A Igreja Católica é chamada a ser “pobre com os pobres”, “a escutá-los e a considerá-los sujeitos da evangelização”. A convocação é recordada pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga (CJPAB), num texto intitulado “A Sinodalidade como profecia social”, que toma como referência o Documento Final do Sínodo.
O texto, publicado no Diário do Minho, no último sábado, dia em que aquela Arquidiocese promoveu a sua quarta assembleia sinodal, debruça-se com minúcia sobre o Documento Final. Dele sublinha o relevo que é dado à Doutrina Social da Igreja, considerando-a “um alicerce de compromisso cristão”, em especial em campos como o “empenho pela paz e a justiça”, o “cuidado da casa comum” e o “diálogo intercultural e inter-religioso”.
Estes aspetos são tão mais merecedores de atenção quanto as atenções do processo sinodal tenham vindo a centrar-se mais na vida interna da Igreja do que na ação dos seus membros na sociedade e “nos contextos em que vivem e trabalham”. E, como a comissão bracarense faz notar, o documento final do Sínodo aponta a difusão e o estudo do pensamento social para inspirar a ação “pela defesa da vida e dos direitos da pessoa, pelo justo ordenamento da sociedade, pela dignidade do trabalho, por uma economia justa e solidária, pela ecologia integral, fazendo parte da missão evangelizadora que a Igreja é chamada a viver e encarnar na história”.
Indo ao encontro do título do seu texto, a CJPAB cita o nº 47 do Documento Final, quando salienta que, “praticado com humildade, o estilo sinodal pode fazer da Igreja uma voz profética no mundo de hoje”. Uma voz que seja, portanto, audível e credível – ou seja, persuasiva – numa “época marcada pelo aumento das desigualdades, pela crescente desilusão com os modelos tradicionais de governação, pelo desencanto com o funcionamento da democracia, pelo aumento das tendências autocráticas e ditatoriais, pelo predomínio do modelo de mercado sem ter em conta a vulnerabilidade das pessoas e da criação, e pela tentação de resolver os conflitos através da força e não do diálogo”.

Sessão final do Sínodo, em outubro de 2024: “Praticado com humildade, o estilo sinodal pode fazer da Igreja uma voz profética no mundo de hoje” Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
“Somos chamados, estimulados, neste percurso sinodal, ao compromisso social com a justiça e a paz dos povos” e “a missão é de todos os batizados”, acrescenta a Comissão. O texto destaca ainda “o lugar preferencial para os pobres, os marginalizados e excluídos”, “o contributo essencial das mulheres movidas pelo Espírito”, e a particular sensibilidade dos jovens aos valores da fraternidade e da partilha.
Estabelecendo uma ponte entre a dimensão da ação e a dimensão celebrativa, a Comissão Justiça e Paz apela à renovação dos estilos de vida e o compromisso com o bem comum de toda a criação e diz que a eucaristia “deve deixar de ser rotina ou obrigação e tornar-se o alimento para a vida cristã”.
Ao terminar, este texto recomenda uma “leitura atenta” do Documento Final do Sínodo e as “propostas de mudança, portas e janelas abertas para a necessária renovação” da Igreja, que ele apresenta, e deixa um convite: “Agora é o tempo de, e não apenas nas paróquias, nas dioceses ou nos movimentos eclesiais, dar corpo e vida ao Documento Final, o resumo de quatro anos de escuta e reflexão, tornando-o mais um impulsionador da nova etapa de um processo sinodal que concretiza um desafio do Concílio Vaticano II sobre a construção de uma Igreja menos piramidal e mais Corpo de Cristo, em que todos os membros, mesmo diferentes, se sentem incluídos, participantes e responsáveis da missão evangelizadora”.
Assembleia faz propostas para Igreja sinodal

