“A curto prazo” não será de esperar qualquer reforma sobre a doutrina da Igreja a respeito do papel das mulheres na Igreja Católica e ao acolhimento de católicos que se assumem como LBTQI+. Essa é uma das afirmações que constam de uma entrevista-biografia do Papa Leão, que saiu esta quinta-feira em livro, no Peru.
O livro, intitulado Leão XIV: Cidadão do Mundo, Missionário do Século XXI, resulta de uma entrevista de cerca de três horas, dada à jornalista Elise Ann Allen, do jornal digital católico Crux, de cujo conteúdo têm sido publicados alguns excertos nos últimos dias, incluindo no 7MARGENS.
Quando a entrevistadora o confronta com a possibilidade de ordenação de mulheres diáconos, um tema que foi objeto de debates nas sessões de 2023 e 2024 do recente Sínodo e proposto por diversas igrejas locais, o Papa afirma que “não tem qualquer intenção de mudar o ensinamento da Igreja sobre o assunto” a curto prazo.
Garantindo que está “disposto a continuar a ouvir as pessoas” e lembrando os grupos que existem para “examinar o contexto teológico, a história, de algumas dessas questões”, deixa a afirmação final de que o tema é para “acompanhar e ver o que [daí] resulta”, tendo em conta que antes da ordenação há que responder a muitas outras perguntas – por exemplo, a de perceber porque não foi o diaconado permanente entendido e assumido em “muitas partes do mundo”, depois de restaurado pelo Concílio Vaticano II (1962-65).
Ao mesmo tempo, nesta que é a sua primeira entrevista desde que foi eleito em maio deste ano, Leão diz desejar “continuar no caminho” do Papa Francisco, seu antecessor, “nomeando mulheres para cargos de liderança em diferentes níveis da vida da Igreja” – e de facto, isso já aconteceu.
Sobre eventuais alterações doutrinárias relativamente a questões de género ou de novos modelos de família, como o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o Papa Leão reconhece tratar-se de problemas “sensíveis e polarizadores”, cabendo-lhe a ele não “incentivar a polarização dentro da Igreja”.
Relativamente ao acolhimento das diferentes realidades e das pessoas que as vivem, o novo Papa afirma partilhar do espírito de Francisco, quando, na Jornada Mundial de Juventude, de Lisboa, enfatizou a ideia do acolhimento a “todos, todos, todos”, mas sem que tal implique mudanças na doutrina estabelecida. “Estão todos convidados, mas não convido ninguém pela sua identidade particular”, enfatiza.
Apoio às vítimas de abuso e proteção dos padres

‘Leão XIV considera que a instituição que governa deve continuar a apoiar as vítimas com “genuína e profunda compaixão”, entendendo, contudo, que a questão “não pode tornar-se a prioridade da Igreja”.’ Foto © Vatican News
O modelo da família tradicional – “pai, mãe e filhos” – cujo “papel, por vezes, sofreu nas últimas décadas, deve ser reconhecido e fortalecido de novo”, defende o Papa.
A entrevistadora coloca-o perante os problemas dos abusos e violências, nomeadamente sexuais, perpetrados por membros do clero. Nesta frente, Leão XIV considera que a instituição que governa deve continuar a apoiar as vítimas com “genuína e profunda compaixão”, entendendo, contudo, que a questão “não pode tornar-se a prioridade da Igreja”.
Referindo-se a “casos comprovados de falsas acusações” – um caso em cada dez, segundo o Papa – é necessário “proteger os padres, ou os acusados, e respeitar os seus direitos”.
Como refere, a este propósito, o jornal Le Monde, várias associações criticaram a proteção da instituição em detrimento das vítimas e criticaram Francisco por não ter ido suficientemente longe, apesar das suas inúmeras medidas, como o levantamento do segredo pontifício e a obrigação de denúncia.
Finanças do Vaticano não perturbam o sono

Faça-se luz sobre as finanças do Vaticano: a cúpula da Basílica de São Pedro do Vaticano. Foto © António Marujo
Allen interrogou também o Papa sobre a situação financeira do Vaticano, lembrando, por exemplo, o fundo de pensões da Santa Sé, que tem vindo a enfrentar um grande défice, após anos de défices orçamentais.
Leão XIV lembra que a crise foi agudizada com a paragem de uma das grandes fontes de financiamento – os museus do Vaticano, devido à pandemia. Porém, acrescenta o bispo de Roma, as viagens e as visitas foram retomadas e a normalidade foi-se instalando. Acresce que, neste ano jubilar, se tem registado um aumento do número de turistas, tudo convergindo para uma melhoria da situação.
Reconhecendo que vários departamentos e iniciativas do Vaticano precisam de cooperar para garantir o fluxo de recursos financeiros e admitindo que é preciso continuar a trabalhar para melhorar as políticas financeiras, o Papa acrescentou que esta questão não o tem feito perder o sono. Mas “há que continuar o processo de reforma iniciado por Francisco”, observa.



![Apelo de Metz [texto integral] O Papa no encontro no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz. Foto Vatican Media](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/09/O-Papa-no-encontro-no-Centro-de-Congressos-Robert-Schuman-em-Metz.-Foto-Vatican-Media-480x252.jpg)






