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Sarah Mullally, nova arcebispa de Cantuária. Foto The Archbishop of Canterbury
Sarah Mullally, a nova arcebispa de Cantuária: a sua escolha está a ser criticada pela hierarquia do “Sul global”. Foto © The Archbishop of Canterbury

Grande Sul contra a nova líder

Cisma à vista na Comunhão Anglicana por divergências em temas fraturantes

| 19/10/2025

A palavra cisma não está a ser utilizada, mas é isso que pode estar a acontecer dentro da Comunhão Anglicana: um processo de rutura que está a dar corpo a um cisma, desencadeado pela escolha da bispa de Londres, Sarah Mullally, para arcebispa de Cantuária e que se tornará, ipso facto, líder espiritual do conjunto dos anglicanos.

O setor mais conservador da Comunhão Anglicana, que aprovou, em 2008, a Declaração de Jerusalém e se constituiu como movimento, designado Global Anglican Future Conference (Gafcon), já há muito vinha a distanciar-se dos rumos do anglicanismo. Um passo que pode vir a ser um marco histórico acaba de ser dado: o anúncio formal da rejeição dos “instrumentos da Comunhão”, ou seja, a Sé de Cantuária, a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano (ACC, na sigla em inglês) e a Reunião dos Primazes.

Estas instâncias “falharam na defesa da doutrina e da disciplina da Comunhão Anglicana”, afirma o comunicado, pelo que os contestatários declaram “não poder continuar a manter comunhão com aqueles que defendem a agenda revisionista, que abandonou a palavra infalível de Deus como autoridade final e revogou a Resolução I.10 da Conferência de Lambeth de 1998”.

A Conferência de Lambeth reúne cada dez anos os bispos da Comunhão Anglicana, tratando de assuntos prementes, mas as suas resoluções não são vinculativas. A Resolução I.10 da Conferência de Lambeth de 1998, aprovada por 526 votos contra 70, debruçou-se sobre a sexualidade humana e declarou que a prática homossexual é “incompatível com as Escrituras”. Afirmou que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser abençoadas ou legitimadas e que o casamento é entre um homem e uma mulher.

No caso, a designação da arcebispa de Cantuária por parte de uma Comissão de Nomeações criada pela Coroa inglesa foi entendida pelos setores que agora pretendem separar-se como uma provocação – desde logo por se tratar de uma mulher e por esta escolha representar a continuidade com uma linha reformista (e contrária aos princípios doutrinais, segundo esses mesmos grupos).

A força deste movimento anglicano, que se diz “global, ortodoxo e baseado na Bíblia”, assenta no facto de pretender representar a larga maioria dos anglicanos, visto que vem de lideranças de regiões do planeta do chamado “Grande Sul”, onde a população – e os cristãos – estão a crescer, como é o caso da África, onde se concentra o maior número de cristãos praticantes.

 

“Restaurar a Comunhão Anglicana”

 

Ordenação de mulheres na Comunhão Anglicana: mesmo nos países e regiões do “Grande Sul”, a maioria das igrejas já ordena mulheres como bispas, presbíteras e diaconisas. (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=p8YaY4H17Do)

Ordenação de mulheres na Comunhão Anglicana: mesmo nos países e regiões do “Grande Sul”, a maioria das igrejas já ordena mulheres como bispas, presbíteras e diaconisas. (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=p8YaY4H17Do)

 

 

Já em setembro último, quando se anunciava iminente o desfecho do processo de escolha que viria a recair na bispa Mullally, os responsáveis do Gafcon divulgaram uma “convocação solene dos bispos globais” para um encontro em Abuja, na Nigéria, em março de 2026, apresentado como “a mais importante assembleia de anglicanos autênticos” desde a fundação do movimento, alertando, em tons apocalíticos, que “os revisionistas dividem deliberadamente a Comunhão [Anglicana] com ações cismáticas que celebram o pecado, ao nomearem falsos pastores para afastarem o seu rebanho da boa palavra de Deus”.

A mensagem emitida esta quinta-feira, 16 de outubro, pelo presidente do Conselho dos Primazes do Gafcon, o arcebispo-primaz da Igreja do Ruanda, Laurent Mbanda, anuncia, em nome dos pares, que numa reunião tida nesse mesmo dia, havia sido decidido reorganizar a Comunhão Anglicana, restaurar “a sua estrutura original como uma irmandade de províncias autónomas”, passando a designar-se Comunhão Anglicana Global e a considerar-se a verdadeira Comunhão Anglicana.