Assembleia diocesana sinodal de Braga: “Como concretizar a sinodalidade na vida das comunidades?”, perguntou a assembleia. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS
Foi precisamente para avançar nesse “dar corpo” a uma Igreja sinodal que a Arquidiocese de Braga se reuniu pela quarta vez, no último fim de semana, em Assembleia Sinodal livre e aberta, para a qual “foram convidados todos e alguns responderam”, como referiu o arcebispo José Cordeiro.
A Assembleia teve início na Capela da Imaculada, com uma oração e palavras de boas-vindas do prelado. Seguiu-se uma apresentação do Documento Final do Sínodo, que coube ao cónego Eduardo Duque (que já havia feito esse trabalho em janeiro, em Fátima, no encontro nacional das comissões pastorais diocesanas).
Os participantes distribuíram-se, depois, por 17 grupos, cada qual com sete pessoas e constituídos aleatoriamente. Cada grupo teve apenas uma pergunta como motivo de partilha e reflexão: “Como concretizar a sinodalidade na vida das comunidades?”
As respostas que surgiram no plenário final foram bastante diversificadas. Depois de, há escassas semanas, o arcebispo bracarense ter aprovado e publicado um modelo de estatutos para os conselhos pastorais de âmbito paroquial ou de unidades pastorais, este tema foi o escolhido por alguns grupos. Um deles propôs que tais conselhos não tenham apenas um papel consultivo do pároco, que preside, mas também deliberativo, em resultado de um processo de discernimento em que todos participam, incluindo o pároco.
Outras propostas referiram a Eucaristia como centro da vida cristã, com o que implica de formação para a sua vivência, de momento de congregação e, também, de oportunidade para o encontro e a convivência, “à volta de um cafezinho e de um bolinho”, em tempos a criar a seguir à celebração.
Foi também sugerida a criação de grupos de jovens para irem ao encontro dos isolados, idosos e migrantes e para visitar os doentes; e, no mesmo registo, desenvolver a atenção às “realidades concretas da vida do povo de Deus – a família, o trabalho, o estudo, a vida associativa”.

Peça concebida pelo artista plástico norueguês Asbjørn Andresen para a Capela Árvore da Vida, em Braga: a Eucaristia como centro da vida cristã, com o que implica de oportunidade para o encontro foi uma das sugestões. Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
A vida paroquial, segundo outros grupos, deveria ser dinamizada através de uma maior presença de seminaristas e pessoas consagradas e de iniciativas específicas diversas. Alguns grupos sublinharam os convívios, passeios e dias paroquiais, enquanto outros, preocupados com a escuta e a “conversação espiritual”, entendiam que esta dimensão constitutiva da Igreja deveria ser objeto de assembleias paroquiais, quer de toda a comunidade, quer de diferentes grupos etários ou setores de atividade.
Registaram-se ainda sugestões de promover uma melhor comunicação na paróquia, tirando partido dos meios digitais e de cultivar tempos para a oração e o silêncio.
Refira-se que estas sugestões emergiram dos grupos que seguiram a metodologia da “conversação espiritual” e das suas “rondas”, a exemplo do que se passou nas assembleias do Sínodo em Roma. No livreto recebido, cada participante encontrava uma apresentação sumária dos procedimentos. O grupo começava por escolher um coordenador e um secretário. Este recebia uma ficha com espaços para a enunciação de cinco propostas de concretização da sinodalidade na sua comunidade.
Na primeira ronda, cada participante tinha até dois minutos para partilhar as suas reflexões sobre a pergunta colocada ao grupo; todos falavam na sua vez e ninguém interrompia. Seguiam-se três minutos de silêncio. Na segunda ronda, os procedimentos eram análogos, mas cada qual sublinhava o que o tocou ou questionou na intervenção dos seus pares. Após os três minutos de silêncio, iniciava-se a terceira ronda, de natureza menos rígida quanto às intervenções. Ao longo de 30 minutos todos eram convidados a dar conta dos aspetos comuns mais destacados e/ou novos e também questões ou mesmo divergências que ficaram enunciadas, mas sem resolução. Esta etapa supõe apurar quer a escuta quer o diálogo e chegar a uma síntese em que o grupo se reconheça.
De anotar, como notas críticas e sugestivas, escutadas entre alguns participantes nesta IV Assembleia, dois aspetos: a gestão do tempo deixou pouca folga para um trabalho de grupo pausado e de qualidade. Por outro lado, o local manifestamente não era convidativo ao silêncio e à partilha (frio e ruído), tornando mesmo difícil acompanhar o que diziam os porta-vozes dos grupos. Tanto um como outro aspeto poderão ter comprometido o tempo do debate, no final. Ninguém se sentiu motivado para intervir, quando havia matérias para tal.
(Foto de destaque © Shutterstock)










