A peça em exibição no Teatro da Trindade, em Lisboa (até 16 de fev.), parte de um conflito em que uma médica (Custódia Gallego) entra em conflito com um padre (Pedro Laginha) face à iminência da morte de uma adolescente. Para o espetador português (ao contrário do americano), este não parece ser o problema nuclear. Não consta que seja um problema comum entre nós, mas é, na peça, o conflito que lhe dá unidade temática e abre para todos os outros que sobem à cena.
A médica, uma autoridade tanto clínica como científica, toma a medida correta do ponto de vista deontológico. Mas o papel assumido pelo padre é apenas um dos muitos que entram em conflito com ela. Os interesses da gestão da empresa, da política, dos candidatos aos lugares em disputa, dos grupos minoritários e da populaça nas redes sociais fazem-lhe boa companhia. E estes interesses atravessam, de facto, os nossos dias e as nossas vivências tanto pessoais como coletivas, nos vários lugares da nossa vida. Como se não bastasse, o racismo, o aborto, a liberdade religiosa, a identidade de género, o lugar da mulher e do homem e vários outros são temas que atravessam todo o enredo.
Um dos momentos fortes da peça é a intervenção do ativista woke. Em representação de um tempo em que muitos foram vítimas do poder de uma minoria branca, masculina, europeia e por aí fora, lança-se contra a médica que assume um ponto de vista universal em que todos, ali, devem ser tratados por iguais. Dito de outro modo: a vitimização, vinda do passado, impede que a justiça seja praticada no presente. Se essa perspetiva ganhar, a deontologia médica dará lugar a uma qualquer situação em que outros interesses passam a ocupar o lugar do “bem comum e universal”.
O conflito é forte e o desempenho dos atores não trai a tensão dos conflitos no palco da nossa sociedade. No final, o texto dramático não tira conclusões, dá aos espetadores o papel de lerem o que se passa no mundo e decidirem aí, no mundo, o que deve ser a solução.
Da autoria de Robert Icke e encenação de Ricardo Neves-Neves, a peça oferece a quem sai da sala uma boa dose de questões a ter em consideração. E uma delas é saber se a peça é uma tragédia ou se revela a farsa de uma vida social supostamente séria. Talvez as duas coisas.

Foto ©Manuel Rodrigues Levita/CML-Agenda Câmara Municipal de Lisboa
A Médica, quarta a sábado 21:00, domingo 16:30 (120 min.), com Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz. Teatro da Trindade, Lisboa, até 16 fevereiro.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com








