E quando a irmã Teresa ali vai? “É uma maravilha, é o paraíso, parece que ficamos as duas coladas com a conversa.” Maria Helena Pereira não hesita em falar do bálsamo que chega a sua casa pelo menos uma tarde por semana para ajudar a sarar a vida sofrida que teve: a irmã Teresa Sousa, que está no Montijo há um ano, visita-a quase sempre para conversar e fazer-lhe companhia durante algum tempo. Integrando a congregação das irmãs da Apresentação de Maria, que esta semana está a assinalar os 100 anos da chegada a Portugal com um congresso internacional no Funchal (Madeira), a irmã Teresa também dá catequese e faz outras actividades na paróquia e não descansou enquanto não dinamizou dois grupos de pessoas para aprenderem a ler a Bíblia.
A casa de Maria Helena é um pequeno santuário de devoção e de memórias: colocada acima do televisor, uma grande fotografia do filho Artur, que morreu prematuramente, preside a um pequeno museu vivo de imagens religiosas: Jesus, a Senhora de Fátima, a Sagrada Família ou a Pietà, entre outras. “Cada imagem tem uma história”, diz, depois de apagar a televisão, quase sempre ligada no canal religioso Canção Nova.
Comove-se quando fala do filho. Artur era escuteiro, morreu de repente há 21 anos, tinha ele 27 na altura, deixando órfã uma bebé de 18 meses. Mas a comoção vem também quando refere o marido que nem sempre a tratou bem, os pais que teve de acompanhar em tratamentos nos hospitais ou o caminho da cruz que ela própria sofreu, por causa de um problema oncológico que a atingiu e a obrigou a renunciar ao emprego.
As imagens são, hoje, uma “razão” forte do seu viver. “Aquele que está na cruz é com quem eu converso todo o dia.” Ou a Senhora da Piedade, ou Pietà, por exemplo, oferta da cunhada no dia seguinte ao funeral: “Faz-me lembrar quando peguei no meu filho, no cemitério.”
Ao lado, o louceiro mostra mais fotos do filho, neta, nora, primos e de uma menina que ajudou a criar até aos sete anos e dos filhos que agora ela já tem. A neta, agora com 22 anos, na Madeira, é a menina dos olhos da avó. “Nunca deu um desgosto à avó, à mãe, a ninguém.”
Beata? Não me importo

Maria Helena com as pagelas e fotografias no quatro que era do filho e onde agora reza mensalmente uma novena. Foto © António Marujo/7MARGENS
No quarto que foi do filho, um pequeno santuário repousa em cima da cama: pagelas de Jesus, de santos e dos videntes de Fátima, livros de orações, fotos de crianças familiares ou com ligações próximas, de um miúdo ucraniano que pode cegar antes dos 20 anos… Junto dessas imagens, Maria Helena reza uma novena cada mês, entre os dias 9 e 17. “Alguns vizinhos chamam-me beata, mas não me importo.”
Antes, quando a vida era mais acompanhada, Maria Helena foi catequista durante uns 15 anos, na paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no bairro do Areias. Trabalhava como funcionária da limpeza num supermercado, como forma de ajudar a pagar despesas que tinha com a saúde dos pais e a sua própria. “Eu gostava muito de crianças, ainda hoje gosto.” Falava-lhes de Jesus como “o nosso maior amigo” e de como isso implica “ser amigo de todos”.
Quando a cirurgia e os tratamentos a obrigaram a deixar o emprego, Maria Helena foi chamada ao escritório no seu último dia de trabalho. “Estava cheio de gente de diferentes sectores. Deram-me um fio de ouro e disseram-me que era para saber que eu ficava no coração deles todos.”
Foi isto há mais de 30 anos, ainda o filho era vivo e a acompanhava ao hospital, tal como ela fazia com os pais – sobretudo com o pai, que se tornara alcoólico e só deixou de beber quando confrontado com a possibilidade de internamento. Acabou por “perder o tino”, tal como aconteceria com a mãe tempos depois.
Vida sofrida, que as visitas da irmã Teresa ajudam a minorar. Como também as da vizinha Maria José, a “Zezinha, nascemos na mesma rua”, que passa por ali com frequência, ou a cunhada, que cozinha para ela ou, antes de Teresa Sousa, o senhor Manuel, que vinha da paróquia dar a comunhão. E foi a acompanhá-lo que a irmã Teresa conheceu Maria Helena.
“O mar, grande e vasto”

