Ossário: [nome masculino] Casa ou lugar onde se guardam ossadas de defuntos.
«A mão do SENHOR estava sobre mim e o SENHOR, pelo
espírito, fez-me
sair e fez-me pousar no meio de uma planície; e ela estava
cheia de ossos. Ele fez-me
passar junto deles em toda a volta e reparei que havia
um grande número sobre a
superfície da planície e estavam completamente ressequidos.
Ele disse-me: «Filho
de homem, poderão estes ossos voltar à vida?» E eu disse:
«Deus e Senhor, Tu
saberás».
Ezequiel 37, 1-3
«O poema é sobretudo espaço de queda, lugar que se adentra e que oferece o labirinto infinito e insanável.»1 São palavras de Valter Hugo Mãe na superior introdução que assina ao livro Hitoritabi, de José Rui Teixeira, o mesmo autor que, agora, lega à contemporaneidade e, principalmente, à perenidade da poesia portuguesa, cinquenta poemas que compõem o nupérrimo Ossário. No mesmo texto, o Prémio José Saramago de 2007 aprofunda com maior concretude (desvelando, quiçá inconscientemente, a toada de versos por escrever) a sua hermenêutica da poética de José Rui Teixeira, aferindo-a numa crescente lucidez pari passu à soma dos anos vividos do poeta, naquilo que corresponde a um «[…] mistério cada vez mais consciente porque vem descendo mais e mais ao corpo […]»2.
O diagnóstico é certeiro e, ao seu jeito, profético. Em Ossário, José Rui Teixeira desce ao grau zero de um realismo poético, o que não constitui qualquer paradoxo pretensiosamente tendente a frase de efeito, mas um olhar que subtrai às construções narrativas com que a psique humana baralha lenitivamente a sua experiência fáctica e lhe restitui, na gratuidade da dádiva, uma casa de kenose como pressuposto da ressurreição.
Embora o jargão aplicado aparente sugerir uma clave escolástica ou forçadamente teológica da leitura que em seguida se desfiará, não é, de todo, o que se pretende. A premissa consiste, antes, em extrair da obra em apreciação um projeto consequente de tomada de consciência do mundo por uma via que, desde as profundas raízes do pensamento ocidental, é amiúde tida como desvio ardiloso da clarividência que permita uma relação justa entre a interioridade subjetivada e a irremediável exterioridade do mundo. Arrisca-se contestar a intenção platónica de banimento dos poetas da pólis ideal.

Capa de “Ossário”, de José Rui Teixeira.
Deste modo, poderia arrumar-se nestas linhas uma súmula das idiossincrasias que delineiam um imaginário poético sem par nesse abstrato campo a que se convenciona chamar, em determinadas latitudes mais ou menos intelectuais, ‘o meio literário’. Mas seria útil retomar a distinta fusão ‘transimanente’ de algumas das suas construções («porque a janela é silente»3; «A alegria branca das mulheres/ é como o halo das uvas/ nas mãos de Calíope»4; «Mas a tua beleza permanece no contorno/ da minha memória, mortífera/ como humidade ou abandono.»5)? Traduzir-se-ia em ígneo impulso elencar o assinalável rol linguístico que amplia, gradualmente, as possibilidades de representação dos elementos (paul, alinhavos, hipónimo, cetáceos, hiato, lívida, murta, féretro, viço, talude, alvacentos, frémito, compósita, macilências, apostasia, fúcsias, apanágio, desinçasse, ocre, zune, alabastro, lacustres, melopeia, canópicos, orbicular, arúspice, esconso, bulia, amblíope, embaçado, ossário, derruir, anagramas, encalmadas, rumorejada, ilíacos, litanias, doxologias, entumecida, indómitas, sonífero, cálamos, silabário, cardioembólico, impermanências, deslavra, metábole, semiergo-me, descomedir, estio.)? Significaria, eventualmente, um acrescento hermenêutico salientar uma continua estrutura dialógica que perpassa o corpus do autor, quer com a infância, quer com o nível supra-empírico da atividade onírica, ou mesmo com a possibilidade da completude relacional (humana e transcendente)? Afigura-se somente como instrumento de reiteração das suas feições características e assim repousa nesta etapa intermédia da análise.
Inaugura a presente aproximação ensaística uma elaboração da semântica de ossário. O conjunto indistinto de despojos vitais significa, afinal, uma casa. Nela, como na profecia veterotestamentária de Ezequiel, habita a possibilidade de um reino novo, este em resultado da profecia quando dirigida ao espírito, cuja taumaturgia não é (nem pode ser) mais do que a reunificação. Assim acontece, de modo analógico, com estes poemas, que marcam um quarto de século de vida literária e meio século de vida. Algo que é detetável, por exemplo, logo na segunda estação do volume: «Hei de regressar. Hei de derruir a tua memória/ com pensamentos, palavras, atos e omissões./ Hei de ser como a buganvília/ que me ampara os regressos»6. É a reconciliação que sobrevém à cisão, a possibilidade da misericórdia que supera o sacrifício e a verosimilhança de um transcendente paternalmente configurado: por isso urge a perdoar e curar ao invés de ser cirúrgico na sinalização da falta.
