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As quatro irmãs de Hanifa Abbas (da esquerda para a direita: Heena, Layla, Wadha e Zina) que foram libertadas até à data. Crédito: © Privado/Amnistia Internacional

Alvo de crimes do Estado Islâmico

Milhares de Yazidi permanecem desaparecidos na Síria

| 10/08/2024

As quatro irmãs de Hanifa Abbas (da esquerda para a direita: Heena, Layla, Wadha e Zina) que foram libertadas até à data. Crédito: © Privado/Amnistia Internacional

As quatro irmãs de Hanifa Abbas (da esquerda para a direita: Heena, Layla, Wadha e Zina) que foram libertadas até à data. Fotos © Privado/Amnistia Internacional

Milhares de sobreviventes Yazidi das atrocidades cometidas pelo grupo armado (autodenominado) Estado Islâmico (EI) continuam desaparecidos, incluindo centenas de detidos indefinidamente no nordeste da Síria, afirmou a Amnistia Internacional em comunicado enviado ao 7MARGENS nesta sexta-feira, 9 de agosto, por ocasião do décimo aniversário do ataque do EI à comunidade Yazidi no Iraque.

“A comunidade Yazidi sofreu danos impensáveis às mãos do Estado Islâmico. Dez anos depois de o EI ter lançado o seu primeiro ataque contra os Yazidi, o seu sofrimento continua até hoje, uma vez que milhares de pessoas continuam desaparecidas”, afirmou Lauren Aarons, conselheira sénior da Amnistia Internacional para as questões de Género, Conflitos e Justiça Internacional. “Muitos yazidis que foram erroneamente apanhados após o colapso do EI têm estado a definhar em detenção indefinida em condições terríveis e de risco de vida no nordeste da Síria. Estes yazidis devem agora ser identificados, libertados e receber o apoio contínuo de que necessitam”, acrescentou.

Após a derrota territorial do EI em março de 2019, estima-se que 2 600 yazidis continuam desaparecidos, de acordo com o Gabinete para os Yazidi Raptados em Dohuk, Iraque. Acredita-se que uma parte significativa esteja no nordeste da Síria, depois de ter sido raptada e transportada pelo EI.

Acredita-se que centenas de mulheres e crianças Yazidi estão no campo de detenção de Al-Hol, algumas das quais presas em condições de cativeiro, escravatura e outros abusos por parte de membros do EI. Um número desconhecido de rapazes e jovens Yazidi, raptados quando eram crianças, está também detido numa rede interligada de, pelo menos, 27 centros de detenção.

Embora as pessoas detidas nos centros de detenção e no campo de Al-Hol que se apresentaram e se identificaram como Yazidi tenham sido libertadas e repatriadas para o Iraque, as organizações de defesa dos direitos dos Yazidi e os yazidis recentemente repatriados afirmam que continuam a existir muitos obstáculos à apresentação dos Yazidi que permanecem detidos. Alguns têm demasiado medo, receando ser castigados ou mortos por pessoas ligadas ao EI nos centros de detenção e no campo de Al-Hol se tentarem regressar para junto das suas famílias. Outros foram informados pelo EI de que as suas famílias lhes fariam mal, ou acreditam que todos os membros da comunidade Yazidi foram mortos. Muitos eram demasiado jovens quando foram raptados para se lembrarem agora que são Yazidi.

As terríveis condições no campo de Al-Hol constituem um tratamento cruel, desumano e degradante. Todas as pessoas detidas em Al-Hol estão a ser mantidas pelas autoridades autónomas por tempo indeterminado, sem acusação ou julgamento, a grande maioria há mais de cinco anos, em violação do direito internacional. As autoridades autónomas disseram à Amnistia Internacional que não têm o controlo total de Al-Hol e que o EI se reagrupou no campo.

Nahla, uma rapariga Yazidi que foi repatriada para o Iraque, disse à Amnistia Internacional que foi levada para Al-Hol com a família do seu último raptor, uma família afiliada ao EI: “A família com quem vivi em Al-Hol obrigou-me a cuidar dos seus animais. Tratavam-me como uma escrava”. A mãe de Nahla, Nufa, disse à Amnistia Internacional que a procura da filha foi difícil e que Nahla teve dificuldade em identificar-se como Yazidi antes de se reunirem: “Ela não se lembrava se era Yazidi ou não… Esquecia-se da maior parte das coisas”.

Sana tinha 16 anos quando foi capturada pelo EI e repatriada de Al-Hol, depois de ter sido identificada durante uma operação de segurança pelas autoridades autónomas. Contou à Amnistia Internacional que escondeu a sua identidade Yazidi durante anos devido ao medo, explicando que, antes da derrota do EI, um dos seus captores lhe mostrou um vídeo que, segundo ele, mostrava um suposto homicídio de “honra” de uma rapariga Yazidi que regressava do cativeiro e disse-lhe que a sua comunidade não a queria de volta. Temendo também ser morta se regressasse ao Iraque, escondeu-se dentro do campo.

“Queria dar a cara, mas tinha medo de que a minha família não me aceitasse… Rasgava a minha tenda e mudava-a muitas vezes de sítio, estava sempre a mudar-me, não queria conhecer ninguém, nem que me conhecessem. Às vezes, perguntava-me se devia revelar-me, depois pensava no vídeo”, afirmou Sana.

