas, e alguns atletas estão a ter dificuldades em recuperar”, justifica a ex-cliclista e atleta olímpica afegã Masomah Ali Zada, chefe de missão da equipa de refugiados, em declarações à RFI. “As pessoas perguntam muito sobre as suas vidas, frequentemente muito mais do que sobre os seus resultados desportivos. Faz sentido de certa forma, mas para muitos deles é doloroso”. Seja como for, “o que todos têm em comum é a resiliência”, sublinha. “Eles nunca desistiram, apesar das dificuldades.”

A afegã Masomah Ali Zada, ex-cliclista e atleta olímpica, é a chefe de missão da equipa de refugiados este ano. Foto © COI
E o que dizer sobre os oito atletas refugiados com deficiência que compõem a equipa de refugiados que participará nos Jogos Paralímpicos? Para Andrew Parsons, presidente do Comité Paralímpico Internacional, embora “todos os atletas paralímpicos demonstrem uma resiliência incrível, as histórias de refugiados que sobreviveram à guerra e à perseguição são extraordinárias”.
É o caso da de Ibrahim Al Hussein, sírio, que participará pela terceira vez dos Jogos Paralímpicos na seleção de refugiados, tendo passado da natação para o triatlo. O seu testemunho pode ser lido no livro Jogos de Paz, a alma das olimpíadas e das paralimpíadas, publicado por iniciativa da Athletica Vaticana – associação desportiva da Santa Sé, e que conta com um prefácio escrito pelo Papa Francisco [ver 7MARGENS].
Ibrahim Al Hussein recorda: “em 2012, eu corria em direção a um futuro melhor – nasci em 1988 em Deir el-Zor, na Síria – quando um amigo foi atingido por um atirador. Ele estava no chão e a gritar. Eu sabia que se fosse em seu auxílio também poderia ser atingido. Mas nunca me teria perdoado por deixá-lo no chão. Alguns segundos depois, uma bomba explodiu perto de mim. Perdi a parte inferior da perna direita e a esquerda também foi afetada”.

O atleta sírio Ibrahim Al Hussein estará pela terceira vez nos Jogos Paralímpicos. Foto © Milos Bicanski, via ACNUR
Ibrahim era um excelente nadador, mas com a amputação de uma perna, a sua paixão pelo desporto parecia condenada. “Consegui chegar a Istambul e lá conheci pessoas generosas que me deram uma prótese que não era muito funcional, mas era melhor que nada: tinha que repará-la a cada 300 metros. Então, na noite de 27 de fevereiro de 2014 — foi o dia em que a minha ‘segunda vida’ começou — atravessei o Mar Egeu num bote de borracha até à Ilha de Samos, na Grécia”, continua. Pessoas generosas ofereceram-lhe trabalho e uma prótese de verdade. E Ibrahim voltou a nadar para recuperar a vida, acabando por se classificar para os Jogos Paralímpicos de 2016.
Como escreve o Papa no prefácio do livro, estes “não são ‘apenas’ desportistas. São mulheres e homens de paz, protagonistas de uma esperança tenaz e da capacidade de se levantar depois de um momento difícil”. Vencedores, portanto. Aconteça o que acontecer em Paris.








