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Paula White (à direita, de branco) e outros membros da Administração Trump numa oração pelo Presidente. Foto © White House

Má teologia e má política

Os equívocos do chamado “sionismo cristão”

| 16/02/2025

 

A expressão que aparece no título pode parecer estranha e será desconhecida para muitos leitores. Mas existe, e refere-se a um movimento concreto. No final de Agosto de 2006, quatro dirigentes das principais Igrejas cristãs em Jerusalém publicaram uma Declaração sobre o Sionismo Cristão, denunciando-o como “ensino errado, que corrompe a mensagem bíblica de amor, justiça e reconciliação.” O texto diz ainda que, “na sua forma extrema, ele põe a ênfase em acontecimentos apocalípticos conduzindo ao fim da História, em vez da vivência actual do amor de Cristo e da justiça.”

Assinavam este documento o então patriarca latino (da Igreja Católica) Michel Sabbah, o arcebispo Swerios Mourad, do Patriarcado Ortodoxo Sírio, e os bispos Riah Abu El-Assal, da Igreja Episcopal (Comunhão Anglicana), e Mounib Younan, da Igreja Evangélica Luterana na Jordânia e Terra Santa.

A capa do livro sobre sionismo cristão

A capa do livro sobre o sionismo cristão

Outra coisa também pouco conhecida é que o sionismo cristão é anterior ao sionismo judaico propriamente dito. No final do séc. XIX, o capelão anglicano da Embaixada Britânica em Viena (Áustria) era o reverendo William Hechler, um sionista cristão convicto, um dos três cristãos convidados para o I Congresso Sionista Mundial, reunido em Basileia (Suíça), em 1897. Nos seus Diários, Theodore Herzl, que o conheceu pessoalmente e reconhece o seu precioso apoio, fala dele com simpatia, mas considera-o “um visionário ingénuo.”

Esta é uma daquelas histórias que começam bem, mas por vezes acabam mal. Stephen Sizer, o pastor de uma paróquia anglicana no Surrey (Inglaterra), publicou em 2004 um livro que conta a história do sionismo cristão moderno, desde os seus inícios entre os círculos evangélicos pré-milenialistas britânicos do séc. XIX até à sua versão mais agressiva e politicamente empenhada, o “dispensacionalismo apocalíptico” que se opõe ao processo de paz na Palestina e deseja explicitamente a batalha do Armagedão. O título é claro e provocante:  Christian Zionism – Road-map to Armageddon?

Os primeiros pregadores – tanto da ala evangélica da Igreja Anglicana como das igrejas “não-conformistas” – a trilhar este caminho procuravam, no fundo, resolver o problema da “convergência escatológica” entre o Israel bíblico e a Igreja, que séculos de antissemitismo teológico e político tinham afastado.

Ao longo do séc. XIX/princípios do séc. XX, o sionismo cristão desenvolveu-se numa constelação de tendências, com interpretações não coincidentes dos mesmos textos, e pondo ênfase em diversas visões proféticas. Ganha corpo, então, aquilo a que o autor chama uma “hermenêutica futurista” de várias passagens da Bíblia, consideradas agora como a previsão literal de acontecimentos políticos contemporâneos. Os textos favoritos deste tipo de especulação encontram-se sobretudo nos livros dos profetas Ezequiel e Daniel, no “sermão profético” de Jesus (em Mateus, capítulos 24 e 25, Marcos 13 e Lucas 21) e, naturalmente, no livro do Apocalipse.

Nos Estados Unidos, e especialmente depois da Guerra dos Seis Dias (1967), que opôs Israel ao Egito, Síria e Jordânia, o espaço de muitos meios evangélicos é ocupado por um sionismo cristão “dispensacionalista”, que volta a separar, em novos termos, o Israel bíblico e a Igreja. O que fica dito, nesta tese, é que a Igreja gastou a sua oportunidade, o tempo da sua “dispensação”. Ao invés da mensagem de que, em Cristo, já não há diferença entre “judeu e grego” (Romanos 10:12, Gálatas 3:28), esta doutrina realça o fim dos “tempos dos gentios” (Lucas 21:24) e identifica o Israel bíblico com o Estado moderno de Israel, agora finalmente restabelecido, no cumprimento das antigas profecias.

 

“Uma obediência a Deus”

© UnrwaFadi Thabet Criança sentada entre as ruínas de uma escola no centro de Gaza

Destruição em Gaza: os membros mais exaltados do sionismo cristão têm pressa de assistir à batalha do Armagedão num lugar de primeiro balcão. Na imagem, criança sentada entre as ruínas de uma escola em Gaza. Foto © UNRWA/Fadi Thabe

A mensagem para as comunidades e para as nações cristãs passa a ser a de uma colagem sem reservas ao Estado de Israel. A doutrina que sustenta esta posição extrema é lida em Génesis 12:3 – “abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”.

Em Junho de 2002, na reunião anual da maior denominação protestante nos EUA, a Southern Baptist Convention (Convenção Baptista do Sul), Richard Land, do respectivo Departamento de Ética e Liberdade Religiosa, desenvolveu o tema do apoio ao Estado de Israel nos seguintes termos:

“Para nós, o apoio a Israel é um assunto de obediência a Deus, e de obediência à ordem divina de abençoar o seu povo eleito. (…) Deus tem-nos abençoado, em larga medida, porque nós temos abençoado os Judeus. (…) Como americano, eu acredito que a América precisa de abençoar Israel mais do que Israel precisa que a América o abençoe, porque se nós abençoarmos Israel o Leão de Judá vai abençoar-nos a nós, e se não o fizermos também ele não o fará.”

