Cristãos, judeus e muçulmanos americanos estão a celebrar o 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos da América (EUA) num panorama cultural e religioso altamente politizado. A constatação do jornal Jewish News refere-se apenas aos judeus, mas atravessa na realidade as diferentes comunidades religiosas no país.
Segundo esta publicação, o aniversário dos EUA — que se assinalou este sábado, 4 de julho — “está a dar novo fôlego a antigos debates sobre a liberdade religiosa, como o que teve lugar em torno do recente comício nacional de oração do Presidente Donald Trump e da proclamação do «Shabbat 250»”. E para ilustrar esta nota, o jornal aponta o “clima de desânimo generalizado” que se vive: “77 por cento dos americanos afirmam que os fundadores ficariam «desapontados» com o estado da nação, independentemente da filiação partidária”.
Uma das fortes razões para esse desapontamento reside na Casa Branca, a residência oficial do Presidente do país. A administração de Donald Trump tem insistido, ainda mais neste segundo mandato, num discurso divisivo, incentivando ao ódio e racismo contra os migrantes e as minorias, alimentando a desinformação e os fundamentalismos, apostando numa polarização extrema e na partidarização da vida coletiva.
“Um Presidente que ameaça a liberdade”
Exemplo desta polarização e partidarização são as várias denominações cristãs. A publicação francesa Réforme (ligada a igrejas protestantes) refere que “as celebrações do 4 de julho, organizadas por uma entidade ligada à Casa Branca, suscitam questões quanto ao seu financiamento e são acusadas de ignorar a história afro-americana”.

Donald Trump saúda participantes na Great American State Fair, no National Mall, em Washington, a 24 de junho de 2026, no âmbito dos 250 anos do país. Foto © Casa Branca/Daniel Torok.
Ouvido num artigo da sua correspondente em Nova Iorque, o historiador especialista na Revolução Americana e professor na Universidade de Washington-Oeste, no Estado de Washington, Johann Neem, interpreta as “comemorações do 250.º aniversário como um indicador de uma crise política mais profunda”. E explica: “Os Pais Fundadores do nosso país sabiam que as repúblicas são frágeis; cada aniversário é uma ocasião para nos dizermos ‘Conseguimos’. Desta vez, porém, a situação é diferente. Temos um Presidente que ameaça a liberdade, a igualdade e a autonomia governamental. Podemos muito bem estar a assistir ao fim da república americana.”
Noutro artigo do Réforme afirma-se que “entre a participação em eventos favoráveis ao executivo e a vontade de relativizar a revolução americana, as Igrejas dos Estados Unidos estão a polarizar-se”. “Um em cada dois pastores protestantes americanos considera que a sua Igreja deveria comemorar a adoção da Declaração de Independência este ano”, sintetiza a publicação, citando um inquérito do instituto de investigação cristão Lifeway Research, publicado em meados de junho.
O contexto é este: “Esta divisão religiosa reflete a divisão política em torno das comemorações do 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos. Do lado dos cristãos progressistas, a Igreja Episcopal anunciou uma cerimónia inter-religiosa a 3 de julho na catedral de Washington DC, prestando «homenagem aos ideais da nação, enquanto faz um balanço honesto da sua história e dos desafios ainda por resolver»”.
Papa Leão XIV insiste nas críticas a Trump
O primeiro bispo de Roma de origem americana, o Papa Leão XIV — que publicamente tem criticado em diferentes ocasiões o Presidente do seu país — recordou a Donald Trump que a defesa da vida humana não pode ser dissociada do acolhimento aos migrantes.
Numa carta enviada por ocasião do 250.º aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, citada pela Vida Nueva Digital, o Papa sublinhou que “defender a vida humana implica também acolher, proteger e ajudar os imigrantes”.
Leão XIV felicitou “todos os norte-americanos”, seus concidadãos, por este aniversário, que comemora o momento fundacional de 4 de julho de 1776, quando o país deu voz aos ideais de “liberdade, igualdade, busca da felicidade, justiça e autogoverno democrático”, como recorda a Vida Nueva.
Na sua carta, o Papa defende que esta data não é apenas uma ocasião para celebrar “a extraordinária trajetória da nação”, mas também para refletir sobre as responsabilidades que os norte-americanos têm uns para com os outros e para com as gerações que herdarão o país que hoje se está a construir.

“Vale a pena proteger a família”: uma das imagens divulgadas pela Casa Branca para celebrar os 250 anos dos EUA, num registo sempre muito polarizador. A imagem não reflete a diversidade americana. Foto: Direitos reservados.
Muçulmanos chegaram aos EUA antes da República
Por seu lado, em The Muslim Times, o editor do jornal Rafiq A. Tschannen defende a tese de que um muçulmano pôs o pé em solo americano há 500 anos, muito antes da independência. Segundo Tschannen, “nas décadas de 1520 e 1530, um homem chamado Esteban de Dorantes, conhecido como Estevanico, atravessou a pé os desertos do que hoje é o Texas, o Novo México e o Arizona — décadas antes de os ingleses fundarem Jamestown em 1607 e um século inteiro antes de os Peregrinos chegarem a Plymouth em 1620”.
Isto significa que, segundo o articulista do Muslim Times, “a sua presença põe em causa a visão comum de que os muçulmanos na América são forasteiros, especialmente após o 11 de setembro”.
Estevanico nasceu em Azemmour, na costa atlântica de Marrocos, foi escravizado e levado para Espanha e, posteriormente, atravessou o oceano Atlântico. O homem aprendeu várias línguas nativas americanas e “tornou-se uma das primeiras pessoas do Velho Mundo a atravessar o interior sul dos futuros Estados Unidos”, relata o jornal.
Rafiq A. Tschannen é taxativo: “Tendo em conta o facto de ter nascido em Marrocos e as informações biográficas de que dispomos, ele era muçulmano.” E acrescenta: “Como estudioso de religião, centro a minha investigação na identidade e no sentimento de pertença, em locais que vão desde a África Oriental e o oceano Índico Ocidental até às comunidades islâmicas no sul dos EUA”, defendendo que “os muçulmanos que estiveram presentes na fundação da nação ajudaram a moldar a sua música, as suas leis e a sua sociedade civil”.
“O maior número de muçulmanos chegou como mão-de-obra escravizada. Entre eles encontravam-se muçulmanos da faixa da Senegâmbia e do Sahel, na África Ocidental, uma região moldada por séculos de erudição islâmica. Segundo algumas estimativas, eram dezenas de milhares, e muitos eram alfabetizados em árabe e tinham recebido formação no Alcorão e na lei islâmica antes mesmo de serem capturados”, desenvolve o Muslim Times.
Todos estes retratos pintam um país com uma diversidade e uma pluralidade bem distintas da dimensão pequenina e mesquinha que Donald Trump, acompanhado de muitos dos seus seguidores, insiste em vender todos os dias nas redes sociais e nos seus discursos.










