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UNICEF Moradores viajam de motocicleta pelos restos de prédios desabados em Nay Pyi Taw, Mianmar
Habitantes de Myanmar viajam de mota entre os restos de prédios desabados em Nay Pyi Taw. Foto © UNICEF

Apelos da ONU e da Igreja

Entre ruínas e bombas, Myanmar precisa de ajuda humanitária… e de paz

| 01/04/2025

Numa altura em que não se conhece ainda a dimensão real da destruição provocada pelo sismo da passada sexta-feira em Myanmar, e em que as equipas de resgate continuam a trabalhar arduamente para lidar com as dezenas de milhar de pessoas feridas, desabrigadas e soterradas pelos escombros, o país precisa urgentemente de duas coisas: ajuda humanitária e uma trégua nas hostilidades entre grupos armados. O apelo é feito pelos responsáveis da ONU e pelos líderes da Igreja Católica, mas os bombardeamentos prosseguem, e dificultam muito que a ajuda chegue.

Aquele que terá sido o desastre natural mais catastrófico que Myanmar sofreu em quase dois séculos ocorreu em plena guerra civil entre a junta militar governante, que assumiu o poder em 2021, e os grupos rebeldes que a combatem. E apesar de a dimensão do desastre – que provocou mais de 2.700 mortos – ter levado o governo militar a fazer um raro apelo por assistência internacional, a verdade é que os confrontos, que já duram há mais de quatro anos, não pararam.

De acordo com a BBC, o governo militar continuou a bombardear partes de Myanmar, mesmo quando o Governo de Unidade Nacional (NUG), da oposição, anunciou um cessar-fogo parcial unilateral para ajudar nos esforços de resgate. Ataques aéreos foram relatados em diversos pontos do país, tendo um deles ocorrido menos de três horas após o terramoto e provocado sete mortos. Grupos rebeldes pró-democracia  relataram bombardeamentos aéreos no município de Chang-U, na região noroeste de Sagaing, o epicentro do terramoto, durante o fim de semana, e outros em regiões próximas da fronteira com a Tailândia. Os militares terão também realizado ataques terrestres já nesta segunda-feira, 31, na mesma região, onde os rebeldes relataram ter sido alvo de pesados bombardeamentos de morteiros.

A ONU descreveu estes ataques como “completamente ultrajantes e inaceitáveis”, pedindo à junta que interrompa imediatamente todas as suas operações militares. O cardeal Charles Bo, arcebispo de Rangum e presidente da Conferência dos Bispos Católicos de Mianmar, reforçou este pedido. “Apelei a todos os envolvidos por apoio humanitário urgente e acesso irrestrito às pessoas afetadas. Fiz um apelo sincero por cessar-fogo a todos os grupos hostis”, disse em entrevista ao Vatican News. “As pessoas precisam de comida, abrigo, remédios e todos os materiais que salvam vidas. Mas, mais do que tudo, o nosso povo precisa de paz, não da ansiedade agitada desencadeada pela crise multidimensional”, enfatizou Bo.

O cardeal, que viajava de carro na altura em que se deu o sismo, recorda o medo que sentiu: “Estava a regressar de Taunggyi, a passar pelos arredores da capital, Nay Pyi Taw, onde a maioria das mortes e destruição aconteceram. Enquanto lutávamos no meio ao trânsito congestionado para nos movimentarmos, vimos enormes crateras criadas na estrada… O nosso carro movia-se descontroladamente, assim como todos os outros veículos. Foi um momento assustador para todos nós”.

Na opinião do arcebispo de Rangum, a reconciliação, o diálogo e a paz continuam a ser “a única solução” para a devastação que atravessa o país. No entanto, a junta militar continua a não seguir essa via e, neste momento, o melhor canal para levar assistência aos necessitados passa por grupos ligados à Igreja Católica, explica. O cardeal revela que ele próprio ativou “um plano para responder à emergência” chamado MERCI (sigla inglesa para Iniciativa da Igreja em Resposta ao Terremoto em Mianmar) e convocou uma reunião entre os líderes da Igreja e os funcionários da Caritas de todas as áreas afetadas. A Cáritas nacional e os escritórios diocesanos foram acionados para intervir na diocese de Mandalay, que é a mais afetada, a fim de responder rapidamente às necessidades, em colaboração com as autoridades locais, os líderes de outras religiões e as organizações humanitárias.