Sobre a questão da Aliança bíblica e das promessas feitas à descendência de Abraão, Richard Land admite que Deus não as restringiu aos filhos de Isaque e também tem uma bênção para os descendentes de Ismael, os Árabes, mas põe as coisas deste modo: “Deus abençoou-os e vai continuar a abençoá-los, em qualquer lugar menos na Palestina, porque Deus deu a Palestina para sempre aos descendentes de Isaque.”

Esta corrente de pensamento é representada, nos EUA, por muitas igrejas e autores que fazem leituras políticas imediatistas dos textos do Apocalipse e de outros livros bíblicos, vendo nas guerras do Médio Oriente sinais do iminente “fim dos tempos” e em Israel o seu protagonista eleito. E esta tendência está instalada, hoje, aos mais altos níveis da administração dos EUA, onde conta com uma poderosa base de apoio eleitoral.

O semanário protestante francês Réforme publicou em quatro números, em Abril de 2002, uma bem documentada reportagem sobre este “sionismo cristão”, afirmando, na altura, que era quatro a cinco vezes mais numeroso que a da própria comunidade judaica norte-americana, e cujos membros mais exaltados têm pressa de assistir à batalha do Armagedão em lugar de primeiro balcão…

Mas seria abusivo confundir toda a comunidade evangélica com esta tendência. Jimmy Carter e Bill Clinton são dois membros da Convenção Baptista do Sul que souberam ler aquele versículo de Génesis 12:3 até ao fim: “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra.”

É Stephen Sizer quem cita, neste seu livro, um famoso pregador evangélico com programas radiofónicos de grande audiência, Dale Crowley, que criticava o “sionismo cristão” como sendo a “seita de crescimento mais rápido na América” e afirmou que, em última instância, os seus seguidores “têm um propósito: ajudar a mão de Deus para os arrebatar para os céus, livres de todos os problemas, de onde poderão assistir à batalha do Armagedão e à destruição do planeta Terra.”

 

Gog e Magog

George W. Bush foi buscar versículos bíblicos para justificar a sua guerra e converter os seus aliados incrédulos a apoiá-lo. Foto: Records of the White House Photo Office (George W. Bush Administration), 1/20/2001 - 1/20/2009. Domínio público, via Wikimedia Commons.

George W. Bush foi buscar versículos bíblicos para justificar a sua guerra e converter os seus aliados incrédulos a apoiá-lo. Foto: Records of the White House Photo Office (George W. Bush Administration), 1/20/2001 – 1/20/2009. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Depois da “entronização” em Washington de um Presidente que se declara salvo por Deus para salvar a América, estamos agora a assistir à “segunda vinda” de Paula White, uma tele-evangelista na linha da teologia da saúde e prosperidade (Health and Wealth Gospel, como se diz nos Estados Unidos), que faz pregações de exorcismo e volta a ser a assessora espiritual na Casa Branca. Julgávamos que já tínhamos visto tudo.

Mas vale a pena, misturando coisas sérias com um pouco de humor, recordar outro episódio mal conhecido, com outro Presidente que também leu a Bíblia para fazer má teologia ao serviço de má política.

No princípio de 2003, pouco antes de desencadear a invasão do Iraque que derrubou o regime de Sadam Hussein, apoiado na denúncia de “armas de destruição maciça”, mas sem ter o acordo da Organização das Nações Unidas, George W. Bush foi buscar versículos bíblicos para justificar a sua guerra e converter os seus aliados incrédulos a apoiá-lo.

Numa conversa com o Presidente francês Jacques Chirac, contou que estavam envolvidos nesta guerra “Gog e Magog” e que as profecias bíblicas estavam a cumprir-se aos nossos olhos, contra o “eixo do Mal”.

Perplexo, mas sabendo da orientação confessional de George W. Bush, Chirac pediu aos seus assessores que contactassem a Federação Protestante de França, que por sua vez telefonou a um teólogo protestante suíço, Thomas Römer, biblista e especialista de Antigo Testamento na Faculdade de Teologia e Ciências das Religiões na Universidade de Lausanne.

Foi-lhe pedido que escrevesse uma página sobre Gog e Magog, para o Eliseu. Perplexo ele, por sua vez, redigiu uma página em A4 sobre essas duas figuras mencionadas nos capítulos 38 e 39 do livro de Ezequiel. O texto em que conta esta história e explica o que a teologia e a exegese actuais sabem sobre o assunto está publicado em Aller Savoir!, da Universidade de Lausanne, e pode ser lido aqui em sinal aberto.

Thomas Römer explica as consequências políticas destes textos para George W. Bush: “Como muitos cristãos americanos, ele crê que Deus estará do lado de Israel nessa batalha final e, portanto, que os inimigos deste país estarão do lado do Anticristo. Assim sendo, ele apoiará Israel sem hesitação, porque está intimamente convencido de que, quando chegar o fim dos tempos, é preciso estar do lado de Israel.”

 

Imagem de destaque: Paula White (à direita, de branco) e outros membros da Administração Trump numa oração pelo Presidente. Foto © White House

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