
Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny – Campinas – Festival de teatro de Curitiba 2009 (youtube)
O famoso dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht, na sua peça Ascensão e Queda da Cidade de Mahagony (1929), construiu uma interessante alegoria que bem se pode aplicar ao nosso século: na cidade de Mahagony tudo é permitido, o prazer está ao alcance de todos e o hedonismo radical é um modo de vida. Nada falta no que concerne aos prazeres da mesa, da bebida, da cama, e até da recreação desportiva. A sua divisa é a seguinte: “Antes de mais, vê se entendes/ que aqui tudo é permitido”.
Embora esta cidade seja inteiramente votada à “felicidade” dos seus habitantes, a verdade é que eles não são felizes e vivem imersos num profundo tédio. Nada lhes é exigido – a não ser que paguem as suas dívidas -, mas também “nada acontece”, ou seja, é uma cidade sem história. “«Porque não hei-de comer o chapéu se não há mais nada para fazer?»”[1], pergunta retoricamente um desses cidadãos.
Ora, não vivemos nós hoje, cada vez mais, em sociedades que reduzem ao mínimo as exigências enquanto, por outro lado, procuram maximizar as oportunidades de diversão, entretenimento e obtenção de prazer? Onde o apelo ao consumo explora o mais possível verdadeiras e sobretudo falsas necessidades e desejos? De obrigatório, temos a escolaridade mínima, o pagamento de impostos e dívidas legalmente contraídas, o dever de não lesar a integridade física e moral do Outro; depois, temos a obrigação, não legal mas cívica, diz-se, de votar regularmente em eleições. Como temos, de resto, muitas outras obrigações tácitas, não-escritas, que têm que ver com os costumes sociais, como sejam o dever de respeitar as filas, e até mesmo dar um bom dia ao vizinho que encontramos à entrada do prédio. Quanto ao resto, podemos fazer o que quisermos, perseguindo, como entendermos, a nossa felicidade pessoal, o que quer que isso signifique.
Este, que sempre foi o ideal do liberalismo político e económico desde as suas origens no séc. XVII, conduziu-nos, por um lado, às sociedades da abundância, em que as escolhas materiais – e bem assim as oportunidades sociais – se multiplicaram para a grande maioria da população, e, por outro lado, à afirmação do indivíduo sobre o estado, com evidentes vantagens, como a consagração de direitos humanos fundamentais, mas também com algumas perversões. A principal tem que ver precisamente com a crescente desresponsabilização do indivíduo relativamente ao bem-comum, e à priorização, por vezes perniciosa, dos seus próprios fins pessoais em relação ao fins da comunidade política. (isso é bem visível, por exemplo, no modo como se comportam certos indivíduos dentro das grandes corporações financeiras, que não hesitam por vezes em tomar decisões que os beneficiam pessoalmente mas que põem em risco a instituição e mesmo os indivíduos que nela confiam ou, em termos mais gerais, a própria saúde económica da sociedade que dela depende).
É evidente que os fins de cada um são importantes, se é verdade, como diz Kant, que cada ser humano é, em si mesmo, o seu próprio fim. Todavia, o uso correto da liberdade pessoal, como tudo o que diz respeito ao ser humano, tem de ser aprendido e aperfeiçoado. Não é um dado à partida. E não há nenhuma instituição social, hoje, nas nossas democracias de tipo ocidental, onde tal seria necessário, que ensine de facto a liberdade, nem sequer a própria escola. Porque a educação para a liberdade é uma educação do caráter, uma formação da consciência moral e das virtudes chamadas cívicas, como sejam a coragem, a justiça, o sentido crítico. Democracia, dizia Proudhon, é demopedia; ou seja, democracia implica educação para a liberdade e para o serviço da comunidade. E essa educação só acontece no exercício da própria liberdade/responsabilidade, ou seja, na participação direta na vida pública da comunidade, quer seja a escola, a cidade ou a nação.
