“Somos humanos, somos ministros, somos servidores, não somos super-heróis.” A afirmação do padre António de Freitas, reitor do Seminário de São José da Diocese do Algarve, sintetiza uma das principais preocupações que atravessaram o XI Simpósio Nacional do Clero, que terminou esta quinta-feira, 3 de setembro, em Fátima: a necessidade de repensar a forma como é vivido o ministério sacerdotal em Portugal, combatendo o isolamento e a sobrecarga e promovendo uma maior corresponsabilidade nas comunidades cristãs.
A conclusão surge depois de quatro dias de encontro no Centro Pastoral Paulo VI, sob o tema “Irmãos no sacerdócio e testemunhas do Evangelho”. Segundo a síntese dos grupos de trabalho apresentada no encerramento, entre as prioridades identificadas estiveram o combate à solidão dos padres, uma maior proximidade entre sacerdotes e bispos e a criação de equipas multidisciplinares capazes de apoiar os párocos perante situações de sofrimento complexo e de saúde mental.
A necessidade de libertar os padres de uma parte das tarefas que hoje acumulam foi uma das questões destacadas pelo padre António de Freitas, em declarações à agência Ecclesia. O presbítero defendeu a delegação de funções administrativas e de gestão em leigos com competência técnica, permitindo aos padres concentrarem-se no que considera ser o “essencial” do seu ministério.
O padre António Carlos, da arquidiocese de Évora, falou por seu lado de um “isolamento e um afastamento muito grande” entre os sacerdotes, particularmente evidente nas aldeias desertificadas do interior alentejano. Para o pároco, a fraternidade presbiteral precisa de passar das “palavras e papéis” para a prática.
Também o padre António Almiro Mendes, da diocese do Porto, descreveu um presbiterado marcado por “grandes solidões” e por um “trabalho desmesurado” que “esmaga”. Já o padre Vítor Mira, da diocese de Leiria-Fátima, colocou a questão numa perspetiva sinodal: “a missão não é só do padre, é de todos os batizados”.
Solidão, clericalismo, abusos e outros desafios
A ideia de que o sacerdote não deve viver o seu ministério isoladamente esteve presente desde a abertura do simpósio. Na mensagem enviada aos participantes, o Papa Leão XIV apelou a que os sacerdotes rejeitem tanto “entusiasmos ingénuos” como “medos estéreis”, promovendo uma franqueza capaz de iluminar e abrir caminhos. O Papa valorizou também a diversidade e até as tensões existentes entre os sacerdotes, considerando que o Espírito Santo pode servir-se dessa realidade para renovar o zelo pela missão comum.
O núncio apostólico em Portugal, Andrés Carrascosa Coso, colocou a questão de forma particularmente direta: “A única maneira de viver um sacerdócio sadio é a de não caminhar sozinhos.” Nenhum pastor existe sozinho, afirmou, defendendo também a necessidade de acompanhamento espiritual, porque quem deixa de ser acompanhado corre o risco de perder a capacidade de reconhecer o que acontece no seu próprio interior.
O representante do Papa alertou ainda para o clericalismo, que classificou como uma “ferida na comunhão”, e insistiu na necessidade de colocar a caridade na base de todas as atividades pastorais. Celebrações muito bem preparadas ou programas pastorais elaborados, advertiu, podem tornar-se apenas a expressão exterior de uma realidade comunitária que, na verdade, não existe.
A questão dos abusos esteve igualmente presente desde o primeiro dia. Na abertura do simpósio, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), Virgílio Antunes, afirmou que é necessário continuar a trabalhar para que as comunidades cristãs sejam “lugares saudáveis e seguros para todos”, onde prevaleça o respeito por cada pessoa e não exista “qualquer forma de abuso”.
O também bispo de Coimbra associou esta preocupação ao desafio de encontrar uma presença “feliz, adequada e equilibrada” da Igreja e dos padres na sociedade, tendo em vista simultaneamente o bem-estar pessoal e a dimensão missionária do ministério.
Virgílio Antunes identificou ainda como desafios a uma vida sacerdotal equilibrada o individualismo cultural, a necessidade de aprofundamento espiritual e a importância de intensificar a vida comunitária, tanto entre os padres como na relação com as comunidades cristãs. O “sentido de pertença ao povo de Deus” e a dimensão sinodal da Igreja, afirmou, constituem o quadro adequado para viver o sacerdócio “como serviço e como oferta”.
Neste contexto, o presidente da CEP defendeu uma revisão do modo de exercer o sacerdócio, tendo em conta a diminuição do número de padres, a elevada média etária e os novos modelos de organização pastoral. Os padres, afirmou, “não podem ficar reféns da multiplicidade de atividades, da sobreocupação do tempo” ou de exigências que nem sempre correspondem ao essencial da fé. Em alternativa, apontou para projetos pastorais comunitários que estabeleçam prioridades, envolvam os fiéis e tenham em consideração a vocação e a missão dos presbíteros.
Um simpósio diferente
O próprio formato do encontro procurou traduzir esta preocupação com a participação e a partilha. Ao contrário de edições anteriores, o XI Simpósio do Clero não assentou numa sucessão de conferências, mas partiu dos resultados de um inquérito anónimo sobre os “Desafios da Vida Sacerdotal em Portugal”, preenchido pelos participantes. O questionário procurou também recolher informação sobre o cuidado que cada padre tem consigo próprio nas dimensões emocional, espiritual e psicológica.
O programa incluiu quatro grandes temas: a integração da vida espiritual e pastoral; a fraternidade sacerdotal; o acompanhamento e cuidado das pessoas; e os desafios culturais e digitais à missão evangelizadora. A reflexão em grupos foi organizada sucessivamente por províncias eclesiásticas, tempos de seminário, afinidades territoriais e, finalmente, entre zonas do litoral e do interior.
O relatório final colocou assim no centro do debate não apenas a missão dos padres, mas também as condições humanas e comunitárias em que essa missão é exercida. Uma mudança que passa por reconhecer limites, partilhar responsabilidades e reconstruir relações de fraternidade.
Como resumiu o padre Vítor Mira, “somos vasos de barro, mas que levamos em nós um tesouro”. Para o presbítero de Leiria-Fátima, num “mundo ferido”, a missão exige antes de mais saber escutar e acolher, em vez de impor imediatamente a doutrina. Mas implica também, como se refletiu ao longo do simpósio, que os próprios padres sejam escutados, nas suas dificuldades, fragilidades e necessidades, para que não sejam chamados apenas a acompanhar os outros, mas encontrem também quem os acompanhe.
O XI Simpósio Nacional do Clero decorreu entre 31 de agosto e 3 de setembro, em Fátima, promovido pela Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.










