Numa altura em que não se conhece ainda a dimensão real da destruição provocada pelo sismo da passada sexta-feira em Myanmar, e em que as equipas de resgate continuam a trabalhar arduamente para lidar com as dezenas de milhar de pessoas feridas, desabrigadas e soterradas pelos escombros, o país precisa urgentemente de duas coisas: ajuda humanitária e uma trégua nas hostilidades entre grupos armados. O apelo é feito pelos responsáveis da ONU e pelos líderes da Igreja Católica, mas os bombardeamentos prosseguem, e dificultam muito que a ajuda chegue.
Aquele que terá sido o desastre natural mais catastrófico que Myanmar sofreu em quase dois séculos ocorreu em plena guerra civil entre a junta militar governante, que assumiu o poder em 2021, e os grupos rebeldes que a combatem. E apesar de a dimensão do desastre – que provocou mais de 2.700 mortos – ter levado o governo militar a fazer um raro apelo por assistência internacional, a verdade é que os confrontos, que já duram há mais de quatro anos, não pararam.
De acordo com a BBC, o governo militar continuou a bombardear partes de Myanmar, mesmo quando o Governo de Unidade Nacional (NUG), da oposição, anunciou um cessar-fogo parcial unilateral para ajudar nos esforços de resgate. Ataques aéreos foram relatados em diversos pontos do país, tendo um deles ocorrido menos de três horas após o terramoto e provocado sete mortos. Grupos rebeldes pró-democracia relataram bombardeamentos aéreos no município de Chang-U, na região noroeste de Sagaing, o epicentro do terramoto, durante o fim de semana, e outros em regiões próximas da fronteira com a Tailândia. Os militares terão também realizado ataques terrestres já nesta segunda-feira, 31, na mesma região, onde os rebeldes relataram ter sido alvo de pesados bombardeamentos de morteiros.
A ONU descreveu estes ataques como “completamente ultrajantes e inaceitáveis”, pedindo à junta que interrompa imediatamente todas as suas operações militares. O cardeal Charles Bo, arcebispo de Rangum e presidente da Conferência dos Bispos Católicos de Mianmar, reforçou este pedido. “Apelei a todos os envolvidos por apoio humanitário urgente e acesso irrestrito às pessoas afetadas. Fiz um apelo sincero por cessar-fogo a todos os grupos hostis”, disse em entrevista ao Vatican News. “As pessoas precisam de comida, abrigo, remédios e todos os materiais que salvam vidas. Mas, mais do que tudo, o nosso povo precisa de paz, não da ansiedade agitada desencadeada pela crise multidimensional”, enfatizou Bo.
O cardeal, que viajava de carro na altura em que se deu o sismo, recorda o medo que sentiu: “Estava a regressar de Taunggyi, a passar pelos arredores da capital, Nay Pyi Taw, onde a maioria das mortes e destruição aconteceram. Enquanto lutávamos no meio ao trânsito congestionado para nos movimentarmos, vimos enormes crateras criadas na estrada… O nosso carro movia-se descontroladamente, assim como todos os outros veículos. Foi um momento assustador para todos nós”.
Na opinião do arcebispo de Rangum, a reconciliação, o diálogo e a paz continuam a ser “a única solução” para a devastação que atravessa o país. No entanto, a junta militar continua a não seguir essa via e, neste momento, o melhor canal para levar assistência aos necessitados passa por grupos ligados à Igreja Católica, explica. O cardeal revela que ele próprio ativou “um plano para responder à emergência” chamado MERCI (sigla inglesa para Iniciativa da Igreja em Resposta ao Terremoto em Mianmar) e convocou uma reunião entre os líderes da Igreja e os funcionários da Caritas de todas as áreas afetadas. A Cáritas nacional e os escritórios diocesanos foram acionados para intervir na diocese de Mandalay, que é a mais afetada, a fim de responder rapidamente às necessidades, em colaboração com as autoridades locais, os líderes de outras religiões e as organizações humanitárias.
Um pedido de ajuda surpreendente e revelador
Johanna Chardonnieras, coordenadora da ONG Info Birmanie, uma organização dedicada à promoção da paz e à proteção dos direitos humanos em Myanmar, também falou aos média do Vaticano: “O pedido de ajuda da junta militar surpreendeu um pouco a todos, mas isso também nos dá a noção do nível de devastação que atingiu o país e que ainda não é possível quantificar em sua totalidade”, sublinha.
Myanmar, observa Johanna Chardonnieras, é um país que já estava em emergência humanitária antes do terramoto. “Diante de uma catástrofe desta magnitude, é importante não recorrer apenas à junta para a gestão da ajuda humanitária, até porque apenas 40% do território birmanês está sob seu controle direto”, assinala. E com o país a continuar “claramente em guerra”, será ainda mais difícil recuperar. “Infelizmente, muitas pessoas perderam tudo além das suas casas, principalmente na área de Mandalay. Encontrar novas casas num país em guerra e devastado por uma grave crise económica com inflação fora de controlo torna-se muito difícil”, alerta.
Na mesma linha, a enviada especial da ONU para Myanmar, Julie Bishop, voltou a insistir esta segunda-feira na importância de um cessar imediato das hostilidades. “Continuar as operações militares em áreas afetadas por desastres eleva o risco de uma maior perda de vidas” e prejudica as operações de socorro, afirmou. “O acesso seguro e desimpedido às populações e áreas afetadas deve ser fornecido por todos os canais e atores disponíveis, de acordo com os princípios humanitários internacionais e independentemente do controlo territorial. Os socorristas comunitários — muitos a operar em áreas de difícil acesso — vão desempenhar um papel fundamental nos próximos dias”, acrescentou.
A enviada da ONU fez ainda saber que vai regressar à região “muito em breve” para defender uma “resposta coerente, inclusiva e baseada em princípios” às consequências do terramoto e às crescentes implicações regionais da crise política.
Quanto ao arcebispo de Rangum, não perde a esperança e assegura a proximidade da Igreja ao país: “Sentimos a dor das pessoas. Estaremos ao lado de todos neste momento de dor para ajudar a curar as feridas. Demonstrámos isso depois do tsunami, demonstrámos isso depois do ciclone Nargis, e superaremos esta crise também, porque a compaixão é a religião comum em tempos de desastres naturais”.
Salesianos lançam campanha para ajudar comunidade em Mandalay

A Comunidade de Dom Bosco, em Mandalay, Myanmar, foi gravemente afetada pelo recente sismo. Foto © Salesianos
Já esta terça-feira, 1 de abril, a Missão Dom Bosco – Fundo Solidário Salesiano anunciou ter lançado a campanha de solidariedade “Pelos Jovens de Mandalay: um Futuro para Myanmar”, que visa apoiar a reconstrução da Comunidade de Dom Bosco, em Mandalay, gravemente afetada pelo recente sismo.
“A catástrofe natural comprometeu infraestruturas essenciais, colocando em risco o bem-estar e, consequentemente, o futuro dos cerca de 50 jovens acolhidos naquele espaço”, informam os Salesianos em comunicado enviado ao 7MARGENS.
Com o objetivo de dar resposta ao pedido urgente dos Salesianos de Mandalay, esta iniciativa “visa angariar fundos para a reconstrução das infraestruturas afetadas, incluindo os dormitórios, o refeitório, a capela e as salas de aula; garantir condições seguras e dignas para os jovens e para a comunidade salesiana; apoiar as atividades educativas, essenciais para a formação e para o desenvolvimento dos jovens”, pode ler-se na nota.
Os donativos podem ser feitos diretamente na página oficial da campanha.
Notícia atualizada às 16h50, com os dados relativos à campanha dos Salesianos.










