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[Sob o “controle político” do coração © fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Sob o “controlo político” do coração

| 03/03/2025

[domingo viii do tempo comum – c 2025]

[terás coração cego? / palavras mascaradas? / − enxerta teu tesouro © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[terás coração cego? / palavras mascaradas? / − enxerta teu tesouro. Haiku e fotografia © Joaquim Félix]

  1. Do bom tesouro do seu coração,
    Deus tira para os nossos ouvidos palavras luminosas.
    É com elas que descega os ouvidos de quem escuta,
    e, na semelhança de lentes progressivas,
    cuida da limpidez dos olhares anuviados nas trampas contemporâneas.
    Efetivamente, como refere Pepe Llorente
    – ator, músico, professor de interpretação, vencedor do Prémio Goya –:
    «estamos num momento da história com tanta escuridão e tanta dor»,
    cujos sinais são de «tempos loucos»,
    pelo que «as pessoas precisam de fugir da escuridão e buscar a luz».
  1. Na filigrana dos dias,
    tecida com perseverantes orações pelo Papa Francisco,
    esperamos notícias da evolução do seu estado de saúde.
    Na filigrana dos dias,
    assistimos a uma humilhante discussão pública
    – em plena Sala Oval da Casa Branca –
    na qual até um jornalista implicou com Zelensky por não usar fato.

Na filigrana dos dias,
alastra-se a violência familiar e a conflituosidade mundial.
Os horrores praticados alguns dos quais longe dos ecrãs
alertam-nos para o que Jesus diz aos seus discípulos,
isto é, que «o homem mau,
da sua maldade tira o mal» (Lc 6,45)
Como havemos então de procurar a luz?
De que forma poderemos combater a cegueira do mal,
investindo mais no tesouro do nosso coração,
para tirar o bem para a vida da fraternidade universal?

[Na filigrana dos dias © fotografia: Joaquim Félix]

[Na filigrana dos dias. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. Evocando palavras da última encíclica do Papa Francisco,
    creio que com ele estaremos de acordo, quando escreve:
    «é necessário que todas as ações sejam colocadas
    sob o “controle político” do coração,
    que a agressividade e os desejos obsessivos
    sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece
    e na força que ele tem contra os males» (Dilexit nos, n.13).
    O chamado «sermão da planície» (Lc 6,17-49),
    que temos escutado durante os três últimos domingos,
    pode libertar-nos da espiral maléfica,
    colocando-nos sob o influxo do amor,
    que contempla e, inexplicavelmente, transforma os inimigos.
    Claro, sem instrumentalizar a ordem do amor segundo Jesus,
    ordem esta que exclui enviesadas argumentações teológicas,
    para justificar, por exemplo, a deportação em massa de imigrantes,
    contra a qual se manifestaram os bispos dos EUA e o Papa Francisco.

[Sob o “controle político” do coração © fotografia: Joaquim Félix]

[Sob o “controle político” do coração. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. A este propósito, gostaria de recordar o que se passou,
    há duas semanas atrás, durante a homilia numa missa.
    Nela, escutou-se a passagem da cura da filha da sirofenícia,
    estrangeira, portanto (cf. Mc 7,24-30).
    No final da homilia, o padre voltou-se para uma mulher
    e convidou-a a dizer algo, caso assim entendesse.
    Ela, de forma confiante e alegre, tomou a palavra.
    E, numa breve intervenção,
    salientou a importância desta e de outras mulheres na vida de Cristo.
    Segundo ela, a mãe sirofenícia terá ‘expandido’ o horizonte de Jesus,
    cuja ordem do amor, pela resposta que lhe dá,
    ainda estaria em sintonia com os critérios judaicos.
    De facto, a resposta que Jesus lhe transmite é esta:
    «Deixa primeiro que os filhos estejam saciados,
    pois não está certo tirar o pão dos filhos
    para o lançar aos cachorrinhos» (Mc 7,27).
    Porém, depois que a mulher lhe disse: «Senhor,
    também é verdade que os cachorrinhos
    comem debaixo da mesa as migalhas das crianças» (Mc 7,28),
    Jesus confirmou-a, dizendo-lhe: «Dizes muito bem» (Mc 7,29).
    A mulher voltou para sua casa e encontrou a filha curada.

