Leão XIV foi questionado pelos jornalistas sobre os planos do cardeal Blase Cupich, de Chicago, de atribuir um prémio a um senador pelo seu trabalho em prol dos imigrantes, uma decisão que tem gerado objeções da parte de vários bispos norte-americanos, pelo facto de o político em causa ser defensor da legalização do aborto. O Papa não se furtou a partilhar o que pensa em relação à polémica que agitou nos últimos dias a Igreja Católica dos EUA.
“Não estou muito familiarizado com o caso específico. Acho importante analisar o trabalho geral que um senador fez durante, se não me engano, 40 anos de serviço no Senado dos Estados Unidos”, começou por dizer o Papa aos repórteres que o esperavam à saída de Castel Gandolfo, nesta terça-feira, 30 de setembro, na sequência de uma pergunta da EWTN News.
E continuou: “Entendo a dificuldade e as tensões. Mas acredito, como eu próprio disse no passado, que é importante examinar muitas questões relacionadas com o ensinamentos da Igreja”, defendeu Leão XIV, para logo a seguir sublinhar: “Quem diz ser contra o aborto, mas a favor da pena de morte, não é verdadeiramente pró-vida. Quem diz ser contra o aborto, mas a favor do tratamento desumano de imigrantes nos Estados Unidos… não sei se isso é pró-vida”.
Na perspetiva do Papa, estes “são temas muito complexos”. “Não sei se alguém tem toda a verdade a seu respeito”, assumiu. “Mas peço-lhes, antes de mais, que se respeitem mutuamente e que procuremos juntos, como seres humanos e, neste caso, como cidadãos norte-americanos e do Estado do Illinois, assim como católicos, que abordemos com atenção todas estas questões éticas e que encontremos o caminho a seguir como Igreja. Os ensinamentos da Igreja sobre cada um destes temas são muito claros”, concluiu.
Nos últimos dias, houve ao todo dez bispos norte-americanos, incluindo dois eméritos, que se manifestaram contra a decisão de Cupich de “premiar a trajetória” do senador Richard Durbin.
Mas o cardeal defendeu a decisão de atribuir o prémio, afirmando que a mesma estava alinhada com as instruções dadas pela então Congregação para a Doutrina da Fé, em 2021, que convidava os bispos a “procurar e dialogar com políticos católicos dentro das suas jurisdições”.
De acordo com a Catholic News Agency, Durbin encontra-se “proibido de receber a Comunhão na sua diocese natal de Springfield” — a capital do Estado — desde 2004. Num artigo publicado a 23 de setembro na revista First Things, intitulado “O senador Durbin não está apto a receber qualquer honraria católica”, o bispo Thomas Paprocki de Springfield, Illinois, manifestou ter ficado “chocado” ao saber do plano da arquidiocese de Chicago de homenagear o democrata.
“Como esta decisão ameaça escandalizar os fiéis e ferir os laços da comunhão eclesial, ela deve ser revertida”, afirmou o prelado, observando que o histórico de votação pró-aborto de Durbin inclui esforços para bloquear a legislação que proíbe abortos pós-parto e proteções para bebés que sobrevivem a abortos fracassados.
Horas depois de terem sido conhecidas as declarações do Papa Leão, Cupich anunciou que Durbin havia recusado o prémio. Na declaração em que fez o anúncio, o cardeal lamentou que a polarização nos EUA tenha criado uma situação em que os católicos americanos “se encontram politicamente sem abrigo”, já que nem o Partido Republicano nem o Democrata abarcam completamente a amplitude dos ensinamentos católicos.
O cardeal de Chicago voltou a defender a homenagem a Durbin pela sua postura pró-imigração “tão necessária nos dias de hoje” e disse ainda que a cerimónia de premiação que estava planeada para 3 de novembro poderia ter sido uma ocasião para envolvê-lo, bem como a outros líderes políticos, na visão da Igreja sobre outras questões, incluindo o aborto.
“Poderia ser um convite aos católicos que promovem incansavelmente a dignidade dos nascituros, dos idosos e dos doentes para estender o círculo de proteção aos imigrantes que enfrentam neste momento uma ameaça existencial às suas vidas e às vidas das suas famílias”, acrescentou ainda Cupich.
Ameaça essa que se tem traduzido, nos últimos dias, e concretamente na cidade de Chicago, em marchas de agentes federais pelas ruas, camuflados e armados, prendendo pessoas com base na “sua aparência”, como denuncia o Chicago Sun Times.










