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Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo (detalhe), C. 1668. Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.

Niceia, 1700 anos: uma leitura atual (10)

Na remissão dos pecados – perdoar sempre

| 19/08/2025

 

Publicamos hoje o décimo texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]

 

 

Na remissão dos pecados

 

Somos perdoados por Deus dos nossos pecados, mas somos igualmente chamados a perdoar – essa é a convicção cristã. O perdão cura, cura das amarguras, dos ressentimentos, vinganças e ódios. Mas liberta para o amor. Não foi isso que o Mestre ensinou no seu magistral Sermão da Montanha? Não deseja Ele que todas as pessoas perdoem até ao infinito? O perdão dos pecados, para uns um sacramento, para outros uma marca intrínseca a todos os que são cidadãos do Reino dos Céus, está afinal enraizado nas profundezas do Pai, cujas misericórdia e amor são eternos.

Qual é a definição de pecado? De acordo com os principais catecismos da fé cristã, e grosso modo, pode-se definir pecado como sendo o desrespeito a algum preceito religioso, uma transgressão da lei de Deus ou até mesmo aos mandamentos de uma igreja. Para o autor da Primeira Carta de João, “Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de facto, o pecado é a transgressão da Lei” (I João 3:4). Tanto o termo hebraico como grego para pecado significam “errar”, no sentido de errar ou não atingir um alvo, ideal ou padrão.

No judaísmo, é comum a ideia de que todos os seres humanos nascem livres de pecado, sendo responsáveis pelas suas próprias acções: pecado é um ato errado e não um estado do ser. Já o conceito cristão, fortemente influenciado pela doutrina do pecado original de Agostinho de Hipona, defende que o ser humano nasce já contaminado pelo pecado desde a concepção, necessitando assim de redenção. A doutrina reformadora calvinista afirma mesmo que a natureza humana pecaminosa é totalmente depravada, não tendo a mínima capacidade de aceitar livremente o senhorio de Cristo, nem tendo livre-arbítrio.

O relato da queda em nada indica que os seres humanos são totalmente maus. Tanto o homem como a mulher, criados à imagem de Deus, não deixaram de ter em si essa imagem e, embora agora distorcida e danificada, continuam a poder escolher livremente fazer o bem. Paulo explica mesmo em Romanos 2:11-15 que mesmo um gentio não salvo, sem nenhuma revelação de Deus, tem uma consciência que pode guiá-lo a obedecer à lei. Podemos assim, apelar para a consciência que Deus nos deu, endurecer o nosso coração ou abri-lo à Sua presença.

Mas os mistérios do mal e do pecado desafiam a fé de muitos. Não existem respostas fáceis, mas o mal ético é uma possibilidade do livre-arbítrio, fruto de uma escolha. O relato das origens no livro do Génesis, remete certamente para uma linguagem mítica, entendida como uma representação de verdades profundas acerca da nossa condição humana, da nossa finitude e da nossa relação com Deus. O pecado é então algo que lesa a nossa relação pessoal com Deus, com o nosso próximo e até com o mundo que nos rodeia.

Benedetto Luti (Florença 1666 – 1724), Maria Madalena no Banquete do Fariseu (detalhe). Coleção National Trust / Wikimedia Commons

 

Ao afirmarmos que cremos na remissão dos pecados, acreditamos igualmente no perdão dos pecados. A palavra grega frequentemente traduzida como “perdão”, ἄφεσιν (aphesin), significa deixar ir, libertar, perdoar. Toda a nossa história é repleta de relações de uns com os outros. Reagimos por pensamentos, palavras e ações, umas boas e outras erradas que nos poderão afectar mutuamente. Mas como resolver os danos dos nossos pecados e erros? O autor da epístola de Tiago, na tradução de Frederico Lourenço, sabiamente recomenda o reconhecimento mútuo dos pecados como método terapêutico: “Por isso reconhecei os erros uns perante os outros e rezai uns pelos outros, para que sejais curados” (Tiago 5:16). Todo o pecado não perdoado é, na verdade, algo que não liberta, que nos aprisiona, nos amargura, nos corrói interiormente. Por isso necessitamos de perdoar, mesmo as maiores atrocidades que possam ter cometido contra nós. No Sermão da Montanha, nesse manifesto do Reino proclamado por Jesus, é pedido que se amem os inimigos e se ore pelos que nos perseguem (Mateus 5:44). Jesus mesmo pede que se perdoe sempre (Mateus 18:22).

O perdão é efectivamente uma das marcas do Reino de Deus, dos seus cidadãos e inclusive do próprio Deus “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.” (Lucas 6:36-38). Jesus afirma mesmo que a verdadeira perfeição, a verdadeira maturidade a que se deve aspirar, é ser como o Pai, o qual, sendo misericordioso, redime e perdoa de todos os pecados.

Cremos igualmente na ação redentora e na vitória do Senhor sobre os pecados e erros. O Pai já “nos salvou do domínio da escuridão e nos transferiu para o reino do filho do Seu amor, no qual temos redenção: a libertação dos erros (pecados)” (Colossenses 1:13). A grande tarefa dos seguidores de Jesus é agora, essencialmente, lembrar e levar o perdão a todos os que, a despeito das suas imperfeições e pecados, necessitam igualmente ser libertados e transformados pelo amor do Senhor. Cremos no perdão dos pecados.

 

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