O Vaticano poderá estar prestes a anunciar a extinção de uma organização católica que se diz ter à roda de 20 mil membros e estar presente em nove países, especialmente da América Latina, devido a graves problemas de corrupção, abusos de poder e violência sexual, nomeadamente contra crianças e adolescentes.
Trata-se da Sodalitium Christianae Vitae (Sodalício ou irmandade de Vida Cristã – SVC), uma sociedade de vida apostólica, de cunho conservador, composta de clérigos e leigos, com um ramo feminino. Foi fundada em 1971, por um grupo liderado por Luis Fernando Figari e reconhecida como organização de direito pontifício pelo Papa João Paulo II em 1997.
A confirmação de que Roma se prepara para anunciar a extinção acabou de vir de dentro da própria instituição, através de uma inconfidência. De facto, segundo uma noticia divulgada no último sábado, 18 de janeiro, pelo site Infovaticana (ao contrário do que o nome possa sugerir, não se trata de informação do Vaticano), mais de uma centena de membros com votos perpétuos teriam recebido a notícia da parte do cardeal Gianfranco Ghirlanda, S.J., que, com o padre Guilermo Rodriguez O.F.M, são os delegados pontifícios encarregados de acompanhar a reforma da irmandade, durante uma Assembleia que decorre até 31 deste mês em Aparecida, no Brasil.
Um comunicado difundido na última segunda-feira pela própria assembleia reconhece que a matéria da informação é verdadeira, desmentindo, no entanto, que o cardeal Ghirlanda tenha algo a ver com a revelação. Aparentemente todos os membros da assembleia estavam vinculados a um compromisso de confidencialidade quanto a essa informação, mas dois deles confessaram-se culpados da “indiscrição”, pelo que, depois de terem pedido perdão aos presentes, foram “expulsos permanentemente” da reunião.
Este desfecho, que é dado como iminente, é o corolário de um longo processo, que passou por denúncias ainda na primeira década deste século, que aceleraram depois da publicação do livro Mitad Monjes, Mitad Soldados, publicado em 2015, da autoria de dois jornalistas, Pedro Salinas (ex-sodalício) e Paola Ugar, com a investigação desencadeada pelo Dicastério da Doutrina da Fé, que despachou para o Perú, sede do SVC, os seus dois “pesos pesados” na investigação de abusos, o arcebispo Charles Scicluna e o padre Jordi Bertomeu.

O Papa Francisco com o superior geral do Sodalício, José David Correa, em 2023. Foto © SVC
Como resultado das indagações realizadas, em meados de agosto de 2024, o fundador, Luis Fernando Figari, acusado de violência sexual e física, inclusive contra menores, foi obrigado a abandonar o Sodalício. Em 24 de setembro seguinte, a Conferência Episcopal do Peru, que durante décadas tomou o Sodalício como o exemplo de dinamismo e evangelização que outros deveriam seguir, de resto, a exemplo da Cúria Romana, viram-se na contingência de divulgar um comunicado da Nunciatura local que expulsava da irmandade dez dos seus membros mais qualificados, entre os quais um arcebispo (meses antes forçado a deixar o seu posto episcopal à frente da diocese de Piura, dois padres superiores regionais; três formadores, um dos quais também padre; e, ainda três outros membros, entre eles um jornalista.
A medida de expulsão era justificada pelo “escândalo causado pelo número e gravidade dos abusos relatados pelas vítimas”, listando “abusos físicos, incluindo sadismo e violência”, “abusos de consciência, com métodos sectários para quebrar a vontade dos subordinados”, bem como “abusos espirituais”, “abusos de autoridade” e “abusos na administração dos bens eclesiásticos”. Como exemplo de abuso de autoridade, eram ainda referidos “episódios de violação de comunicações e acosso no local de trabalho, assim como encobrimento de delitos cometidos no seio da instituição”.
Segundo o Vatican News, também o Ministério Público peruano havia solicitado a prisão preventiva de vários membros e ex-membros da organização, incluindo Figari, em 2018. E o próprio Sodalício havia criado um grupo de investigação que, num relatório, identificou os autores de tais crimes, cometidos entre 1975 e 2002 contra cerca de 36 pessoas, incluindo 19 menores, tendo-os expulso do SVC.
O site Religión Digital, que tem feito especial acompanhamento deste dossiê, cita um relatório do próprio Sodalicio, apresentado esta semana na assembleia de Aparecida, que afirma ter a instituição indemnizado 83 vítimas de abusos com 5,3 milhões de dólares (5,08 milhões de euros).
Esses números foram, entretanto, contestados por uma associação de vítimas – a Associação pela Verdade, Justiça e Reparações Dignas – a qual denuncia que o “processo de reconhecimento” de quem é ou não vítima foi “manejado por uma comissão contratada pelo próprio Sodalício”, o que fez com que muitas vítimas não tenham sido “nem acolhidas nem escutadas”.
As investigações feitas pelo Vaticano e outros dados denunciados por investigações dos média apontam para um quadro segundo o qual, ao longo do tempo, se instituiu uma estrutura que combina dinheiro, influência, secretismo e sexo, um caldo que levou o arcebispo de Lima, recentemente feito cardeal, a exigir a extinção do Sodalício.
(Foto de destaque: Ordenação de padre do Sodalício em Buenos Aires, Argentina, novembro 2023. © SVC)
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