[Não há cálice que não transborde © fotografia: Joaquim Félix]

[Não há cálice que não transborde. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. Centremo-nos agora no «sermão da planície».
    Na parte final desta instrução, que aliás é bem longa,
    as sentenças de Jesus parecem reunidas ao estilo dos livros sapienciais,
    como sucede, por exemplo, no livro de Ben-Sirá.
    Na verdade, como pensam alguns biblistas,
    tais ditos poderão ter pertencido a contextos e momentos diversos.
    Como quer que seja, Jesus aparece aqui a instruir os discípulos,
    diante de uma grande multidão, formada por muitos estrangeiros.
  1. «Poderá um cego guiar outro cego?
    Não cairão os dois nalguma cova?» (Lc 6,6).
    Responderemos: «Dificilmente» e, depois, «Por certo».
    De que cegueira estará Jesus a falar?
    É provável que esteja a referir-se a todos aqueles
    que se fazem passar por mestres e gostam de ser assim tratados,
    mas que, no fundo, não passam de falsos rabis.
    Na verdade, Jesus salientou isto numa outra ocasião:
    «Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’,
    Porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos» (Mt 23,8).
    E o discípulo, para ser perfeito,
    não pode superiorizar-se ao seu Mestre; antes, deve ser como ele.
    Só Jesus, verdadeiro guia, pode conduzir os discípulos,
    livrando-os de cair na cegueira da supremacia,
    da lógica do poder, das armas, das cartas e do abismo das covas.

[«És livre?» XXIII Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira (2024); obra em exposição © fotografia: Joaquim Félix]

[«És livre?» XXIII Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira (2024); obra em exposição. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. Sendo todos irmãos, como recorda Jesus,
    também ninguém se pode superiorizar na planície da fraternidade.
    Tão-pouco, com irrespeitosa ironia no trato,
    poderá dizer a quem quer que seja:
    «Irmão, deixa-me tirar o argueiro que tens na vista» (Lc 6,42).
    Com efeito, tomando por referência as palavras de Jesus,
    há pessoas que, por vezes, estão cheias de lixo nos olhos,
    que só veem mal nos outros, inclusive os insignificantes defeitos.
    Os preconceitos, sejam de que ordem for, são traves
    que toldam o olhar ao ponto de originarem graves injustiças.
    Somente quem tiver o olhar limpo – como a lâmpada do íntimo –
    poderá desenvolver, com delicadeza, a correção fraterna.
    Não é isso que Jesus faz connosco, discípulos, e todos os demais?
    Transfiguremos o nosso olhar em Cristo e passaremos a ver melhor.
    Enxertemos n’Ele o nosso coração e curaremos as nossas palavras.

[Não se colhem figos dos espinheiros © fotografia: Joaquim Félix]

[Não se colhem figos dos espinheiros. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. «Não há árvore boa que dê mau fruto,
    nem árvore má que dê bom fruto.
    Cada árvore conhece-se pelo seu fruto:
    não se colhem figos dos espinheiros,
    nem se apanham uvas das sarças» (Lc 6,43-44).
    Na sabedoria destes ditos, típicos de um experiente agricultor,
    Jesus faz como que paráfrases da sentença de Ben-Sirá:
    «O fruto da árvore manifesta a qualidade do campo:
    assim as palavras do homem revelam os seus sentimentos» (Sir 27,6).
    Oh, e como me lembro de uma pastora, nos Casais de Folgosinho,
    a dizer que, pelo coalho, adivinhava a fraga na qual as ovelhas pastaram!
    Assim se poderão apreciar as pessoas, desde o seu íntimo:
    quem faz do seu coração um bom tesouro, falará bem;
    quem cuida mal do coração, sacrificando-o a dominações políticas,
    ou não o acorda com o seu Mestre, cegará e cairá na primeira cova.

[Nem se apanham uvas das sarças © fotografia: Joaquim Félix]

[Nem se apanham uvas das sarças. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. «Coração cego, palavras mascaradas»;
    eis um dos advérbios do dia.
    Pois bem, para que possamos purificar o nosso coração,
    no coração de Jesus – coração manso e humilde – ,
    procuremos fazer da Palavra que ouvimos
    o crivo que nos limpa das impurezas e dos defeitos.
    Mais, que o fogo do coração de Jesus seja o forno
    que nos prova como aos vasos do oleiro,
    como aqueles que, polvilhados de sal, são feitos em grés.

[Vasos em grés produzidos nos antigos fornos da cerâmica Jerónimo Pereira Campos, Filhos, Lda, Alvarães, Viana do Castelo © fotografia: Joaquim Félix]

[Vasos em grés produzidos nos antigos fornos da cerâmica Jerónimo Pereira Campos, Filhos, Lda, Alvarães, Viana do Castelo. Fotografia © Joaquim Félix]

  1. Celebramos hoje o sétimo dia da morte do cónego Tinoco,
    habitante desta casa, que nos deixou de forma muito rápida;
    ele que desempenhou, durante décadas, serviços de direção e reitoria
    nos seminários arquidiocesanos de Braga.
    Com ele, sobretudo no Seminário de Nossa Senhora da Conceição,
    mudaram-se paradigmas, a partir da leitura dos sinais dos tempos.
    Não só pela sua Carta de Consciência, lida o seu funeral,
    ficámos a saber que foi um homem provado no forno do sofrimento.
    Por ele rezamos, louvando a sua vida, e damos graças a Deus,
    «que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo» (1Cor 15,57).
    A sua morte foi, também, absorvida na vitória de Cristo.
    Que descanse em Paz!

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