Um dos grupos bíblicos dinamizados pela irmã Teresa (à direita): uma leitura que “desassossega”. Foto © António Marujo/7MARGENS
É do oposto ao sofrimento que fala o Salmo 104 que, duas horas depois, a irmã Teresa reza com as seis mulheres de um dos grupos bíblicos que dinamiza deste há meses, apesar do pouco apoio e de algumas resistências na paróquia. Cada uma lê um versículo, dão cinco voltas, que este é um dos mais extensos salmos da Bíblia.
“Como são grandes as tuas obras! Todas elas são fruto da tua sabedoria! A terra está cheia das tuas criaturas! Lá está o mar, grande e vasto”, canta este “hino ao Criador do universo”. “Todos esperam de ti que lhes dês comida a seu tempo. Dás-lhes o alimento, que eles recolhem, abres a tua mão e saciam-se do que é bom. (…) Cantarei ao Senhor, enquanto viver; louvarei o meu Deus, enquanto existir.”
“Os nossos antigos rezavam com estas palavras, nós continuamos a fazê-lo”, diz a irmã Teresa no final, antes de pedir: “Não arrumem a Bíblia até Setembro!”
Surgiu no início do ano, este grupo que inclui várias mulheres aposentadas, que exerceram profissões diversificadas: professora, médica, operária, costureira, doméstica e decoradora. Além da irmã Teresa Sousa, que foi também professora – no caso, de Educação Moral e Religiosa Católica, “sempre na escola pública”, faz questão de sublinhar.
As razões de adesão ao grupo – há um outro que reúne à noite e também inclui homens – foi diversificada: Isaura Costa, operária que trabalhou dos 11 aos 62 anos, diz que já tinha tido uma experiência destas, achou “interessante repetir”. “A Bíblia faz parte da minha fé”, diz, contando que passou, depois da catequese, por grupos de jovens e pela Liga Operária Católica. Hoje, visita também pessoas mais velhas.
Ana Bela Gonçalves, doméstica, tem um “grande fascínio” pela leitura do Novo Testamento, “mas não conhecia o Antigo Testamento”. Por isso sentiu “necessidade de conhecer” um para entender o outro. Conceição Guerreiro, que leccionou Geografia, também fala no “aprofundamento da fé” e num “conhecimento mais aprofundado” do texto bíblico como razões para aderir à ideia. Tal como Adélia Cardoso, que trabalhou em decoração e quer aprender mais, porque o que a irmã Teresa explica “é muito bom”, ou Lucília Lopes, costureira, que destaca o “desassossego” que a leitura da Bíblia lhe provoca.
“O bichinho da Bíblia”

“A Bíblia é o nosso maior tesouro”, diz a irmã Teresa Sousa no grupo. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Judite Aguiar, médica que veio de Angola, nunca pertencera antes a nada do género. E diz que achou muito interessante a ideia de ter um grupo para conhecer melhor a Bíblia, até porque com mais pessoas é mais eficaz.
“Tenho este bichinho da Bíblia”, confessa a irmã Teresa, que antes do Montijo esteve 20 anos em Samora Correia, três na Madeira e ainda algum tempo em França e em Roma, em trabalhos da congregação e actividades de formação. Na localidade ribatejana, mantém ainda o contacto com um grupo de mulheres, ligadas à congregação, a quem Teresa Sousa fez uma “provocação”: acabaram a fazer voluntariado de um mês em Nampula, Moçambique. Já lá vão sete anos e têm regressado anualmente. A experiência “muda completamente a maneira de olhar a vida”, dizem elas, de acordo com a religiosa. Durante esta semana, no congresso que assinala os 100 anos da presença da congregação em Portugal, também foram dar testemunho dessa experiência.
O gosto pelo texto bíblico e pelo seu aprofundamento nasceu com a participação em cursos e actividades dos franciscanos capuchinhos, e por isso achou que fazia falta criar essa dinâmica com pessoas da paróquia. Falou com o padre, que a dada altura fez um aviso no final da missa, para quem estivesse interessado.
“A Bíblia é o nosso maior tesouro, por isso devemos dar atenção à Palavra, a missa não é só a comunhão”, vai dizendo na conversa com o grupo. “É importante descobrir que é um todo, que está nela a história de um povo e da aliança de Deus com a humanidade.” Minutos depois, na conversa com o 7MARGENS, Teresa Sousa acrescenta que se tem dado da “muita ignorância” que há sobre a Bíblia.
“Tu? És a pior, a mais teimosa…”

