AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Capa de uma das edições do livro "Assim falava zaratustra" (detalhe)

[Dicionário particular]

“z” de zaratustra – Nietzsche, o algoritmo e as redes sociais

| 20/08/2025

 

Na sua obra Assim Falava Zaratustra, o controverso Friedrich Nietzsche apresenta-nos um pensador, alguém que chega à praça pública, descendo da montanha onde havia estado em isolamento, para vir confrontar a humanidade com a descoberta de verdades incómodas, desafiando-a a abandonar a moral do rebanho, provocando-a com vista a superar a dependência dos valores herdados e desafiando-a a tornar-se criadora de si própria.

Vivemos numa era em que a identidade é moldada por métricas: seguidores, gostos, alcance. A autenticidade tornou-se uma mercadoria e o pensamento próprio, uma ameaça ao algoritmo. Nietzsche, com a sua crítica feroz à superficialidade e à conformidade, pode oferecer-nos hoje um incómodo espelho para o mundo digital, mas, certamente, que o seu Zaratustra não desceria à praça pública, criaria uma conta nas redes sociais e, quase certo, depressa seria cancelado. Mas, por falar em espelho:
– Espelho meu, espelho meu, existe algum perfil com mais seguidores do que o meu?

 

O Super-Homem e o Influencer

Nietzsche propõe o Übermensch — o super-homem — como aquele que cria os seus próprios valores, livre da moral coletiva. Nas redes sociais vemos o oposto: a figura do influencer, quase sempre guiado por tendências, validação externa e performance. A autenticidade é encenada e o valor do indivíduo mede-se por números, não por profundidade.

Zaratustra iria perguntar-nos: “Segues o que é popular, mas esqueces-te de perguntar: é isso que tu és?”

 

A Morte de Deus e o Vazio Digital

A célebre frase “Deus está morto” não é tanto um grito de ateísmo, mas um alerta: os princípios e os valores absolutos ruíram, cabe ao homem criar novos significados. Nas redes, essa ausência de sentido manifesta-se como uma busca incessante por atenção, pertença e validação. O vazio existencial é preenchido pelas notificações e por mãozinhas e emojis “coração”, sem nunca se saciar.

E quando alguém ousa pensar de forma diferente, a moral do rebanho digital entra em ação: o cancelamento, a patrulha ideológica, a punição pública. É quase certo que Nietzsche veria nisso servidão disfarçada de liberdade.

 

O Eterno Retorno e o Loop Algorítmico

Nietzsche desafia o homem a viver como se cada ação fosse repetida eternamente para poder evoluir e melhorar. Nas redes, vivemos o eterno retorno do conteúdo reciclado, das tendências repetidas, do scroll infinito. O algoritmo favorece o que já funcionou, sufoca o novo, o disruptivo, o autêntico. E, por isso, muitos são aqueles que, anestesiados por estímulos constantes, mas vazios de reflexão, em vez de afirmar a vida usam as redes para fugir dela.

 

O Silêncio que Falta

Zaratustra isolou-se para encontrar sabedoria. Hoje, o isolamento é temido e a exposição é celebrada. O ruído digital impede o silêncio necessário ao pensamento profundo. A introspeção foi substituída por frases motivacionais em carrossel, testes de personalidade instantâneos e de sessões de coaching pessoal ou profissional em saldo, “tudo é coach, tudo é talks”.

Na minha opinião, Nietzsche não condenaria as redes sociais em si. Condenaria o uso passivo, a submissão ao algoritmo, a perda da vontade de potência. Desafiar-nos-ia a usar essa ferramenta como expressão da nossa essência e não como substituto dela.

 

O Perfil de Zaratustra

Se Zaratustra tivesse hoje um perfil, talvez publicasse: “Não te contentes com o que é viral. Torna-te aquilo que desafia o algoritmo.”

Qual seria o alcance, quantas partilhas e gostos teria?…

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

São João da Cruz: poesia e mística

Ano Jubilar de São João da Cruz (9)

São João da Cruz: poesia e mística novidade

Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz. 

Padre Telmo Ferraz

[Entre Margens]

Padre Telmo Ferraz novidade

Resumidamente, o Padre Telmo Ferraz nasceu na aldeia de Bruçó, Mogadouro, na região de Trás-os-Montes. Pertencia à Diocese de Bragança e Miranda. Ordenou-se em 1951. Foi Pároco em algumas Paróquias da Diocese, trabalhando muito afincadamente na Barragem do Picote, onde desenvolveu uma pastoral muito humanitária junto dos operários. [Texto de Serafim Falcão].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.