AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Teatro. A Médica

Teatro

A Médica

| 26/01/2025

A peça em exibição no Teatro da Trindade, em Lisboa (até 16 de fev.), parte de um conflito em que uma médica (Custódia Gallego) entra em conflito com um padre (Pedro Laginha) face à iminência da morte de uma adolescente. Para o espetador português (ao contrário do americano), este não parece ser o problema nuclear. Não consta que seja um problema comum entre nós, mas é, na peça, o conflito que lhe dá unidade temática e abre para todos os outros que sobem à cena.

A médica, uma autoridade tanto clínica como científica, toma a medida correta do ponto de vista deontológico. Mas o papel assumido pelo padre é apenas um dos muitos que entram em conflito com ela. Os interesses da gestão da empresa, da política, dos candidatos aos lugares em disputa, dos grupos minoritários e da populaça nas redes sociais fazem-lhe boa companhia. E estes interesses atravessam, de facto, os nossos dias e as nossas vivências tanto pessoais como coletivas, nos vários lugares da nossa vida. Como se não bastasse, o racismo, o aborto, a liberdade religiosa, a identidade de género, o lugar da mulher e do homem e vários outros são temas que atravessam todo o enredo.

Um dos momentos fortes da peça é a intervenção do ativista woke. Em representação de um tempo em que muitos foram vítimas do poder de uma minoria branca, masculina, europeia e por aí fora, lança-se contra a médica que assume um ponto de vista universal em que todos, ali, devem ser tratados por iguais. Dito de outro modo: a vitimização, vinda do passado, impede que a justiça seja praticada no presente. Se essa perspetiva ganhar, a deontologia médica dará lugar a uma qualquer situação em que outros interesses passam a ocupar o lugar do “bem comum e universal”.

O conflito é forte e o desempenho dos atores não trai a tensão dos conflitos no palco da nossa sociedade. No final, o texto dramático não tira conclusões, dá aos espetadores o papel de lerem o que se passa no mundo e decidirem aí, no mundo, o que deve ser a solução.

Da autoria de Robert Icke e encenação de Ricardo Neves-Neves, a peça oferece a quem sai da sala uma boa dose de questões a ter em consideração. E uma delas é saber se a peça é uma tragédia ou se revela a farsa de uma vida social supostamente séria. Talvez as duas coisas.

Foto ©Manuel Rodrigues Levita/CML-Agenda Câmara Municipal de Lisboa

A Médica, quarta a sábado 21:00, domingo 16:30 (120 min.), com Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz. Teatro da Trindade, Lisboa, até 16 fevereiro.

 

José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This