A irmã Teresa conversando com Maria Helena, a quem visita pelo menos uma vez por semana: ““É uma maravilha, é o paraíso.” Foto © António Marujo/7MARGENS.
Nascida na Ponta do Sol, costa Sul da Madeira, Teresa Sousa perdeu o pai quando tinha 10 anos. A mãe viu-se de repente sozinha com os oito filhos, todos na escola. Havia já uma tia freira na congregação da Apresentação de Maria e que sugeriu que Teresa fosse estudar para o colégio das irmãs, no Funchal. Não imaginava a quantidade de aventuras e experiências que aí vinham.
Por volta dos 13/14 anos, viu-se a ser desafiada pelas colegas mais velhas que se preparava, para entrar na congregação e no noviciado, no continente. “És boa rapariga, vem connosco.” Foi aos 15 anos, não sem antes ouvir a mãe espantar-se: “Tu? És a pior, a mais teimosa…”
O noviciado era rigoroso, mas a jovem Teresa começou a gostar da experiência. “O que me tocava mais era o silêncio e a oração.” Em 1966, com 17 anos, fez a profissão religiosa e começava a sonhar com África. Na paróquia de Alcântara, onde iam trabalhar, cruzou-se com uma irmã que estava nessa altura em Moçambique. “Reza, reza, que um dia vais para lá.”
E foi. De Lisboa para Lourenço Marques, hoje Maputo, no Príncipe Perfeito, um mês de barco, mar e céu. Ainda fez escala no Funchal e pôde ver a mãe. Ficou uma semana na capital da então colónia, e reparou que o colégio da congregação era “só para brancas”. Apanhou depois outro barco para Nacala, no Norte, e daí seguiu de comboio para Nampula.
A cidade era um cetro militar, recorda. As freiras estavam no bairro de São Pedro, nos arredores, onde trabalhavam em colaboração com os Missionários Combonianos. Já com o bispo Manuel Vieira Pinto, que viria a dar dores de cabeça ao regime, colocado na diocese. Foi-lhe proposto ficar a dar aulas na escola que as irmãs dirigiam no bairro. Teresa não gostou. “Fui para a missão. Dormia nas palhotas, punha uma capulana, sentava-me no chão, comia com as mãos. Eu devo baixar-me ao nível das pessoas.”
Muitas vezes, ia pelo mato com os missionários, celebravam missa debaixo de árvores. O bispo Vieira Pinto já agitava as águas: “Ele punha os leigos a fazer homilias.” Uma semana antes de ser mandado pela PIDE, a polícia política do Estado Novo, de volta para Portugal, o bispo esteve uma semana em casa das religiosas.
Parêntesis, falando de missionários, religiosas e freiras: “O conceito de consagrada ou religiosa não diz a plenitude do que é esta vocação. Eu sou Teresa, irmã é o que quero ser. Mas as palavras não abarcam bem esta realidade.” Parêntesis fechado.
Chegada a altura de fazer os “votos perpétuos”, a irmã Teresa quis que isso fosse em Nampula. Houve cantos e danças macuas. “Quando ouço um tantã vibro logo.”
Em 1974, vai para Roma durante um ano, para fazer formação bíblica e espiritual com a superiora geral da congregação, a canadiana Jean Theophane. “Pedi uma Bíblia em francês, sentava-me no chão a devorar os textos.” Um dia teve um clique, pediu à superiora para voltar para Moçambique, regressou já com o país independente, ficaria até 1983.
As mulheres ainda escravizadas na Igreja

Algumas das mulheres de um dos grupos bíblicos dinamizados pela irmã Teresa Sousa: “Jesus valorizava as mulheres, a Igreja ainda não foi capaz de fazer isso.” Foto © António Marujo77MARGENS.
“Tive a sorte de começar [a vida religiosa] com o bispo Vieira Pinto em Nampula. Quando regressei a Portugal, custou-me muito a adaptação à Igreja daqui.” A superiora ainda a chamou de novo a Roma para lançar uma experiência intercultural, enquanto Teresa Sousa aproveitava para frequentar algumas aulas mais no Instituto Bíblico.
De regresso à pátria, é colocada sucessivamente em Abrantes e Sever do Vouga a dar aulas. Mas “estava fora do sistema, fora de tudo”. Tinha chegado com “o bichinho da Bíblia”, frequentou as “semanas bíblicas” e outras iniciativas dos capuchinhos. Colocada em Samora Correia, fica a dar aulas de Moral durante 20 anos. Mas, apesar de se entregar a fundo ao trabalho, a tarefa não a satisfazia plenamente.
Durante três anos, fica na Madeira como responsável da animação espiritual das comunidades da congregação. Uma queda provoca-lhe a fractura de um braço e força-a a fazer três cirurgias. Ainda em convalescença, chega um novo convite de França no início de 2023 para criar uma comunidade intercultural com o objectivo de acolher peregrinos. A experiência não correria bem, a diversidade cultural das freiras envolvidas era demasiada. Mas durante um ano e meio a estadia permitiu-lhe aprofundar o papel pioneiro da fundadora da congregação, Anne-Marie Rivier, como mulher e religiosa.
Teresa Sousa está agora no Montijo, numa comunidade de três freiras: Martinha Figueira, 66 anos, é educadora e trabalha no jardim de infância da paróquia; Elodie Filipe, 41, nascida em França, anima grupos de jovens e de catequese de adultos, e estuda Filosofia, além de ser a responsável pela animação de jovens na congregação. Teresa ajuda na catequese e actividades paroquiais, mas vai também à prisão visitar reclusos, integrada numa equipa de voluntários.
A sua vida de saltimbanca e o papel da fundadora da congregação permitiu-lhe pensar muito sobre as mulheres na Igreja. “Estão ainda muito escravizadas”, diz. “São criadas dos padres. Se as tirarem das igrejas, ficam os bancos.” E justifica: “Madalena é que anunciou a ressurreição de Jesus, que valorizava as mulheres. A Igreja ainda não foi capaz de fazer isso.” E, referindo um livro publicado recentemente pela Paulinas e um curso dinamizado pelo padre jesuíta José Frazão Correia com o mesmo título, diz: “É preciso desmasculinizar a Igreja.”