Talvez soe inusitado, mas ressoa aqui Reinhart Koselleck, historiador alemão responsável pela edificação do campo epistemológico da História dos Conceitos, posterior à obliteração propiciada pela deriva nazi da sua terra-mãe. Estabeleceu como categorias transcendentais da historicidade o ‘campo de experiência’ e o ‘horizonte de expectativa’. Ademais, Koselleck identifica uma heterogeneidade estratificada de tempos históricos no Tempo enquanto devir fluente. Assim, ao pós-iluminismo (do século XVIII em diante) atribui uma aceleração da História, porquanto se esvazia, numa espécie de dinâmica perversa de vasos comunicantes, a experiência em detrimento do preenchimento quase total da ação humana, individual e coletiva, com a expectativa7. Será apropriado inquirir qual o nexo existente entre esta conclusão e o alcance de Ossário. Como referido anteriormente, a obra de José Rui Teixeira administra, em doses certeiras, realidade a uma experiência social pós-moderna imersa em frágeis simulacros enfartados de positividade, como aponta Byung-Chul Han8.

A obra de José Rui Teixeira administra, em doses certeiras, realidade a uma experiência social pós-moderna imersa em frágeis simulacros enfartados de positividade. Foto de divulgação.
Precisamente por isto, o seu livro educa a gestão de expectativas que tantas agruras e asperezas traz à itinerância pouco peregrinante das almas de hoje. Recorda o elo transversal que universaliza os arquétipos humanos e fá-lo até ao osso. São os ossos o testemunho de que não há transcendência sem materialidade para ser assumida e redimida, este que é, aliás, o fundamento estético-afetivo da mundividência cristã. Os ossos são os derradeiros garantes da memória e a sua casa a oportunidade singular de uma teofania. Ossário domestica a expectativa, reabilita a experiência e convoca a esperança, qual portal do mistério da segunda virtude, a única que, nos versos de Charles Peguy, espanta o próprio Deus, porquanto não O cansa, a menina que atravessa os mundos e guia, nesse caminho audacioso, as restantes fracas forças humanas. Mesmo que se qualifique como «Triste de quem brando/entrega os olhos doentes/ a novas moléstias.»9
A obra de José Rui Teixeira é um exercício de resistência: mesmo quando parece altear-se a tristeza, não se nega a necessidade da entrega como compromisso existencial. Conhecem-no eloquentemente os que privam com a poética dos seus versos e da sua amizade, vertida em múltiplas condições.
Uma rota que principiou por entre Vestígios, desemboca agora nas primeiras conclusões, mesmo depois de rumores de uma morte (e respetiva Autópsia) afinal exagerados, e do alvoroço traçado em nipónicos azimutes (no ciclo de Uzume). A casa da teofania que é este Ossário desfez-se, respetivamente, das ilusões e da carne, mas consubstancia a prova da possibilidade de um reerguido corpo glorioso, porque «Tudo acaba e nada é último/ (nem esta condição de ossos,/ nem esta última morada)»10.
Cada um dos cinquenta poemas dispostos em mais um magnífico objeto da Officium Lectionis justifica a sentença de Rui Nunes, segundo a qual escrever é um modo de ver, e sê-lo-á mais tanto quanto desarmadilhar as provisórias mediações que se interponham entre o olhar e o real11. Diante de cada leitor coloca-se a realidade do que somos e o único entreposto viável até ao que poderemos vir a ser. A poesia de José Rui Teixeira substitui-se, despudorada, mas gentilmente, à mediação para obliterar a burocracia da graça e rememorar que reside, essencialmente, na abertura ao seu acolhimento a condição da sua experiência. É um panegírico ao que resta, quando um certo vício de forma racionalista e desencantado recomendaria o tom elegíaco. Reafirma a convicção de que, à visão imperfeita como num espelho, se sucederá o encontro face a face. Deste modo, é uma leitura revestida de obrigatoriedade, pois conduz a combates inadiáveis ardilosamente evitados nos dias em que o sentido é tomado, ao engano, por conforto.
NOTAS
1 – Valter Hugo Mãe, «O poema à mercê (Introdução a Hitoritabi [ou o Livro de Maquisai]», 2024, p. 7.
2 – Valter Hugo Mãe, «O poema à mercê (Introdução a Hitoritabi [ou o Livro de Maquisai]», 2024, p. 7.
3 – José Rui Teixeira, «Autópsia [poesia reunida]», 2020, p. 13.
4 – José Rui Teixeira, «Habeas Corpus», 2022, p. 13.
5 – José Rui Teixeira, «Hitoritabi [ou o Livro de Maquisai]», 2024, p. 29.
6 – José Rui Teixeira, «Ossário», 2025, p. 11.
7 – Cf. Reinhart Koselleck, «Practice Of Conceptual History: Timing History, Spacing Concepts», 2002, p. 120.
8 – Cf. Byung-Chul Han, «A Sociedade do Cansaço», 2014, p. 9.
9 – José Rui Teixeira , «Ossário», 2025, p. 17.
10 – José Rui Teixeira , «Ossário», 2025, p. 103.
11 – Cf. Alexandra Carita, «Dizer o Mundo: Conversas com Rui Nunes e Paulo Nozolino», 2021, p. 58.
Rui Jorge Teixeira é professor do ensino secundário, com formação em Teologia e História; este texto foi lido na sessão de apresentação do livro, que decorreu no Porto no passado dia 10 de Julho. ruit190@gmail.com