As “províncias” desta nova organização, refere ainda o comunicado, não participarão em reuniões convocadas pelo Arcebispo de Cantuária, incluindo o ACC”, não contribuindo monetariamente para essas instituições nem recebendo delas contribuições.

Recorde-se que, mal Sarah Mullally foi designada para ocupar a cátedra de Cantuária, o Gafcon lamentou a escolha, considerando que ela “dividirá ainda mais uma Comunhão já dividida”.

Numa declaração assinada pelo arcebispo Laurent Mbanda, sublinhava-se que a arcebispa de Cantuária “deixou de poder funcionar como um líder confiável dos anglicanos, muito menos como um foco de unidade”. As objeções ao nome de Sarah Mullally prendiam-se com o seu apoio às bênçãos de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e sobre a sua nomeação como a primeira mulher arcebispa de Cantuária, dizendo que “a maioria da Comunhão Anglicana ainda acredita que a Bíblia exige um episcopado exclusivamente masculino”.

 

Um convite ao diálogo como resposta

 

Anglicanos, Gafcon, Kigali

Assembleia da Gafcon (Global Anglican Future Conference) está a levantar dificuldades à nova líder da Comunhão Anglicana. Foto © Gafcon

 

 

A movimentação do Gafcon no sentido da separação recebeu, entretanto, uma resposta do secretário-geral da Comunhão Anglicana, o bispo Anthony Poggo. Fê-lo através de uma “carta pastoral”, em que começa por referir que, desde o anúncio da separação, recebeu “muitas mensagens” de preocupação “do mundo todo, tanto de anglicanos como de parceiros ecuménicos”.

A carta, que assume um registo de humildade e um tom conciliador, reconhece as divisões existentes entre os anglicanos, apela à necessidade de lhes prestar atenção e à urgência de as superar, “por meio de todos os instrumentos disponíveis”. Lembra ainda que “a Igreja una está sempre em processo de reforma, o que significa que nenhuma instituição, reunião, rede ou associação de cristãos é estática” e propõe uma saída: o trabalho desenvolvido pela Comissão Permanente Inter-Anglicana sobre Unidade, Fé e Ordem (IASCUFO), criada em 2023, com o objetivo de “se buscar uma caminhada unida, no mais alto grau possível, e de se aprender, com paciência e respeito, por meio de […] diálogos ecuménicos, a acomodação de diferenças”.

Em concreto, a IASCUFO publicou, no Advento de 2024, um documento conhecido como Propostas de Nairobi-Cairo, convidando todas as Igrejas que integram a Comunhão Anglicana a apreciá-las e responder-lhes.

“Compartilho a esperança da Comissão – afirma o secretário-geral Anthony Poggo – de que todos os anglicanos, e toda a Igreja de Deus, ainda possam buscar e encontrar acordo na fé. Também concordo que devemos reunir paciência e amor quando os membros do Corpo precisam de caminhar distantes uns dos outros para melhor buscar e servir a verdade e a unidade da nossa vocação compartilhada”.

Em claro desafio aos primazes do Gafcon que assumiram a rutura e a outros movimentos constituídos no campo anglicano, o responsável anglicano adverte: “A uniformidade teológica não pode ser exigida ou esperada sem o trabalho árduo de discernimento ao longo do tempo. Agrupamentos doutrinários, geográficos ou regionais de igrejas (por exemplo, GSFA – Global South Fellowship of Anglican Churches, CCEA – Council of Churches of East Asia,  Gafcon e outros) podem ajudar-nos a reformar e renovar a nossa vida juntos”.

Importa, finalmente, sublinhar que a designação da bispa de Londres para a Sé de Cantuária despertou em numerosas e diversificadas estruturas da Comunhão Anglicana e de Igrejas anglicanas que estão fora da Comunhão, uma significativa manifestação de júbilo e de esperança.

Se algumas mensagens conhecidas sublinham a designação de Sarah Mullally como “sintoma da crise” da Comunhão Anglicana e como “oportunidade perdida” para a sua unidade, muitas são as que celebram o facto de ser a primeira mulher a ocupar tal cargo, o que trará “esperança e inspiração” a mulheres e raparigas, no seio da Comunhão e fora dela.

A experiência profissional e organizativa de Mullally, na sua carreira como enfermeira e dirigente no Serviço Nacional de Saúde, é valorizada por várias saudações como relevante para o exercício das funções de arcebispa de Cantuária, por ter sido vivida como ministério do cuidado e da compaixão. A fé, integridade, coerência, coragem, espírito compassivo e experiência de liderança são também enaltecidas, assim como a atenção que deu à proteção de pessoas vulneráveis e às vítimas de abuso na Igreja de Inglaterra.

 

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