Um outro obstáculo é o facto de muitas das mulheres e raparigas Yazidi que permanecem em Al-Hol terem filhos pequenos, em resultado da violência sexual exercida por membros do EI. Algumas destas mulheres têm receios bem fundados de que possam ser separadas à força dos seus filhos, em violação do direito internacional em matéria de direitos humanos, se forem identificadas e repatriadas. Em 2020, a Amnistia Internacional documentou um padrão de mulheres Yazidi que foram separadas dos seus filhos depois de terem sido identificadas em Al-Hol. As mulheres Yazidi continuam a correr o risco de serem separadas das crianças nascidas como resultado de violência sexual.

Hanifa Abbas contou à Amnistia Internacional que passou anos à procura das suas cinco irmãs que foram raptadas pelo EI. Conseguiu trazer quatro das suas irmãs de volta a casa e identificou a quinta a partir de fotografias recolhidas por um ativista Yazidi em Al-Hol. No entanto, a irmã de Hanifa não se identificou às autoridades do campo como Yazidi. Hanifa acredita que a sua irmã poderá ter filhos no campo e receia ser separada deles se se identificar como Yazidi. Disse à Amnistia Internacional: “Muitas mulheres, se soubessem que tinham a opção de ficar com os seus filhos, apresentar-se-iam”.

Hanifa apelou a um maior apoio da comunidade internacional e afirmou: “Eu sou muito forte, mas agora estou a desmoronar. Já passaram dez anos… Têm de salvar aqueles que ainda estão em cativeiro”.

Amani, uma mulher Yazidi que regressou ao Iraque vinda de Al Hol, disse à Amnistia Internacional que foi forçada a separar-se dos seus filhos, que se encontram agora no nordeste da Síria: “Toda a gente diz que são filhos do EI… Tenho algumas das suas roupas, tiro-as para fora e cheiro-as. É claro que quero estar com eles. Eles fazem parte do meu coração”.

A Amnistia Internacional documentou a tortura sistemática ou outros maus-tratos nos centros de detenção no nordeste da Síria e concluiu que, em pelo menos dois dos centros, centenas de homens e rapazes morreram devido à tortura e a condições extremamente desumanas.

Basim esteve detido no centro de detenção de Panorama e apresentou-se como Yazidi em 2022. Agora com 18 anos e de volta ao Iraque, disse que, durante o tempo que passou em Panorama e noutros centros de detenção, testemunhou dezenas de homens a morrer devido a tortura ou outros maus-tratos e a doenças galopantes. “Tenho a certeza absoluta de que há outros rapazes e jovens Yazidi nas prisões. Eles têm medo de falar, porque os outros prisioneiros podem magoá-los. Nunca ninguém veio perguntar-me se eu era Yazidi. Se alguém tivesse perguntado, eu ter-me-ia ido embora no primeiro minuto… Agora é a altura de os procurar, enquanto ainda há uma oportunidade de os encontrar”.

As organizações de defesa dos direitos do povo Yazidi e os ativistas têm trabalhado com as autoridades autónomas para identificar os que ainda permanecem detidos no nordeste da Síria, coordenando a ação entre as famílias e as forças de segurança e, em alguns casos, recolhendo as suas próprias informações no interior de Al-Hol.

Várias organizações de defesa dos direitos dos Yazidi e ativistas afirmaram ter boas relações com as autoridades autónomas, embora essas relações se baseiem em contactos pessoais. Atualmente, não existe qualquer sistema ou forma organizada de contactar as autoridades sobre os yazidis desaparecidos.

Abdullah Shrem, um ativista Yazidi que passou os últimos dez anos a trabalhar para identificar yazidis desaparecidos, disse à Amnistia Internacional: “O Estado Islâmico desapareceu, mas ainda temos tantas pessoas em cativeiro. Sentimo-nos totalmente ignorados pela comunidade internacional”.

Abdullah Shrem, um ativista Yazidi que passou os últimos dez anos a trabalhar para identificar yazidis desaparecidos. Crédito: © Amnistia Internacional

Abdullah Shrem, um ativista Yazidi que passou os últimos dez anos a trabalhar para identificar yazidis desaparecidos. Crédito: © Amnistia Internacional

Outro ativista Yazidi disse à Amnistia Internacional que tinha uma lista de nove nomes de rapazes e jovens Yazidi que acreditava estarem no centro de detenção de Panorama, mas que não tinha forma de contactar as autoridades para garantir a sua libertação.

“Os ativistas Yazidi e os familiares não devem ser deixados sozinhos à procura dos desaparecidos. É urgente aumentar o apoio internacional a todos os esforços que respeitem os direitos humanos para identificar e devolver os desaparecidos, incluindo os que foram abandonados e esquecidos nos centros de detenção e no campo de Al-Hol, no nordeste da Síria”, afirmou Nicolette Waldman, conselheira sénior para as crises da Amnistia Internacional.

“Os direitos humanos e a ação dos sobreviventes devem estar no centro destes esforços. As autoridades iraquianas devem prestar mais assistência e apoio a todos os que regressam, incluindo o acesso a indemnizações ao abrigo da Lei dos Sobreviventes Yazidi.”

Desde agosto de 2014, o EI levou a cabo um ataque dirigido à comunidade Yazidi no Iraque, que a ONU reconheceu como um genocídio. Mais de 3 000 homens, mulheres e crianças Yazidi foram mortos ilegalmente, e pelo menos 6 800 outros — principalmente mulheres e crianças — foram raptados pelo EI. O EI perpetrou uma série de violações horríveis contra os Yazidi, submetendo mulheres e raparigas a formas de escravatura sexual e outras e obrigando os rapazes a combater como crianças-soldado.

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