 

Um pedido de ajuda surpreendente e revelador

Johanna Chardonnieras, coordenadora da ONG Info Birmanie, uma organização dedicada à promoção da paz e à proteção dos direitos humanos em Myanmar, também falou aos média do Vaticano: “O pedido de ajuda da junta militar surpreendeu um pouco a todos, mas isso também nos dá a noção do nível de devastação que atingiu o país e que ainda não é possível quantificar em sua totalidade”, sublinha.

Myanmar, observa Johanna Chardonnieras, é um país que já estava em emergência humanitária antes do terramoto. “Diante de uma catástrofe desta magnitude, é importante não recorrer apenas à junta para a gestão da ajuda humanitária, até porque apenas 40% do território birmanês está sob seu controle direto”, assinala. E com o país a continuar “claramente em guerra”, será ainda mais difícil recuperar. “Infelizmente, muitas pessoas perderam tudo além das suas casas, principalmente na área de Mandalay. Encontrar novas casas num país em guerra e devastado por uma grave crise económica com inflação fora de controlo torna-se muito difícil”, alerta.

Na mesma linha, a enviada especial da ONU para Myanmar, Julie Bishop, voltou a insistir esta segunda-feira na importância de um cessar imediato das hostilidades. “Continuar as operações militares em áreas afetadas por desastres eleva o risco de uma maior perda de vidas” e prejudica as operações de socorro, afirmou. “O acesso seguro e desimpedido às populações e áreas afetadas deve ser fornecido por todos os canais e atores disponíveis, de acordo com os princípios humanitários internacionais e independentemente do controlo territorial. Os socorristas comunitários — muitos a operar em áreas de difícil acesso — vão desempenhar um papel fundamental nos próximos dias”, acrescentou.

A enviada da ONU fez ainda saber que vai regressar à região “muito em breve” para defender uma “resposta coerente, inclusiva e baseada em princípios” às consequências do terramoto e às crescentes implicações regionais da crise política.

Quanto ao arcebispo de Rangum, não perde a esperança e assegura a proximidade da Igreja ao país: “Sentimos a dor das pessoas. Estaremos ao lado de todos neste momento de dor para ajudar a curar as feridas. Demonstrámos isso depois do tsunami, demonstrámos isso depois do ciclone Nargis, e superaremos esta crise também, porque a compaixão é a religião comum em tempos de desastres naturais”.

 

Salesianos lançam campanha para ajudar comunidade em Mandalay

A Comunidade de Dom Bosco, em Mandalay, Myanmar, foi gravemente afetada pelo recente sismo

A Comunidade de Dom Bosco, em Mandalay, Myanmar, foi gravemente afetada pelo recente sismo. Foto © Salesianos

 

Já esta terça-feira, 1 de abril, a Missão Dom Bosco – Fundo Solidário Salesiano anunciou ter lançado a campanha de solidariedade “Pelos Jovens de Mandalay: um Futuro para Myanmar”, que visa apoiar a reconstrução da Comunidade de Dom Bosco, em Mandalay, gravemente afetada pelo recente sismo.

“A catástrofe natural comprometeu infraestruturas essenciais, colocando em risco o bem-estar e, consequentemente, o futuro dos cerca de 50 jovens acolhidos naquele espaço”, informam os Salesianos em comunicado enviado ao 7MARGENS.

Com o objetivo de dar resposta ao pedido urgente dos Salesianos de Mandalay, esta iniciativa “visa angariar fundos para a reconstrução das infraestruturas afetadas, incluindo os dormitórios, o refeitório, a capela e as salas de aula; garantir condições seguras e dignas para os jovens e para a comunidade salesiana; apoiar as atividades educativas, essenciais para a formação e para o desenvolvimento dos jovens”, pode ler-se na nota.

Os donativos podem ser feitos diretamente na página oficial da campanha.

 

Notícia atualizada às 16h50, com os dados relativos à campanha dos Salesianos.

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