Jesus Cristo é a única personagem global que realmente dividiu a história. Pilatos não sabia o que fazer com Jesus, e por isso perguntou: “Mas que mal fez este?”

Cristo perante Pôncio Pilatos de Mihály Munkácsy (1844–1900), Museu d’Orsay, Paris. Wikimedia Commons
Todos conhecem a estória do governador Pilatos quando teve que decidir sobre o destino de Jesus de Nazaré, soltando-o, já que era inocente, ou enviando-o para o patíbulo. Também cada um de nós ainda hoje tem que decidir o que fazer com Ele. Só temos duas opções à nossa frente, ou crucificamo-lo de novo, ou caímos nos seus braços e tornamo-nos seus discípulos.
Mas o que significa crucificar Cristo de novo? Desde logo significa fingir que Ele não existe, isto é, ser-lhe indiferente e ignorar a figura que efectivamente dividiu a história da Humanidade em duas partes, a.C. e d.C. Até Flávio Josefo, o historiador judeu ao serviço dos romanos escreveu sobre Ele e os seus discípulos. A moda do revisionismo histórico por razões políticas e ideológicas não foi utilizada apenas por Estaline relativamente a Trotsky, há muito quem o faça igualmente com o Jesus histórico.
De facto, quem ignora Jesus, o Cristo, está a crucificá-lo de novo.
Crucificar Cristo de novo também pode ser roubar-lhe a verdadeira identidade. Todos sabemos que existe o crime de roubo de identidade. Mas como pode alguém roubar a identidade a Jesus? Muito simples, basta reduzi-lo apenas a um profeta ou a um homem de bem, um filósofo ou um líder religioso. Depois, também há quem o veja como um activista social ou um político. Mas na realidade Ele era e é o Filho do Deus Vivo.
Quem lhe rouba a identidade está a crucificá-lo de novo.
Mas talvez a forma mais comum de crucificar Cristo hoje seja a praticada por muitos cristãos, quando se afirmam pessoas de fé mas não deixam que Cristo viva de facto em si.
Não deixar que Cristo viva em mim é não estar disposto a morrer para mim mesmo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20). Muitos persistem em viver na carne, isto é, segundo os seus impulsos naturais, nunca param para tentar ouvir Deus e não querem saber da Sua vontade.
Não deixar que Cristo viva em mim é também não procurar uma revelação mais fresca de Deus (quando amamos alguém queremos conhecer a pessoa mais profundamente e gozar da sua presença): “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis. Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:14,15).
Para muitos, Jesus é como um tio que vive na América, só se lembram dele quando precisam de ajuda (saúde, dinheiro, favor). De resto não querem saber dele. Um pouco como no filme “A Canção de Lisboa”, onde Vasco Santana interpreta o jovem estudante de Medicina que vivia na boémia e às custas do dinheiro que as tias enviavam regularmente da província.
Não deixar que Cristo viva em mim é, ainda, não considerar a Graça de Deus suficiente: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Coríntios 12:9). Muitos insistem em acrescentar à fé e ao arrependimento do pecado: regras, costumes, procedimentos, promessas, sinais, ofertas especiais, rezas e sacrifícios. Algumas destas coisas serão legítimas mas não enquanto elementos de substituição da graça divina.
O que fazer então com o Cristo? Crucificá-lo, ao fingir que Ele não existe, ao roubar-lhe a verdadeira identidade, ao dizer que se é cristão, mas não deixar que Cristo viva em si, ao continuar a viver na carne, recusando-se a morrer para si mesmo, ao não se chegar a Ele procurando conhecê-lo mais, ao não confiar na suficiência da sua Graça?
O que fazer com o Cristo? Lavar as mãos como Pilatos não é opção. Pilatos contribuiu para a morte de Cristo na cruz. Só há duas saídas. Ou crucificá-lo ou segui-lo como discípulo.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.








