Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
(poeta português/moçambicano, Reinaldo Ferreira, 1922 – 1959)
Agora que temos um novo Papa, depois de esperarmos entre um misto de ansiedade e de curiosidade, a escolha do nome Leão XIV, porque também o nome é um símbolo, será que vamos ter um Papa preocupado com o mundo e uma atualização da Doutrina Social da Igreja? E porque é de gestos que falamos, partilho consigo, leitor e leitora, uma breve reflexão sobre gestos. Esse primeiro gesto (sem esquecer o sorriso emotivo), o nome escolhido, poderá ser definidor do que sucederá!… Talvez um gesto e um desejo de diálogo com o mundo crente e não crente, com um mundo em transformação, uma Igreja em caminhada. Assim o esperamos e desejamos.
Todos conhecemos a linguagem gestual, esse lugar de comunicação onde nos sentimos estrangeiros no nosso próprio território. Dizemos nós que eles são diferentes. Mas de quem? De nós? Só porque a linguagem do mundo não é aquela?
Fernando Centeio, realizador e produtor, contou-me que o filme Gesto nasceu de um acaso. A história é simples de resumir. Estava ele com um amigo (já não me recordo quem, mas talvez alguém ligado ao filme) a almoçar num local a abarrotar de gente e extremamente barulhento onde dificilmente alguém se poderia fazer ouvir. Repararam então que numa mesa próxima dois surdos-mudos eram as únicas pessoas que conversavam calmamente através da linguagem gestual. Essa situação foi o ponto de partida para o filme/documentário. Dir-se-ia que naquele ambiente, àquela hora, as únicas pessoas normais eram os surdos-mudos. A beleza dos gestos nasce da normalidade de situações inóspitas da vida. E são tantas!… O gesto nasce de um contexto exterior, mas também de um contexto interior, de acolhimento, de escuta, do desejo de diálogo. Talvez tenha sido isso que os levou a fazerem o filme. Também a arte é generosa na arte de dialogar através de uma beleza que nos questiona para além da realidade. Qualquer arte é sempre um exercício de diálogo com o mundo.
Sobre o filme disse António Borges, o realizador:
Um realizador ouvinte faz um filme sobre um jovem surdo que deseja estudar cinema. Qual o ponto de vista? Ou de quem? Do realizador ou do jovem estudante? Na verdade, é uma conjugação dos dois, onde diálogos, ambientes, ruídos, câmaras, lentes e escalas coexistem entre o mundo de ouvintes e o universo mental das Pessoas Surdas. É um exercício sobre outro idioma onde sou estrangeiro no meu próprio filme.
(António Borges Correia / Plano Nacional de Cinema)
Qualquer gesto é uma forma de diálogo com o outro, com a realidade, com o mundo.
Há gestos que expressam crítica, raiva, tristeza, alegria, paixão… Há gestos éticos, políticos, artísticos ou teatrais, malcriados (sobretudo no trânsito), heroicos… Esses pertencem talvez à categoria do efémero, dos instantâneos. Depois temos os gestos simples que brotam do silêncio ou do olhar que irradia luz e compaixão que nos aproximam do outro, que abrem uma porta de esperança na mais dramática das situações. Gestos que transportam futuro, mesmo que não saibamos a sua distância. Sabemos simplesmente que estamos dispostos a pôr-nos a caminho, apenas porque nos deram a mão, nos ofereceram um sorriso, nos abraçaram, nos aliviaram as feridas ou ainda porque nos fizeram iguais no sofrimento, irmanados na mesma condição… E isso basta-nos. Depois temos os gestos coletivos de gratidão, mas anónimos, como o altar a Francisco erigido pelos sem-abrigo de Roma. O gesto contém em si um sentimento de gratidão, pela vida e pela presença do outro. Como escreveu o poeta em epígrafe, o gesto tem sempre um “resto” que é o que importa, aquilo que de messiânico ele transporta. Há na cultura indiana um gesto cujo significado eu acho muito bonito por refletir um profundo respeito pelo outro e pela diferença. À junção das mãos para saudar o outro os indianos atribuem-lhe o seguinte significado: “o deus que há em mim saúda o deus que há em ti”. Que beleza!
Há gestos que nascem no recanto pacato dos intervenientes (o médico que abraça o seu doente ao dar-lhe uma má notícia), outros que, pelo seu poder simbólico, todos nos revemos neles e nos sentimos irmanados, fazemos nosso o gesto (os muitos gestos de Francisco, mas sobretudo a imagem de um homem só na Praça de S. Pedro aquando da pandemia) ou ainda os gestos que sendo individuais se transformam em coletivos através do diálogo (o gesto do Papa Francisco quando descobriu a mulher das flores no meio da multidão).
Dizem – dizemos nós – serem gestos de humanidade. Mas não serão todos os gestos de humanidade, mesmo aqueles que separam e afastam? A humanidade tanto é Abel como Caim. A humanidade é tudo isso. Diria Francisco tratar-se de gestos de fraternidade, de encontro, de solidariedade, de amor.
Enquanto os primeiros nascem da espontaneidade e da interação do momento, os outros requerem uma coerência e uma forma de estar que os transformam num discurso silencioso para o coletivo (assim foram os gestos de francisco). Mas todos são importantes na confiança e no diálogo que estabelecem com o outro, porque verdadeiros.
Os gestos utilizam uma linguagem simbólica – a linguagem do corpo – que a todos toca. É um diálogo corporal que dispensa as palavras, porque supérfluas, inúteis ou até imperfeitas para exprimirem o que não sabemos dizer. Em cada gesto existe uma transcendência não visível, não revelada que nos aproxima.
Ficha Técnica
Título: Gesto
Realização: António Borges Correia
País: Portugal
Estreia: 20 de setembro 2011 na Fundação Calouste Gulbenkian, 23 de outubro 2011 no festival DocLisboa e 21 abril 2016 no cinema City Alvalade
Duração: 80 minutos
Formato: HD, preto e branco
Argumento: Rodrigo Almeida e Sousa e António Borges Correia
Produtor: Fernando Centeio / Zulfilmes
Elenco: António Palma Coelho, Irina Pereira, Vanessa Teixeira, Henrique Gil, Alexandra Lencastre, Adriano Luz, José Raposo.