Hoje, todavia, essa participação, quer a nível nacional como local, é praticamente inexistente ou pelo menos muito insuficiente; tudo se relega no estado ou em instituições de caráter social, que se crê terem o dever de tudo resolver e prover. Ao estado, cada vez mais, tudo lhe é exigido, enquanto cada um, para si próprio, se considera legitimamente isento de perseguir outros interesses que não sejam os seus imediatos. Não há instituições e organizações cívicas, de caráter obrigatório e não meramente voluntário, que exijam serviço à comunidade (a não ser como punição legal ou para certas situações de desemprego), à semelhança de uma espécie de “serviço cívico obrigatório”, idêntico no conceito mas não nos fins ao serviço militar obrigatório, e que pudessem, por exemplo, ocupar com proveito para todos, inclusive para os próprios, os milhares de “nem-nem” (nem estudam, nem trabalham) que existem hoje no nosso país; ou quem quer que, não tendo outra ocupação válida, quisesse participar; ou até mesmo nos moldes de um serviço obrigatório para todos durante um determinado período, como no antigo serviço militar.
Porque é também por essa via que se poderia conferir, a muitas pessoas, especialmente aos mais jovens, mais ou menos desorientados, algum sentido existencial e a alegria do serviço, retirando-os de situações de angústia, isolamento, vício, solidão e até doença mental, contribuindo ao mesmo tempo para a coesão social entre os indivíduos, as gerações, as regiões, etc. Antigamente, a instituição que criava esse vínculo, com tudo o que tinha de bom e de mau, era o serviço militar obrigatório. Com isto não estou a defender o regresso dessa instituição, não pelo menos nos moldes de um serviço exclusivamente militar. Julgo que, um serviço cívico obrigatório, em moldes diferentes, votado a vários tipos de serviços de caráter social, humanitário, cultural, faria todo o sentido. Seria simultaneamente um serviço público e uma escola de humanidade e civismo. Em moldes diferentes, mas não querendo dizer que não fosse legítimo retirar, da vida e da prática militar, aquilo que ela tem de bom e de útil para a formação do caráter dos indivíduos, à semelhança do que Baden Powell fez com o escotismo, do qual foi fundador. Numa passagem do seu artigo Baden Powell, Pedagogia e Personalidade[2], Agostinho da Silva, escreve:
“…ele [Baden Powell, que tinha sido general durante a Guerra dos Boers] achou que a guerra um dia ia desaparecer do mundo, que a luta entre os homens seria apenas uma triste recordação do passado, mas que dela tinha de guardar as virtudes da vida militar, e que essa seria a verdadeira educação dos jovens (…), o que ele disse é que era preciso pegar os rapazes e naturalmente as moças, e quando eles chegam aos 18, 19 ou 20 anos, lançá-los em tarefas duras, em tarefas difíceis (…). Baden Powell foi inteiramente da opinião de que um dia todo o serviço militar deveria substituir por esse serviço de barcos, pelo serviço das minas, pela patrulha dos icebergs do Atlântico Norte… Deve-se levar toda essa gente a de facto ter tido na sua vida alguma coisa que fizesse de perigoso, em que tivesse temperado a vontade, em que se tivesse instruído para a vida e lhes desse a eles a capacidade de confiança em si suficiente para afrontar tudo o que a vida lhes trouxesse.”
O essencial aqui, sem ir ao ponto, como Baden Powell, de defender que é legitimo pôr as pessoas em risco de vida (de resto hoje o escotismo não o faz, que eu saiba) é que não é absurda ou despropositada a ideia de criar um serviço cívico que seja uma exigência, útil e formativa para o todo social, numa sociedade que cada vez exige menos em termos de disponibilidade cívica dos indivíduos, mas à qual os indivíduos exigem cada vez mais.

Saint-Exupery: “Uma civilização assenta sobretudo naquilo que exige dos homens, e não naquilo que lhes dá”. Foto: pormenor de capa de livro.
