Para celebrar o Dia Mundial do Refugiado, no próximo sábado, 20, a Associação Meeru-Abrir Caminho, que trabalha para humanizar o acolhimento de pessoas migrantes e refugiadas, convida a uma experiência única na cidade do Porto: a leitura colectiva do livro construído com a voz de Ibrahima Balde, refugiado africano, e a escrita de Amets Arzallus Antia, voluntário basco.
Não sabemos se a ideia já teve lugar em qualquer outra parte do mundo, onde vagueiam, segundo a ONU, mais de 100 milhões de refugiados… Mas no dia em que a ONU convida a «homenagear a coragem e a resiliência» daquelas pessoas, a Meeru-Abrir Caminho propõe-nos uma maratona de leitura colectiva do livro testemunho de quem, depois de uma peregrinação indómita em busca do seu irmão mais novo, que tinha saído da sua Guiné-Conacri, conseguiu encontrar um “abrigo” em Irún, no País Basco.
Ao longo do próximo dia 20, sábado, numa “peregrinação” por três espaços da cidade do Porto (lugares e horários no final), será proposto «um exercício de escuta, para que o livro volte à sua fonte original: a oralidade», refere Isabel Martins da Silva, vice-presidente da Meeru-Abrir Caminho, recordando que «o livro nasceu de um gesto de alguém a contar-se e de alguém a escutar». Dez meses foi o tempo de gestação daquele livro.
Ibrahima Balde chegara a Irún numa manhã de Outubro de 2018, enquanto Amets Arzallus Antia, com outros elementos de uma rede informal de apoio a migrantes preparava, numa rua, um espaço de acolhimento: um cartaz de boas-vindas… E Miñán – Irmãozinho foi sendo construído, durante o processo de solicitação de asilo de Ibrahima que, no silêncio de muitas noites, desfiou mais de dois anos da sua errância por prisões dos senhores da guerra do Mali passando florestas, cidades e areias do deserto da África Setentrional, onde chegou a ser vendido como escravo, até à sua aventura de embarcar num pequeno barco de borracha, na Líbia.
Do escutar atento de Amets foi surgindo a escrita da ferida de Ibrahima, «sem rasgar o pudor e a intimidade de quem dela padece», como anota no epílogo do livro, cuja edição portuguesa foi uma iniciativa conjunta da Meeru-Abrir Caminho e da Livraria Flâneur, e na qual se inicia a maratona de leitura. [ver 7MARGENS]
«Até que todos estejam em segurança» é a mensagem da ONU para a celebração deste Dia Mundial do Refugiado. Recordando que, no ano passado, apesar de ter sido possível à sua agência para os refugiados (ACNUR) fazer regressar às suas regiões de origem mais de 14 milhões de pessoas, evidencia o facto de 124 milhões, no final de 2025, ainda se encontrarem «sob protecção ou apoio humanitário» do ACNUR.
A propósito, recorde-se que Leão XIV, no final da sua visita a Espanha, advertiu não apenas as comunidades cristãs, mas igualmente os responsáveis políticos, para o facto de a Europa não poder «proclamar a dignidade humana e habituar-se a ver o Mediterrâneo e o Atlântico como cemitérios sem lápides».
Este desafio está no cerne da acção da Meeru-Abrir Caminho que, desde 2019, já deu resposta a esta urgência do mundo acolhendo e integrando mais de 150 pessoas refugiadas e migrantes… No próximo sábado, o convite para a leitura colectiva de Miñán – Irmãozinho não é mais do que dar continuidade a projectos de integração com a criação de laços de proximidade entre a população portuguesa e as famílias refugiadas ou, ainda, a facilitação do diálogo entre as diferentes tradições religiosas.
Lugares e horário da leitura colectiva, sábado, dia 20:
11h, Livraria Flâneur, Rua de Fernandes Costa, 88 (Metro: Casa da Música)
14h30, Jardim da Escola Superior de Educação Paula Frassinetti (Metro: Marquês)
18h, Pátio da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Metro: Combatentes ou Marquês)










