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D. Manuel Martins, o defensor de Setúbal que partiu há dois anos

| 27/09/2019

D. Manuel Martins, o defensor de Setúbal que partiu há dois anos

by | 27 Set 19 | Entre Margens, Últimas

D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal (1975-1998). Foto © Luís Filipe Santos/cedida pelo autor

 

No passado dia 24, terça-feira, fez dois anos que D. Manuel Martins partiu deste mundo. Para todos os que o admiramos, ele não nos deixou, apenas se transformou a dimensão em que esteve, neste mundo, durante 90 anos – 23 dos quais na região de Setúbal. No dia 26 de outubro de 1975, disse que passaria a ser de Setúbal. Nunca mais deixou de o ser, mesmo quando, a 23 de abril de 1998, deixou a missão que o trouxe do Porto para a nossa terra. Quando vinha de visita, algumas vezes o ouvi dizer: “Sempre que aqui venho, invade-me a sensação de que nunca me fui embora.”

Sou testemunha do quanto ele amava a nossa região e as suas gentes. Como não pôde deslocar-se, aquando da investidura dos “Embaixadores do Concelho de Setúbal”, a Presidente da Câmara Municipal encarregou-me de lhe entregar o diploma e a “mala” com os utensílios para o desempenho da sua nova função. Fi-lo 12 dias antes da sua morte. Ele já estava muito fragilizado. Quis aproveitar o momento para aumentar o seu ânimo, inventando uma encenação. Pedi-lhe que se levantasse para lhe entregar o diploma e repetisse o juramento com as palavras que eu fosse pronunciando. Olhou-me surpreendido. Comecei a pronunciar a fórmula de compromisso imaginada, por mim, na ocasião: “Juro que, onde e com quem estiver sempre defenderei Setúbal”. Retorquiu de imediato: “Ainda mais” ?

Que se apresente alguém que alguma vez o tivesse ouvido dizer mal da nossa região e sua diocese. A um dos muitos textos que escreveu deu o título “Amo muito a Diocese de Setúbal”. Que terminava assim: ““Uma coisa quero que fique muito clara: Amo muito a Diocese de Setúbal. Quero muito ao bom povo de Setúbal.”

Durante este tempo pré-eleitoral, quantas vezes tenho pensado no que ele diria aos candidatos. Tenho a certeza que voltaria a gritar-lhes o mesmo que fez a vários dos anteriores: “Há gritantes desigualdades por aqui; há desrespeitos enormes pelos mais elementares direitos humanos; há milhares de pessoas postas à margem da ‘mesa comum’ da felicidade minimamente desejável; há centenas e centenas de famílias (quantas delas jovens) que sempre terão a barraca como condenação; cresce o número de trabalhadores sem garantias; de idosos sem razões para sorrirem; de jovens sem futuro; de urbanizações sem equipamentos que as humanizem; de pessoas para quem nunca chega a vez de serem atendidas com um sorriso, nas bichas das procuras necessárias…” Diria também: “Com todos estes anos que tenho, vou-me convencendo que hei-de morrer sem entender por que razão, em política, a verdade não encontra lugar.”

“Que teria acontecido a Setúbal nos anos oitenta do século passado, se não tivesse tido um bispo que não se cansou de clamar por justiça e solidariedade?” Foto © Luís Filipe Santos/cedida pelo autor

 

Que teria acontecido a Setúbal nos anos oitenta do século passado, se não tivesse tido um bispo que não se cansou de clamar por justiça e solidariedade? Talvez o Plano de Emergência e a Operação Integrada de Desenvolvimento da Península de Setúbal nunca chegasse a vir em socorro de milhares de concidadãos nossos, martirizados pelo desemprego que os atirou para a pobreza e a região aguardaria mais tempo pelo seu crescimento económico e social. Setúbal tem, por isso, uma dívida de gratidão para com o seu primeiro bispo.

Manuel Martins não permitiria que eu mencionasse a palavra “dívida”, pois ele estava convencido que a sua postura era parte integrante da sua missão. Mas eu sei que os setubalenses o sentem como tal e, por isso, não deixarão que a sua pessoa e pensamento fiquem esquecidos.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Cáritas Portuguesa e dirigiu a Cáritas de Setúbal entre 1986 e 2016, onde trabalhou com D. Manuel Martins nos primeiros doze anos

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