“Uma civilização assenta sobretudo naquilo que exige dos homens, e não naquilo que lhes dá”. Assim reza, mais ou menos, a sentença de Saint-Exupery na sua obra maior, Cidadela. Julgo que nas nossas sociedades democráticas, inclusive para a sua própria sobrevivência, um pouco mais de exigência de participação cívica, social e política seria bem-vinda, para contrariar precisamente o egoísmo-egotismo individual que conduz à desintegração do tecido social, à atomização-isolamento dos indivíduos, à falta de sentido e à degradação hedonista da liberdade individual (que se traduz, por exemplo, no consumo excessivo e numa busca desaforada e cega por novas experiências de prazer, através, por exemplo, de drogas cada vez mais elaboradas).
As nossas sociedades de consumo identificam, em larga medida, liberdade com prazer. Cria-se facilmente a ilusão de que multiplicidade de escolhas é sinónimo de mais liberdade. Posso escolher uma multiplicidade de canais de televisão quando antes só tinha dois ou três; posso ver todos os filmes e séries que quiser, a qualquer hoje do dia, sem sair de casa; posso comprar diversos produtos das mais variadas marcas; posso passar horas a ver toda a espécie de vídeos engraçados e outros conteúdos no meu telemóvel; posso viajar para os mais variados destinos exóticos, comprar telemóveis de diferentes tipos e marcas, etc. Posso, posso, posso… Mas será que se trata de verdadeiro poder? Não se tratará simplesmente de dispersão, ao invés de verdadeira escolha?
Não é por ter mais oportunidades de consumo que a minha vida ganha mais qualidade e intensidade existencial, mais alegria e sentido. De facto, como mostra Brecht na sua peça, o tédio é a herança mais imediata daquele que apenas consome (e se consome) de prazer nas suas variadas formas, especialmente porque o assédio das escolhas possíveis apela constantemente à minha passividade natural; distrai-me e tira-me energia para as escolhas verdadeiramente importantes e decisivas, que exigem normalmente esforço e constância; enreda-me num automatismo de satisfação imediata que atordoa e adormece as minhas faculdades de pensamento e ação. E não precisam de ser apenas os ditos “prazeres inferiores” da carne, da bebida e da diversão vulgar. Com efeito, mesmo o consumo daquilo que normalmente designamos por “cultura”, até mesmo a mais alta cultura – pintura, teatro, cinema, literatura, etc. – pode conduzir ao tédio existencial, se não tiver a contrapartida da produção ou criação. Porque sem o exercício das suas faculdades, talentos e potencialidades naturais, o ser humano não encontra alegria. Não podemos ser só consumidores, temos também de ser produtores, de participar no diálogo eterno que a cultura significa. Cultivar-se, como escreveu o Pe. Manuel Antunes, não é apenas consumir, mas “exercitar-se, sair da passividade natural… saltar a fronteira do mundo da natureza para o mundo do espírito”. Para Eduardo Lourenço, “a cultura implica a continuidade dum esforço espiritual que se supera aprofundando-se”, porque “A vida autêntica do espírito é luta, esforço permanente para resolver as dificuldades do conhecimento e da acção”[3] (itálicos meus). Sem essa luta e esse esforço, que deve ser uma auto-exigência de cada ser humano, não há, não pode haver felicidade, nem que o mundo se inunde de todos os prazeres dos sentidos. Porque todo o ser humano é, potencialmente, um criador, que pelo exercício correto da sua liberdade pode, aristotelicamente, conquistar a sua “excelência”, quer dizer, uma vida tanto quanto possível feliz, digna da sua humanidade.
