Os acontecimentos sobre abusos sexuais e espirituais e sobre encobrimento continuam a fazer estragos na Igreja de Inglaterra (Comunhão Anglicana). No início do mês, o bispo de Liverpool viu-se forçado a demitir-se na sequência de acusações de ter abusado de uma mulher e de ter assediado uma colega no episcopado. Agora foi a vez de o antigo e polémico arcebispo de Cantuária, lorde George Carey, e o bispo emérito de Durham, Paul Butler, estarem em risco de responder disciplinarmente, relativamente ao mega-caso de um abusador contumaz, cujo relatório (conhecido por relatório Makin) abalou, em novembro último, aquela Igreja. [ver 7MARGENS]
A medida, que se estende a mais oito clérigos, foi proposta pela Equipa Nacional de Salvaguarda daquela confissão cristã, caso o presidente dos tribunais venha a permitir que o código disciplinar do clero seja aplicado, ainda que fora dos prazos estabelecidos.
George Carey, que exerceu o cargo de arcebispo de Cantuária de 1991 a 2002, já se tinha demitido do estatuto de honorário em 2017, em resposta a um pedido, considerado inédito, do titular desse cargo, Justin Welby. Além disso, segundo relata o La Croix International, o mesmo Carey, atualmente com 89 anos, abdicou também em dezembro passado da condição de padre, depois de ser conhecida uma investigação que o acusa de não ter comunicado à polícia alegações de abusos sexuais contra um bispo, de que tomou conhecimento quando era responsável da instituição.
Foi também pelo mesmo caso que Justin Welby se viu forçado a resignar em novembro último, do cargo de arcebispo de Cantuária, o líder espiritual da Comunhão Anglicana. Welby foi também acusado de não ter dado conhecimento do que soube acerca do mesmo processo em 2013, como era obrigado a fazer.
A Equipa Nacional, que trata dos casos de abuso e encobrimento trabalhou sobre dez casos de clérigos nomeados no referido Relatório Makin (do nome do perito que o elaborou), tendo desenvolvido diligências em várias etapas, que foram posteriormente validadas por um advogado independente. Esses casos, que incluem os dois bispos, referem-se a casos de pessoas que estão ainda dentro dos prazos para poderem ser processadas. Há ainda dois presbíteros que estão também indiciados, mas que se encontram a responder noutros processos.
Uma bispa queixosa

John Perumbalath, bispo de Liverpool, recusa as acusações de que é alvo. Foto © Ben Anu, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
No caso do bispo de Liverpool, John Perumbalath, ele divulgou uma declaração quando foi abordado por uma equipa de reportagem do Channel 4 News, que o informou que estava a preparar um trabalho com alegações de comportamento inadequado que teria tido contra duas mulheres.
Segundo a declaração, o bispo mantém que as alegações, feitas em 2023, foram investigadas e consideradas sem fundamento pela Equipa Nacional de Salvaguarda da Igreja de Inglaterra. Um dos casos teria sido também investigado pela polícia, sem que daí tivesse resultado qualquer ação contra ele. “Apesar disso, os relatos dos média trataram-me como culpado por todas as acusações e trataram essas alegações como factos”, acrescentou o prelado, que disse resignar para não se tornar motivo de “distração”.
No entanto, a bispa alegadamente objeto de assédio (Bev Mason, bispa de Warrington), perante o desmentido, veio assumir publicamente a sua condição de vítima e lamentar a forma como a sua Igreja – neste caso, a equipa que apreciou a sua denúncia – lidou com a situação. Do seu ponto de vista, deveria ter sido aberto o adequado processo judicial eclesiástico, já que “um bispo não pode estar acima da lei”. No entanto, isso não foi entendido necessário, o que leva a bispa queixosa a alegar que, neste caso, não foram assegurados os direitos nem da queixosa nem da pessoa objeto da queixa, que nega ter havido abuso. Nenhuma das partes pôde aduzir as suas razões perante um juiz, afirma ela.
A Igreja deveria ter uma “conversa mais aberta” sobre a misoginia enfrentada pelo clero feminino, acrescenta a bispa.
(Foto de destaque: ex-arcebispos de Cantuária, George Carey, à esquerda, e Justin Welby, estão no centro das polémicas surgidas. Direitos reservados)