O tédio resulta, em larga medida, de um desejo mal dirigido. Se, a cada momento, sou presa dos meus próprios desejos e apetites desgovernados; se sou incapaz de resistir a um estimulo sensorial qualquer que me assedia e vivo inquieto a saltar de um para outro; se sou incapaz de, produtiva e qualitativamente, dirigir a minha atenção prolongadamente ao essencial da minha vida, do meu pensamento e do meu trabalho; então não estarei senão a cavar, cada vez mais fundo, o meu próprio vazio interior. Acabarei dizendo, como a desolada e quase desesperada personagem da peça de Brecht, que “não há nada para fazer”. Porque o homem não quer agitar-se, mas agir com sentido; não quer dispersar-se nem dissolver-se, mas edificar-se, dominar-se, conquistar a sua integridade. E o mais é que o hábito dessa hiperestimulação desregrada gera vícios e multiplicação de falsos desejos que se tornam difíceis de extirpar ao fim de algum tempo, e que, quando não satisfeitos, adensam o sentimento de tédio. O que é hoje um jovem sem o seu telemóvel à mão de semear? Não dizem eles, tantas vezes, que sem o telemóvel ficam entediados e sem saber o que fazer? E não se passa o mesmo com os adultos quando lhes falta a estimulação sensório-dopamínica sem a qual já não sabem viver?
Não digo, evidentemente, que tenhamos de retornar à Idade Média e limitar todas as escolhas materiais, intelectuais, culturais ao alcance do homem, o que seria sobremaneira ridículo. O que digo é que a multiplicação dos desejos e das escolhas, numa sociedade que naturalmente se quer aberta e democrática, tem de implicar, concomitantemente, uma educação da atenção, que não é senão parte fundamental da tal educação para a liberdade de que falei mais atrás.
O grande escritor-filósofo russo Dostoievsky, nisto como noutras coisas, previu a condição do homem moderno. Na sua obra maior de 1880, Os irmãos Karamazov, põe na boca do monge Zóssima estas palavras extraordinárias:
“Porque o mundo diz: «satisfazei os vossos desejos, pois tanto direito tendes vós como o rico e o poderoso. Não temais satisfazê-los, antes sim multiplicai-os.» Eis a moderna doutrina do mundo. E nela dizem que se apoia a liberdade. Mas que resulta deste direito à multiplicação de desejos? No rico, o isolamento e o suicídio espiritual; no pobre, a inveja, o crime.(…) Como se despojará o homem dos seus vícios, e que pode esperar-se desse escravo de si próprio acostumado à satisfação de todas as necessidades que inventou? Isolado no seu egoísmo, que lhe importa o resto da humanidade? Vão-se amontoando riquezas, mas a alegria terá diminuído no mundo.”[4]
E, a seguir, pergunta lapidar:
“Quem está mais apto a conceber uma grande ideia e a servi-la, o rico encastelado nos seus bens ou o homem que se livra da tirania dos objetos e dos hábitos?”[5]
Com efeito, é esta aprendizagem espiritual que temos de fazer: livrarmo-nos da tirania de certos hábitos e objetos, de modo a podermos, cada vez mais e melhor, “conceber e servir uma grande ideia”. Libertarmo-nos do isolamento, da atomização e do tédio a que nos condena o egoísmo vicioso, a busca cega pelo prazer, encontrando no mundo alguma graça, levando-lhe também alguma graça, sem querer tudo transformar em instrumento de gozo ou conveniência pessoal. Talvez assim possamos evitar que a distopia de Brecht se torne cada vez mais a nossa realidade quotidiana.
[1] Brecht, Bertold, citado por Arendt, Hannah, Homens em tempos sombrios, Relógio D´Água, 1991.
[2] Silva, Agostinho da, “Baden Powell, Pedagogia e Personalidade”, in Textos Pedagógicos II, p.26.
[3] LOURENÇO, Eduardo, “A Europa ou o diálogo que nos falta”, in Ver é ser visto – fragmentos essenciais.
[4] DOSTOIEVSKY, Fiodor, Os irmãos Karamazov, Edições Saída de Emergência, 2018, p.320
[5] Ibidem
Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.










